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Aspectos
clínicos do dengue
por Sérgio França
O dengue clássico se caracteriza pela diminuição
da circulação de plaquetas (plaquetopenia) e
o aumento da concentração do sangue (hemoconcentração),
avaliadas no hemograma. Os sintomas são a chamada febre
do dengue, representada por febre de início súbito,
dor de cabeça, dores musculares, articulares, ósseas,
erupções na pele (parecida com rubéola),
coceira principalmente em palmas e plantas, prostração,
náuseas, vômitos, dor abdominal, diarréia,
tonturas ao sentar ou levantar que podem caracterizar queda
de pressão arterial ao se levantar (hipotensão
postural), hemorragias induzidas ou espontâneas. A febre
pode desaparecer no terceiro dia, mas as manifestações
podem progredir. A presença de febre menor que sete
dias associada a dois ou três desses sinais ou sintomas
indicam dengue clássico, que deve ser notificado).
A
doença evolui a cura dentro de cinco a sete dias, no
máximo dez. Alguns sintomas podem prenunciar gravidade
mesmo que não haja alterações laboratoriais
características de dengue hemorrágico (plaquetopenia
e hemoconcentração), tais como vômitos
muito freqüentes, dor abdominal importante, tonturas
com hipotensão postural, hemorragias. Esses casos devem
ficar sob observação médica. Além
disso, condições prévias ou associadas
como referência de dengue anterior, idosos, hipertensão
arterial, diabetes, asma brônquica e outras doenças
respiratórias crônicas graves podem constituir
fatores capazes de favorecer a evolução com
gravidade.
Após
a introdução do Den-2 na região do Rio
de Janeiro em 1990, observou-se, de imediato, um aumento na
severidade dos sintomas e maior número de hospitalizações
por complicações hemorrágicas e quadros
de choque. Na atual epidemia de Den-3, igualmente, está
sendo observada nos pacientes uma rápida evolução
ao quadro de choque e morte, demonstrando que a amostra apresenta
virulência elevada e ao se disseminar para outras regiões
do país, poderá trazer sérios problemas
de saúde pública.
O
controle do dengue pode ser feito de duas formas. Uma pela
redução de infestação pelo mosquito
e a outra, teoricamente, pela utilização de
uma vacina eficaz. O desenvolvimento de uma vacina para o
dengue constitui um difícil problema tecnológico,
pois como se trata de quatro tipos de vírus, a vacina
deveria conter todos eles, em proporções adequadas.
Por outro lado, essas amostras vacinais deveriam ser previamente
manipuladas para ter suas virulências reduzidas ou eliminadas.
Os
resultados até então obtidos ainda não
permitem definir com certeza quando vacinas eficazes e seguras
estarão disponíveis para dengue, restando como
alternativa as medidas de combate aos vetores.
Dengue
Hemorrágico
O
dengue hemorágico é caracterizado, segundo a
Organização Mundial de Saúde (OMS), pela
concomitância de alterações laboratoriais,
caracterizadas pela diminuição de plaquetas
abaixo de 100 mil e elevação de hematócrito
acima de 20% (hemoconcentração), e de alterações
clínicas associadas à síndrome febril,
apresentadas com gravidades variáveis.
Grau
1 - hemorragia de pele induzida pela prova do torniquete ou
do laço (deixa-se o manguito do aparelho de pressão
arterial entre a pressão máxima e a mínima
por cinco minutos e a prova é positiva se aparecer
na dobra do cotovelo, numa área mínima de 2,5
cm², mais de 20 pontos vermelhos, que se denominam petéquias).
Grau
2 - acrescem-se hemorragias espontâneas de pele (petéquias
em 1/3 dos casos) e mucosas (nasais, gengivais, aumento do
fluxo menstrual, sangramento urinário e/ou vômitos
sanguinolentos). Podem ocorrer modificações
no paladar (particularmente o paciente pode sentir o gosto
de metal).
Grau
3 - acrescem-se derrames cavitários: pleural, peritoneal,
pericárdico; e/ou sinais de pré-choque: redução
da pressão arterial, do fluxo urinário e do
enchimento capilar, pulso fino e rápido, palidez, extremidades
frias, sudorese, sonolência.
