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Morro
da Conceição
Outro
dia , um amigo, "carioca da gema" mas "exilado" em Brasília há quase
trinta anos, me mandou um e-mail perguntando se eu conhecia, aqui
no Rio, a Ladeira do João Homem. Ele havia lido um artigo sobre
ruas de nomes curiosos num jornal da capital e não estava conseguindo
localizá-la na geografia da sua memória, no Rio de Janeiro da sua
infância e adolescência.
Engraçado
como poucos cariocas conhecem realmente sua cidade, pensei imediatamente.
Mas, em seguida, reconsiderei. O fato é que o Rio, essa cidade tão
famosa e desejada, guarda, bem escondidos, alguns segredos. Poucos
são aqueles que, num golpe de sorte ou numa procura curiosa e incessante
por sua própria identidade, descobrem áreas "nunca dantes navegadas".
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A
Ladeira do João Homem (Capitão de Milícia João Homem da Costa,
punido, em 1763, pelo Vice-Rei Conde da Cunha por apresentar-se
no regimento, uma manhã, após chamado urgente, vestido de camisolão
- a punição foi trabalhar assim vestido durante todo o dia)
fica no Morro da Conceição, junto com outras ruas de nomes inesperados:
Rua do Jogo da Bola (por causa do jogo de bocha), Ladeira do
Escorrega, Travessa do Sereno, entre outras. |
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Antes
chamado Morro dos Caieiros (caiadores), o Morro da Conceição
situa-se na área da Praça Mauá, no Centro
do Rio de Janeiro. Sua história começa quando
Manoel de Brito, sesmeiro da área do atual morro de São Bento,
permite que um parente seu, chamado Aleixo Manoel, construa,
naquela área, uma pequena ermida dedicada a Nossa Senhora da
Conceição, padroeira de Portugal, lá pelos idos de 1582. Quando,
pouco mais tarde, em 1590, Manoel de Brito doa o morro para
os Beneditinos, a capela é derrubada para o início da construção
do Mosteiro de São Bento. Mas como naquela época uma igreja
não podia ser, simplesmente, derrubada, a ermida é transferida
para o morro em frente, que passa a se chamar Morro da Conceição. |
Morro
bem atípico no Rio, pois não há favela, é um bairro residencial
localizado no centro da Cidade. Lá moram, até hoje, em sua maioria,
os descendentes dos seus primeiros ocupantes portugueses. As casas
mostram, ainda, nas fachadas, as seguintes incrições: "Vila,
Miguel" ou "Vila, Francisco" ou "Vila, Paulo".
A palavra "Vila" para informar que naquela casa morava
toda uma família (pais, filhos, netos, tios, sobrinhos etc ) e o
nome depois da vírgula para indicar o santo padroeiro dos que ali
residiam.
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O
antigo Palácio Episcopal situa-se bem no alto do morro. Construído
para abrigar um convento dos Capuchinhos franceses (expulsos
do Brasil, por questões políticas, em 1701), foi reformado pelo
bispo D. Francisco de São Jerônimo que se agradou do
local por sua linda vista da baía e para lá se mudou. Ao seu
lado ergueu-se a Fortaleza da Conceição, após as invasões de
Duclerc (1710) e de Dugay-Trouin, que "sequestrou" a cidade
em 1711. |
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Situada
em local estratégico, em terras da Igreja, sua finalidade era
defender a cidade de futuras invasões. Mas os primeiros exercícios
de tiros da fortaleza fizeram quebrar alguns cristais na casa
de seu ilustre vizinho e assim, o bispo proibiu a fortaleza
de atirar. Em suas masmorras estiveram presos Thomás Antônio
Gonzaga, José Alves Maciel e Domingos Vidal, inconfidentes degredados
para a África. Hoje a antiga fortaleza abriga o Serviço Geográfico
do Ministério do Exército. |
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Entre
os locais que contam um pouco da história da Cidade,
há, aqui, um bem especial: a Pedra do Sal, situada no
final da rua do Jogo da Bola. O mar vinha até ali e, junto aos
degraus cavados em uma grande pedra, era descarregado o sal
que vinha da Europa, na época colonial. Ponto de encontro de
sambistas e boêmios, na Pedra se reuniam Heitor dos Prazeres,
João da Baiana, Donga, entre outros, nas rodas de samba tão
famosas até os dias de hoje. |
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Mas
a jóia mais preciosa, encravada neste morro é,
sem dúvida, a Igreja de São Francisco da Prainha (porque
o mar vinha até o pé do morro e, em frente à igreja, havia uma
pequena praia), pertencente à Ordem Terceira de São Francisco
da Penitência. Construída no início dos 1600, foi incendiada
pelo governador da cidade na invasão de Dugay-Trouin para evitar
que os franceses tomassem o morro. Reconstruída em 1738, é raramente
aberta ao público e está necessitando de restauração. |
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