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Igreja
da Ordem Terceira dos Mínimos de São Francisco de Paula - Rio de
Janeiro
Pequeno histórico
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A devoção a São Francisco de Paula, fundador da Ordem dos
Mínimos no século XV que dedicou toda sua vida ao exercício
da caridade e da humildade, foi promovida, no Rio de Janeiro,
pelo capuchinho frei Anselmo de Castelvrano, no ano de 1743.
Sua instituição como Ordem Terceira (1), em 1754, coube
ao prelado da diocese, bispo Dom Antônio do Desterro, que
foi também o primeiro irmão desta poderosa ordem de brancos
e notáveis e o iniciador de sua igreja, em terreno no Largo
da Sé Nova (2), que passou a chamar-se Largo de São
Francisco a partir do lançamento da pedra fundamental, em
1759.
A
construção foi conseguida graças a donativos e concluída,
em seu aspecto essencial, em 1801, quando ocorreu o translado
da imagem padroeira - guardada em um dos altares da Santa
Cruz dos Militares (3) - para a capela-mor.
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Projetada
por Manuel Alves Setubal (o mesmo da igreja do Carmo) (4),
o estilo da São Francisco de Paula, pombalino, submete-se aos princípios
"civilizatórios" cosmopolitas de volta ao passado, numa conjugação
de arquitetura clássica e barromínica. Retoma, no traçado, o partido
tradicional usado no reino (5), com duas torres, nave retangular
com corredores laterais, sacristia ladeando a capela-mor, capela
privada (do noviciado). A fachada é rica em detalhes arquitetônicos
e ornamentais, num constante jogo de claros e escuros, cheios e
vazios, retas e curvas - pórtico aberto em arcos, portada principal
enquadrada por colunas direitas e frontão triangular, janelas em
arco de meio ponto ou em perfil sinuoso e conjunto portal - varanda
guarnecida em granito carioca; balaustradas em lioz (6);
pilastras retas e inteiras (em granito carioca), cujo jogo de verticalidade
se prolonga nas torres bulbosas e nos pináculos que enquadram o
frontão, este em linha sinuosa.
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Os
trabalhos de decoração interna estiveram a cargo de Valentim
(7), em sua última obra (1801-1813), Pádua e Castro
(1855-1865) e outros, como o pintor mulato, escravo alforriado
Manuel de Coimbra, contemporâneo de Valentim e autor dos painéis
da Capela do Noviciado, e os escultores Almeida Rios e Chaves
Pinheiro, que executaram os baixos-relevos da nave relativos
à vida de São Francisco de Paula.
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A igreja
foi inaugurada oficialmente em 7 de março de 1855, em solene te-deum,
com a presença dos imperadores dom Pedro II e dona Teresa Cristina.
A Capela
do Noviciado
A Capela
do Noviciado, destinada à iniciação dos novos irmãos da ordem, está
situada ao fundo do corredor-galeria que ladeia a nave da igreja
pela direita. Concluída em 1779, foi devotada a Nossa Senhora das
Vitórias, numa alusão à vitória dos cristãos contra os turcos na
batalha de Lepanto.
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Como
sua congênere no Carmo (8), a capela é um pequeno salão,
que tem três grandes janelas nas paredes do lado direito, três
portas nas do lado esquerdo, duas simuladas e uma que se comunica
com a capela-mor (lado da Epístola). Na parede do altar, duas
portas ligam a capela à sacristia e, na do coro, mais uma porta
a separa do corredor-galeria. A decoração, de estilo predominantemente
rococó, consiste no revestimento em talha dourada sobre fundo
claro e alguma policromia e painéis de pintura. |
A autoria
da talha é seguramente atribuída a Mestre Valentim. Além dele ser
o único entalhador que figura como mestre nos livros de receita
e despesa da ordem entre 1801 e 1813, a talha apresenta uma unidade
composicional e estilística inconfundível de sua grafia plástica.
