A Redenção do Jardim Secreto
Jardim suspenso do Valongo, criado por Pereira Passos, é restaurado

Há bem pouco tempo, quem subisse a escadaria que dá acesso ao Jardim do Valongo, no bairro da Saúde, jamais iria acreditar que ali no passado existiu um jardim romântico, formado por caminhos lúdicos e uma cascata, onde a sociedade passeava nos finais de tarde. O que se via era um espesso matagal, muito lixo e abandono. As estátuas em mármore de Carrara que representam divindades romanas estavam danificadas. Os muros estavam pichados e muitos dos elementos originais se perderam, como postes de iluminação, arandelas e o repuxo de água que alimentava a cascata. Ao invés dos passeios bucólicos, o local era usado como moradia de mendigos, ponto de venda e consumo de drogas e refúgio para relações sexuais à luz do dia.


Um aspecto geral do Jardim do Valongo
nos dias de hoje

Desde o final de dezembro de 2002, a realidade do Valongo é outra: a partir desta data foram iniciadas as obras de restauração do jardim histórico, criado pelo prefeito Pereira Passos em 1906. O projeto de restauração, patrocinado pela Bolsa de Valores do RJ, foi assinado pelo arquiteto Wallace Caldas, da Velatura Restaurações, responsável também pelo acompanhamento técnico dos trabalhos. A obra está a cargo da Monsanto Restaurações e a fiscalização está sendo feita pelo IPHAN e pelo Instituto Pereira Passos. A restauração deverá estar concluída em março, quando ficarão faltando a parte de iluminação monumental e paisagismo.


A estátua da deusa Ceres,
em mármore de Carrara,
estava danificada

O primeiro passo foi retirar a grossa camada de entulho e mato que escondiam os detalhes arquitetônicos do jardim. Com as escavações, os arquitetos e técnicos encontraram elementos argamassados que imitam a natureza - as rocailles - , que formam os caminhos sinuosos e que estavam em péssimo estado de conservação. Foram descobertos um acesso formado por tronco de madeira recortado em forma de degraus, e dois bancos. Na lateral esquerda do jardim foram descobertas estruturas em forma de estalaquitites.

Nesta primeira etapa de trabalhos estão sendo restauradas as argamassas imitando a natureza como pedras, caules de árvores e bambus. Também está se fazendo tratamento do material pétreo original, bem como a recuperação estrutural de várias partes que encontravam-se em quase ruína, como as duas pontes imitando troncos de árvores e pedra.

 

Os trabalhos ainda contemplarão o muro de arrimo voltado para a Rua Camerino, que terá o reboco recuperado e as pichações removidas. Em uma segunda etapa será trabalhada a drenagem do morro e o projeto de paisagismo. A terceira e última etapa envolve a parte de iluminação.

Segundo Vera Dias, arquiteta da Fundação Parques e Jardins, as quatro estátuas originais do Jardim do Valongo foram transferidas para o Palácio da Cidade, para a sua preservação. Vera revelou que foram realizadas réplicas das originais, que se encontram no Parque Noronha Santos, na Av. Presidente Vargas, ao lado da Sede da Divisão de Monumentos e Chafarizes da Fundação Parques e Jardins. Estas réplicas poderão retornar ao seu local original após a conclusão de todos os trabalhos.

Antiga Casa do Zelador foi invadida

Um dos problemas que preocupa a equipe de restauração é a invasão da antiga Casa do Zelador do jardim por famílias de baixa renda. O chalé suíço foi depredado e descaracterizado e hoje abriga de três a quatro famílias. Para Wallace Caldas, o ideal seria que o imóvel fosse novamente utilizado como unidade de vigilância para se evitar um novo abandono do jardim.

Outro problema que afeta a estrutura do espaço deverá ser resolvido pela Fundação Parques e Jardins. Durante todos esses anos, árvores de grande porte cresceram entre as Rocailles, contribuindo para acelerar o processo de degradação, já que suas raízes arrebentaram várias partes da argamassa que se localizavam no plano intermediário do jardim. Wallace Caldas lembra que aquelas são espécies invasoras que não fazem parte do paisagismo original e por isso podem ser removidas.

O arquiteto Wallace também explica que a cascata não será reativada com o projeto de restauração, devido às circunstâncias atuais, como a profusão do mosquito da dengue.

O Jardim do Valongo - um oásis romântico na Zona Portuária carioca

Projetado pelo arquiteto-paisagista Luis Rei em 1906, o Jardim do Valongo encontra-se a sete metros acima do nível da rua, em um terreno elevado por uma enorme muralha de arrimo. Possui 1.530 m² e pode ser acessado por escadas pela Rua Camerino. O muro foi criado para evitar o deslizamento do Morro do Valongo e a encosta foi ajardinada para embelezar a região. No projeto original estavam contemplados terraço, passeios, arborização, combustores de gás, depósito de água para irrigação, canteiros e grama, jardim rústico, casa do guarda e depósito de ferramentas.


Vista geral da área central do
jardim após os serviços parciais
de recomposição volumétrica.
Observa-se o lago que recebia
as águas da antiga cascata

Localizado na encosta da atual Rua Camerino com a Ladeira do Morro do Valongo, o jardim se estende por uma região plana ao nível do topo da murada. Aos fundos, incorpora as curvas de nível da ladeira, o que possibilitava o uso de artifícios paisagísticos como as trilhas sinuosas cercadas por rocailles. Na parte de trás foi inserida uma trilha que, galgando as alturas junto com a ladeira, passava por uma ponte de argamassa imitando troncos de árvores e uma gruta, também de argamassa, de dentro da qual escorria um filete de água que compunha um pequeno espelho d'água.

É um típico exemplar de paisagismo romântico e que obedece à tradição de Auguste Glaziou, onde todas as pedras existentes são falsas ou são recobertas por argamassa de forma a unificar o conjunto pétreo do jardim. Foram criados também troncos de árvore em argamassa armada, caídos na relva como que sugerindo a renovação do jardim pela natureza e pelo tempo.

 

O acesso a este "oásis" se faz por uma escadaria de cantaria em granito carioca (gnaiss) com corrimão metálico. Um dos maiores destaques do jardim são as quatro estátuas em mármore representando divindades romanas: Minerva, Mercúrio, Ceres e Marte. Estas estátuas foram retiradas do Cais da Imperatriz de Grandjean de Montigny, localizado próximo, e que à época encontrava-se em ruínas.

Espera-se que o projeto de revitalização da região do Cais do Porto abranja também a área do Valongo, para que o jardim romântico de Pereira Passos não entre em decadência e volte a tornar-se um "jardim secreto".

Fonte: Mais Garrida Produções Culturais

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