Grau
4 - sinais de choque: os sinais acima se agravam com pulso
e pressão imperceptíveis, ausência de
diurese (fluxo da urina), torpor, perda de consciência
que podem evoluir ao óbito. Os casos de choque apresentam
letalidade entre 10 e 50%.
Entretanto,
essa classificação tem muitos problemas práticos
porque, em significativa parte dos casos, o paciente pode
evoluir sem apresentar alterações hemorrágicas
clínicas ou laboratoriais para a síndrome de
pré-choque ou choque, ou pode apresentar outras manifestações
graves, neurológicas, hepáticas e/ou cardíacas,
também sem ter tido hemorragias prévias.
O
dengue hemorrágico não tem relação
com a baixa imunidade do organismo infectado. Aliás,
parece ser o contrário. As formas mais graves poderiam
estar associadas a uma "excessiva" resposta imunológica
do organismo ao vírus, que termina por prejudicar mais
ao primeiro, como se houvesse uma "hipersensibilidade"
ao vírus, que estaria representada pela reação
das células de defesa do organismo (linfócitos
e macrófagos) através da produção
de substâncias (cininas) responsáveis por processo
de aumento da permeabilidade vascular, o qual levará
a perda de líquidos do conteúdo vascular para
fora dos vasos (interstício), responsável pela
queda da pressão arterial e o choque, que é
a causa principal de óbito, e não a hemorragia.
Deve-se
prestar atenção ao fato de que alguns sintomas
podem prenunciar gravidade mesmo que não haja alterações
laboratoriais características do dengue hemorrágico
(plaquetopenia e hemoconcentração), tais como
vômitos muito freqüentes, dor abdominal importante,
tonturas com hipotensão postural, hemorragias. Esses
casos devem ficar sob observação médica.
Além disso, condições prévias
ou associadas como referência de dengue anterior, idosos,
hipertensão arterial, diabetes, asma brônquica
e outras doenças respiratórias crônicas
graves podem constituir fatores capazes de favorecer a evolução
com gravidade.
Tratamento
Todas
as pessoas com febre de menos de sete dias durante uma epidemia
ou por casos suspeitos de dengue, cuja evolução
não é possível predizer, devem procurar
tratamento médico onde algumas rotinas estão
estabelecidas para o acompanhamento, conforme a avaliação
clínica inicial e subseqüente, quanto a possibilidade
de evolução para gravidade. A hidratação
oral (com água, soro caseiro, água de coco),
ou venosa, dependendo da fase da doença, é a
medicação fundamental e está indicada
em todos os casos em abundância.
Devem
ser evitados o Ácido Acetil Salicílico (AAS)
e seus derivados porque podem interferir no processo de coagulação,
uma vez que o AAS reduz a adesão das plaquetas e, no
dengue, a diminuição do número de plaquetas
(plaquetopenia) é freqüente; como também
a Dipirona, porque em algumas pessoas baixa a pressão
arterial, o que pode ser confundido com a ocorrência
de baixa pressão por causa do levantamento do paciente
(hipotensão postural), sintoma que pode estar também
presente no dengue.
Pacientes
que forem para casa devem ser instruídos a observar
o aparecimento de sinais de alerta e a retornarem se algo
ocorrer. A repetição da avaliação
deve ser considerada. A alta é indicada após
48 a 72 horas da normalização da temperatura.
Se
a amostra de sangue foi tirada nos primeiros cinco dias depois
do início dos sintomas, outra amostra na fase convalescente
é necessária para medir os anticorpos, duas
semanas depois do aparecimento dos sintomas. Em caso de evolução
fatal, além de sangue para exame específico
de dengue, um fragmento de todos os órgãos,
ou pelo menos de fígado e pulmões nos casos
que não puderem ser submetidos à necropsia,
devem ser retirados e enviados aos centros de referências
para diagnóstico.
O
dengue em crianças
No
sudeste asiático, o dengue hemorrágico é
considerado uma doença infantil, mas nas Américas,
todos os grupos etários são afetados, inclusive
diferentes classes sociais. Uma hipótese, segundo Dr.