A capela possui também sete painéis de pintura a óleo sobre tábua
- seis parietais que representam cenas da vida e milagres de São
Francisco de Paula, e um no teto, de Nossa Senhora das Vitórias
- todos de autoria do escravo alforriado Manuel da Cunha.
O altar,
separado do resto da capela por uma elegante balaustrada rococó,
apresenta uma estrutura composicional e decorativa semelhante à
de outros altares de menos porte executados no Rio de Janeiro por
Mestre Valentim. Constitui-se de uma mesa-banqueta em forma de sarcófago
(rococó), que tem ao fundo um retábulo propriamente dito. Um grande
nicho central interrompe o entablamento e invade o espaço do frontão.
No seu interior está uma imagem barroca portuguesa de Nossa Senhora
das Vitórias."
Trecho
do livro "Mestre Valentim" de Anna Maria Fausto Monteiro de Carvalho
- Cosac & Naify Edições Ltda. - 1999
..."Ela
se resumiu, no começo, a uma pequena ermida, que custou - com a
moradia do ermitão - 1:685$536. E precisamente por ser pequena,
em contraste com o número crescente de devotos que a freqüentavam,
já em 1759 era lançada a pedra fundamental da igreja imensa destinada
a substituí-la, mas que só em 1865 ficaria de todo concluída, ...
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...Não
possuíamos ainda cemitério para os brancos, pardos e forros
(9), todos pertencentes às irmandades ligadas a esta
ou àquela igreja. Nelas é que eles eram enterrados. O costume
foi extinto pelo Governo em 1850 por motivo da febre amarela.
E mais catacumbas que a igreja da São Francisco de Paula nenhuma
outra possuía. Numa delas, por imposição de Pedro I, foi enterrada
a Condessa de Iguaçu, filha de seus amores com a Marquesa de
Santos. Comidos os corpos pela cal, limpavam-se os ossos para
guardá-los em nichos. |
As
paredes do seu adro se assemelhavam, assim, um monumental arquivo,
pontilhado de gavetas... E no dia de Finados, eram os caixões retirados
dos seus depósitos para ficar expostos à luz do dia, cobertos de
panos de veludo ou de cetim bordados de ouro.
...e
o Sino do Aragão(10), tão famoso na história da cidade a partir
de 1825 e por vários decênios, lá ainda está na sua torre. Era ele
que dava a hora de recolher às dez da noite - imposta pelo Intendente
- Geral de Polícia Francisco Alberto Teixeira de Aragão - para que
a gente miúda esvaziasse as ruas daí em diante..."
Trecho
do livro "História das Ruas do Rio" de Brasil Gerson, escrito em
1963 - Lacerda Editores, 5a. edição - 2000
Notas
explicativas
(1)
Ordem Terceira - associação de leigos, que se reuniam sob a proteção
de um santo padroeiro, para seguirem, na vida, o exemplo deste santo;
tinha também o objetivo de amparo mútuo, socorro às viúvas e ajuda
aos órfãos; construía hospitais para atendimento médico a seus membros
e igrejas onde estes eram sepultados (não havia cemitérios públicos
na época); dizia-se "ordem terceira" por se tratar de ordem leiga,
já que a ordem dos religiosos masculinos era a "ordem primeira",
sendo a "ordem segunda" a das religiosas femininas.
(2)
Largo da Sé Nova - o largo tinha este nome porque ali foi iniciada,
pelo governador Conde de Bobadela (Gomes Freire de Andrada), a construção
da nova catedral da cidade, devido à ruína da Catedral de São Sebastião,
no morro do Castelo. Tal obra nunca foi terminada e, no local onde
seria a Catedral, foi erguido o prédio onde hoje funciona a Escola
de Filosofia e Ciências Sociais da UFRJ.
