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Ele
ia adorar esse tributo
Lançado
pela Som Livre para marcar os 90 anos do poeta, compositor e diplomata
Vinicius de Moraes (1913-1980), o CD duplo produzido por Gilda Mattoso
é marcado pela emoção, a começar pela carta que ela assina logo
na abertura do encarte, de que transcrevo trechos:
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"Meu
querido Vinicius, se ainda estivesse entre nós você faria 90
anos e imagino que você seria um daqueles velhinhos sábios,
simpáticos, amorosos... como a criança, o jovem, o homem que
você sempre foi. Aconteceram tantas coisas desde que você nos
deixou, e é incrível como você continua a fazer sua ronda em
minha vida como aliás sempre fez desde meus tempos de menina
em Niterói, apaixonada por seus livros, supertiete que, como
num conto de fadas, casou-se com seu ídolo. |
Estou
e estarei sempre, Vinicius, em contato com sua poesia, sua música,
seus amigos, sua família... Você deixou em todos nós, que tivemos
o privilégio de sua companhia, um legado de afeto, amizade e amor
que nos fez melhor do que éramos antes de conhecê-lo. Poucas pessoas
tiveram a noção perfeita do que é amar ao próximo como você e, cada
vez que se lança um novo olhar sobre sua vasta obra musical/poética,
paro pra pensar na falta que você faz. (...) O vigor, o lirismo,
a naturalidade e a profundidade com que você tratava os temas abordados
em suas letras causam até hoje perplexidade na gente, como se vê
nessa coletânea que eu, com muito orgulho, fui chamada a produzir.
É mais um modo de conviver, próxima e intensamente, com você. (...)".
Em
outro momento da carta, Gilda fala na valsa que o marido fez para
ela - coincidentemente, sua última gravação - a pouco conhecida
"Gilda", pérola rara que encerra o primeiro CD deste lançamento-homenagem.
Diz a letra (musicada por Toquinho, e interpretada pelos dois):
"Nos abismos do infinito / Uma estrela apareceu / E da terra ouviu-se
um grito: Gilda, Gilda / Era eu, maravilhado / Ante a sua aparição
/ Que aos poucos fui levado / Nos véus do bailado / Pela imensidão
/ Aos caprichos do seu rastro / Como um pobre astro / Morto de paixão
/ Gilda, Gilda, Gilda e eu / Gilda, Gilda, Gilda e eu / E depois
nós dois unidos / Como Eurídice e Orfeu / Fomos sendo conduzidos
/ Gilda e eu / Pelas mágicas esferas / Que se perdem pelo céu /
Em demanda de outras eras / Velhas primaveras / Que o tempo esqueceu
/ Pelo espaço que nos leva / Pela imensa treva / Para as mãos de
Deus / Gilda, Gilda, Gilda e eu / Gilda, Gilda, Gilda e eu".
As
canções mais bonitas estão nesta coletânea, e a voz do poetinha
se ouve em várias faixas, da internacional "Garota de Ipanema" (que
ele canta com Tom Jobim) às mais intimistas "Cotidiano nº 2", "Tarde
em Itapoã" e "Onde anda você" (com Toquinho) , passando pelo emblemático
"Samba da Bênção" e pelo poema "O Haver", que declama acompanhado
pelo violão de Edu Lobo, interpretando "Canto triste" (de Edu e
Vinicius). O poetinha também canta músicas de outros autores, como
"Nature boy" (Éden/Ahbez), "Dora" (Caymmi), "Januária" (Chico Buarque)
e a marcha carnavalesca "Tristeza" ("por favor vá embora / minha
alma que chora / está vendo o meu fim"), entre outras. E há faixas
que se tornaram consagradas nas vozes de diferentes intérpretes,
como é o caso de Tom Jobim e Miúcha em "Pela luz dos olhos teus"
(carro-chefe da trilha sonora da novela "Mulheres apaixonadas"),
Maria Bethânia em "O que tinha de ser" (essa agora na trilha de
"Celebridade"), a sempre cristalina Alaíde Costa em "Insensatez",
uma passional Maysa em "Água de beber" e o inimitável Agostinho
dos Santos em "A felicidade".
Ouvindo
os CDs e lendo o encarte, a gente se emociona mas também ri muito.
Descobre-se, por exemplo, que Sérgio Porto (o impagável Stanislaw
Ponte Preta) dizia que o poeta era plural, por isso se chamava Vinicius
de Moraes; do contrário ele se chamaria Vinicio de Moral. E o cronista
Carlinhos de Oliveira fez o seguinte verso para ser cantado com
a música de "Se essa rua fosse minha": "Se eu tivesse / Se eu tivesse
/ Muitos vícios / O meu nome poderia ser Vinicius / Se os meus vícios
fossem muito imorais / Eu seria o Vinicius de Moraes".
Pra
completar esse presentaço, o encarte (na verdade um livrinho com
ótimo projeto gráfico e ilustrações de Val Ayres) traz textos de
Rubem Braga, Otto Lara Resende e Sérgio Cabral (extraídos do disco
"Marcus Vinicius da Cruz de Mello Moraes", Som Livre, 1990) e nos
CDs, entremeados às músicas, ouvimos depoimentos de Carlos Drummond
de Andrade, Tom Jobim, Calazans Netto e Chico Buarque sobre o amigo
querido. Fora isso, entre as muitas fotos do poeta - com Pixinguinha,
Toquinho, Marília Medalha, Tom, Drummond - destaca-se uma em que
ele aparece ao lado de Lula, no dia 1º de maio de 1979: seu poema
"O operário em construção" fora escolhido pelo Sindicato dos Metalúrgicos
do ABC paulista para ser lido na Missa dos Trabalhadores. Como recorda
sua viúva na carta acima referida, "poucas vezes senti você tão
cheio de emoção e orgulho como naquela longínqua tarde quente, lendo
sua poesia para a multidão respeitosa e comovida de trabalhadores".
E finaliza Gilda Mattoso: "Saímos de lá com a alma lavada e... sabe
o que aconteceu? Aquele rapaz barbudo é hoje nosso presidente da
República, Luiz Inácio Lula da Silva!!!"
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