Antônio Sérgio, pesquisador do Centro de Saúde
Escola Hermano Sinval Faria, da Fiocruz, é de que as
sucessivas epidemias no sudeste asiático tenham munizado
a população adulta, transformando o dengue em
doença da infância.
As
crianças com dengue costumam ter formas clínicas,
inespecíficas, com menor quantidade de sintomas e sinais.
Mas também podem evoluir para a gravidade, que é
maior em lactentes (crianças abaixo de dois anos).
As crianças com febre de início agudo, como
os adultos, também devem ser levadas para atendimento
médico durante epidemias de dengue pois também
são casos suspeitos da doença. Os mesmos cuidados
devem ser tomados oferecendo-se muito líquido, preferencialmente
água, soro caseiro e água de coco, enquanto
o atendimento é aguardado.
Perguntas
freqüentes:
1)
Quanto tempo leva desde a picada do mosquito até a
manifestação dos sintomas?
Os sintomas começam a aparecer cerca de três
a sete dias depois da picada do mosquito. Às vezes,
o período de incubação pode alcançar
até 15 dias.
2)
Transfusão de sangue é aconselhável no
caso de dengue hemorrágico?
A transfusão é desaconselhada enquanto o nível
de plaquetas não for inferior a 10 mil plaquetas por
mililitro (uma situação de emergência,
pois
o nível normal é de 200 a 300 mil plaquetas
por mililitro).
3)
Como uma pessoa infectada transmite o vírus?
A transmissão só ocorre se ela for picada pelo
Aedes durante seis dias - um antes de apresentar os sintomas
da doença e cinco dias após o aparecimento da
febre. Ao picar outra pessoa, o inseto a infecta. Entretanto,
20 a 50% dos casos, segundo estudos, podem ser assintomáticos
e, no entanto, a pessoa infectada, que foi picada mas não
presentou sintomas ou sinais clínicos da doença,
pode transmitir o vírus para o mosquito que será
capaz de infectar pela nova picada outra pessoa suscetível.
A pessoa é suscetível ao tipo de vírus
que não teve antes, para ficar imune ao dengue precisa
ter sido infectada pelos quatro sorotipos.
4)
Deve-se tomar algo quando houver a suspeita de dengue?
Não. A receita de medicação deve ser
dada pelo médico. Evitar tomar ácido acetil
salicílico (AAS) e todos os medicamentos derivados
(antiinflamatórios), bem como dipirona.
5)
Uma pessoa que nunca teve dengue pode contrair dengue hemorrágico
na primeira contaminação?
Sim. Todos os quatro sorotipos de dengue 1,2,3 e 4 podem produzir
formas assintomáticas, brandas e graves, incluindo
fatais. Deve-se levar em consideração três
aspectos:
1.
Todos os quatro sorotipos podem levar ao dengue grave na primeira
infecção, porém com maior freqüência
após a segunda ou terceira, sem haver diferença
estatística comprovada se após a segunda ou
a terceira infecção;
2.
Existe uma proporção de casos que têm
a infecção subclínica, ou seja, são
expostos à picada infectante do mosquito Aedes aegypti
mas não apresentam a doença clinicamente, embora
fiquem imunes ao sorotipo com o qual se infectaram; isso ocorre
com 20 a 50% das pessoas infectadas;
3.
Asegunda infecção por qualquer sorotipo do dengue
é predominantemente mais grave que a primeira, independentemente
dos sorotipos e de sua seqüência. No entanto, os
sorotipos 2 e 3 são considerados mais virulentos.
É
importante lembrar que muitas vezes a pessoa não sabe
se já teve dengue por duas razões: uma é
que pode ter tido a infecção subclínica
(sem sinais e sem sintomas), e outra é pelo fato da
facilidade com que o dengue, principalmente nas formas brandas,
pode confundir-se com outras viroses febris agudas.
Fontes: Hermann Schatzmayr, virologista e Keyla Marzochi,
infectologista, ambos da Fiocruz
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