(3)
Santa Cruz dos Militares - referência à igreja da Irmandade da Santa
Cruz dos Militares
(4)
Referência à igreja da Venerável Ordem do Monte do Carmo (também
ordem terceira)
(5)
Reino: referência a Portugal
(6)
Lioz; tipo de mármore muito utilizado nas construções coloniais,
que era trazido de Portugal
(7)
Referência a Mestre Valentim da Fonseca e Silva: "Escultor, entalhador,
Valentim da Fonseca e Silva (Serro, MG 1745c. - Rio de Janeiro,
RJ 1813) é levado em 1748 por seu pai a Portugal, onde aprende o
ofício de escultor e entalhador. Retorna para o Rio de Janeiro e
por volta de 1770 abre uma oficina no centro comercial. Pertence
à Irmandade dos Pardos de Nossa Senhora do Rosário e de São Benedito.
Em 1772 trabalha com o entalhador Luís da Fonseca Rosa na decoração
interna da Igreja da Ordem Terceira de Nossa Senhora do Carmo, desenvolvendo
trabalhos até 1800. Durante a gestão do Vice-Rei Dom Luís de Vasconcelos,
entre 1779 e 1790, é o principal construtor de obras públicas da
cidade do Rio de Janeiro nas áreas de saneamento, abastecimento
e embelezamento urbano, como o Passeio Público, feito em colaboração
com o pintor Leandro Joaquim e os decoradores Francisco dos Santos
Xavier e Francisco Xavier Cardoso de Almeida. Entre 1790 e 1813,
executa a talha e imagens sacras para as igrejas de Nossa Senhora
da Conceição e Boa Morte, São Pedro dos Clérigos, Santa Cruz dos
Militares e Ordem Terceira dos Mínimos de São Francisco." Enciclopédia
de Artes Visuais - Itaú Cultural
"A
obra de Mestre Valentim da Fonseca e Silva, o mulato Mestre Valentim
(c. 1745 - 1813), é reconhecidamente considerada pelos estudiosos
da cultura brasileira uma das mais significantes produções artísticas
do Rio da Janeiro do século XVIII, quando a cidade, elevada à condição
de nova capital do vice-reino português, se torna o polo de concentração
de poder da colônia e seu grande foco receptador e difusor de padrões
estéticos.
A produção
de Valentim - de caráter escultórico, arquitetônico e urbanístico
- participou do processo de "civilidade" e de "esclarecimento" da
sociedade carioca e destinou-se, quase exclusivamente, às instituições
governamentais e laicas, dominantes no período: Valentim projetou
e executou monumentais obras civis na cidade, tais como o Passeio
Público e imponentes chafarizes, notadamente na gestão do quarto
vice-rei, dom Luís de Vasconcelos (1779 - 1790); projetou e executou
ainda importantes obras de talha e imaginária em igrejas de poderosas
congregações laicas, além de lampadários, alfaias e objetos sacros.
...
Nesse Rio de Janeiro do vice-reino, Valentim, "filho de um fidalgote
português contratador de diamantes e de uma crioula natural do Brasil"
vivia numa situação de ambigüidade. Pertencia à modesta Irmandade
dos Pardos de Nossa Senhora do Rosário e São Benedito, onde está
sepultado, mas seu trabalho foi praticamente monopolizado por encomendas
governamentais e de congregações laicas. Possuía loja aberta e assinava
contratos - sendo dono da oficina torêutica mais importante do Rio
de Janeiro, estabelecida na rua do Sabão, no quarteirão compreendido
entre as ruas dos Ourives e do Bom Jesus (local onde também morava),
bem no centro dos interesses comerciais da cidade -, apesar de no
Brasil os mestiços que exerciam essa profissão, na condição de "infames
pela raça", não poderem ser patrões." Mestre Valentim - Anna Maria
Fausto Monteiro de Carvalho
(8)
Referência à igreja da Venerável Ordem do Monte do Carmo
(9)
Forros:escravos libertos
(10)
Sino do Aragão: localizado na sineira da esquerda .
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