Victor Hugo, a principal atração

Prometi e estou cumprindo: vou contar aos leitores o que está acontecendo de melhor em Paris nesta primavera. Após o sucesso do Salon du Livre fechando o inverno - qualificado como um dos mais "doces" dos últimos tempos ("un hiver très doux", diziam os parisienses, mas eu tremi de frio) - o bicentenário do poeta, romancista, dramaturgo, desenhista, pintor, marceneiro, ativista político Victor Hugo, figura exponencial da França, é o acontecimento cultural do ano.

Depois de passar um mês fechada, arrumando-se para a festa, a Maison de Victor Hugo, na lindíssima Place des Vosges, voltou a receber visitantes no dia 11 de abril, agora com uma nova mostra que dá ênfase ao teatrólogo, até porque grande parte de seu acervo fixo encontra-se no momento na Biblioteca Nacional da França. E é na Biblioteca que acontece a fantástica exposição "Victor Hugo, o homem oceano", a melhor e mais completa em minha opinião. Dividida em três partes - antes, durante e depois do exílio - exibe 350 manuscritos, cartas, desenhos, caricaturas, pinturas, páginas de cadernos e álbuns, na maioria pertencentes à própria BNF, à qual Victor Hugo legou toda a sua obra gráfica e literária em testamento.

Com relação ao teatro, entre outras montagens, a Comédie Française estreou dia 30 de abril a peça "Ruy Blas"; de 15 de junho a 15 de setembro se poderá assistir a "Os Miseráveis" na Abadia de Villers-la-Ville, e "A Intervenção" ganha o palco do Teatro Off de Paris no dia 25 de junho. Há ciclos de conferências em vários lugares, como a Biblioteca Nacional, a Universidade de Toulouse e o Teatro Molière de Paris, e em meio a dezenas de exposições programadas destaco as seguintes na capital francesa:

Victor Hugo e a Notre-Dame de Paris. A catedral de Nossa Senhora de Paris festeja o bicentenário do autor que a tornou mundialmente famosa com o romance que nos Estados Unidos (e depois no mundo, inclusive no Brasil) ganhou um nome detestado por seu autor: "O corcunda de Notre Dame". Até 31 de dezembro.

Victor Hugo, o homem oceano. Organizada pela Biblioteca Nacional da França em parceria com a Maison de Victor Hugo, esta maravilhosa exposição analisa o caráter visionário de sua obra através de manuscritos, desenhos, pinturas, fotografias, caricaturas e manuscritos. BNF, até 21 de junho.

"Voir des étoiles" - O teatro de Victor Hugo. A Maison de Victor Hugo, onde ele viveu de 1832 a 1848, homenageia sua obra de dramaturgo com uma mostra que valoriza a modernidade de seus escritos teatrais, organizada pela BNF e a Comédie Française. Maison de Victor Hugo, até 28 de julho.

Hugo e a caricatura. Em convênio com a Maison de Victor Hugo, a Maison de Balzac expõe as melhores caricaturas de e sobre Hugo, até 31 de agosto.

Victor Hugo e a música. Exposição organizada pelo Museu da Vida Romântica e pela Maison de Victor Hugo. Musée de la Vie Romantique, de 21 de setembro a 21 de dezembro.

Besançon, cidade natal do escritor, acolhe, de 1º de setembro a 31 de dezembro, a mostra Victor Hugo visto por Rodin. E quem for visitar a exposição "Exilium vita est". Victor Hugo em Guernesey poderá conhecer uma parte até então inacessível do jardim da Hauteville House, onde o escritor se refugiou nos anos de exílio, entre 1851 e 1870. Os combates sociais contra a pena de morte e sua visão da Europa, passando também pela evocação do oceano em sua obra gráfica e literária, estão ali reverenciados. Até 20 de setembro.

No mundo todo se festeja Hugo. Victor Hugo, mil dias na Bélgica, é uma crônica do exílio do escritor, no Centro Artístico Comunal de Waterloo, Bélgica, de 10 de outubro a 15 de dezembro. O Museu Nacional de História e de Arte de Luxemburgo abrigará, de 29 de novembro a 12 de janeiro de 2003, a mostra Victor Hugo e o Grão-Duque de Luxemburgo. A Embaixada da França promove em Berlim, até 31 de dezembro, uma exposição que rememora suas viagens pela Alemanha, e vai iniciar em novembro, em Tóquio, um ciclo de conferências sobre sua obra.

Em Moscou, se estenderão até o final de 2002 as homenagens, que incluem um seminário internacional, representações teatrais, conferências e exposições. O Palácio de Belas Artes de Cantão, na China, abriga até 28 de maio uma exposição de desenhos do homenageado, e a capital do México vai celebrar a data com uma Semana Victor Hugo em setembro. E no Brasil a editora de livros de arte Cossac & Naify prepara uma nova edição, revista e em dois volumes, de "Os Miseráveis", livro tão famoso que além de ter ganho várias versões cinematográficas também se transformou em musical da Broadway.

Autor de outras obras conhecidas, como "O homem que ri", que virou filme ainda nos tempos do cinema mudo, Victor Hugo está para os franceses como para nós está Machado de Assis, que, aliás, traduziu para o português o romance "Os trabalhadores do mar", e escreveu um poema por ocasião da morte de V.H., publicado na "Gazeta de Notícias" de 23 de maio de 1885:

"Um dia celebrando o gênio e a eterna vida,
Victor Hugo escreveu numa página forte
Estes nomes que vão galgando a eterna morte:
Isarás, a voz de bronze, alma saída
Da coxa de Davi; Ésquilo que a Orestes
E a Prometeu, que sofre as vinganças celestes,
Deu a nota imortal que abala e persuade,
E transmite o terror como excita a piedade;
Homero, que cantou a cólera potente
De Aquiles, e colheu as lágrimas troianas
Para glória maior da sua amada gente
E com ele Virgílio e as graças virgilianas;
Juvenal, que marcou com ferro em brasa o ombro
Dos tiranos, e o velho e grave florentino
Que mergulha no abismo, e caminha no assombro,
Baixa humano ao inferno e regressa divino;
Logo após Calderón, e logo após Cervantes;
Voltaire, que mofava, e Rabelais que ria;
E para coroar esses nomes vibrantes,
Shakespeare, que resume a universal poesia:
E agora que ele aí vai galgando a eterna morte,
Pega a História da pena e na página forte,
Para continuar a série interrompida,
Escreve o nome dele, e dá-lhe a eterna vida".

Vigoroso ativista na defesa de causas sociais, Victor Hugo bateu-se contra a política de Luís Bonaparte, contra a ocupação espanhola em Cuba, contra a ocupação russa na Polônia, contra a escravidão nos Estados Unidos. O Brasil, a que ele certa vez se referiu, em carta, como "admirável país, nobre nação de história ilustre", recebeu enorme influência do autor de "Notre Dame de Paris", especialmente entre os escritores do chamado Romantismo, e poetas como Castro Alves e Casimiro de Abreu fizeram traduções de textos dele. Se você quiser outras informações, o site mais completo sobre Victor Hugo é o criado pelo Ministério da Cultura da França: www.victorhugo.culture.fr.


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Apresentação de Nelly Novaes Coelho
Crítica de Luciano Trigo - Prosa & Verso
Apresentação de Evaldo Cabral de Mello



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