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Um
gênio sai do limbo
Como
responsável pela revisão técnica de Antônio Torres - Uma antologia,
tive que ler quatro vezes as 335 páginas do livro, e confesso a
vocês uma coisa: a cada leitura, invariavelmente pontuada com mais
gargalhadas do que a anterior, crescia minha admiração por este
autor praticamente desconhecido do leitor brasileiro de hoje. Não
só o senso de humor mas o sentido de Justiça, a cruzada pela ética,
a perseguição acirrada aos medíocres e corruptos, a capacidade de
polemizar com graça e inteligência, e o texto ágil, saboroso no
conteúdo e perfeito na forma, me fizeram eleger o mineiro Antônio
Torres, morto há quase 60 anos, meu novo guru literário. E aposto
que isso acontecerá também com todos que vierem a conhecê-lo agora,
depois de ressuscitado pela espetacular pesquisa do escritor, tradutor
e diplomata Raul de Sá Barbosa e devolvido às livrarias pela Topbooks,
editora sempre empenhada em recuperar obras importantes relegadas
ao esquecimento neste país sem memória.
Escritor,
tradutor de mais de 100 autores de peso (como Charles Dickens, John
Milton e Virginia Woolf), na década de 70 Raul integrou - ao lado
e Otto Maria Carpeaux, Francisco de Sá Barbosa e outros intelectuais
de expressão nacional - a equipe formada pelo filólogo Antônio Houaiss
para produzir a Enciclopédia Mirador. Mineiro de Caxambu,
ele foi grande amigo de Guimarães Rosa, a quem acompanhou na viagem
pelo Pantanal mato-grossense em 1947. Como diplomata, trabalhou
no Gabinete Civil de Juscelino Kubitschek e foi cônsul-adjunto em
Hamburgo, Alemanha, onde pesquisou sobre seu ilustre antecessor
no cargo, o também mineiro Antônio Torres. Nesta bela Antologia,
além de uma Introdução de cerca de 50 páginas em que nos apresenta
à vida e à obra de Torres, Raul de Sá Barbosa assina mais de 100
notas de rodapé e os textos de abertura dos capítulos, referentes
às obras do polemista, às cartas enviadas da Inglaterra e da Alemanha
a seus maiores amigos (entre eles Gastão Cruls) e aos Apontamentos
- epigramas, idéias e pensamentos soltos que Torres pretendia desenvolver.
O leitor
encontrará aqui um pouco de tudo, a começar por alguns dos poemas
reunidos em Carmen Tropicale, de 1915, até os artigos publicados
na revista cultural Boletim de Ariel, passando pelas crônicas
(Correspondência de João Epíscopo, Verdades indiscretas, Pasquinadas
cariocas, Prós e contras); sem esquecer o violentíssimo As
razões da Inconfidência, conferência feita em 1925 na Associação
dos Empregados do Comércio para marcar o 21 de abril, e que, imediatamente
transformada em livro, vendeu em poucos dias toda uma edição de
3 mil exemplares. Verdadeiro libelo contra os colonizadores portugueses,
foi um dos primeiros best-sellers do mercado editorial brasileiros:
ao final de alguns meses já vendera cerca de 20 mil - e isso há
77 anos, quando tínhamos população muito menor e ainda menos leitores.
Para
completar, o livro traz 16 páginas de fotos raras, como a que mostra
o autor vestido de padre, recém-saído da adolescência, numa rua
de Diamantina e junto aos pais e a seis de seus 10 irmãos (ele era
o primogênito); ou ainda o cartaz convidando para a festa de Santo
Antônio de Lisboa na cidade mineira de Bela Vista, nos dias 17 e
18 de junho de 1911, em que se lê: "Depois da procissão subirá a
tribuna sagrada o eloqüente orador sagrado padre Antônio Torres,
que fará o panegírico do santo". Há também entre as ilustrações
uma caricatura de Torres, seu ex-libris, página de carta enviada
a Gastão Cruls, folha de rosto da primeira edição de As razões
da Inconfidência, e muitas fotos do escritor na Alemanha, onde
morreu em 1934.
Sugiro
ainda que vocês vejam o excelente texto de apresentação
do livro, assinado pelo poeta e crítico literário Alexei Bueno,
fã assumido do ex-padre que se tornou o jornalista mais lido do
país entre 1910 e 1930. E nada melhor do que a crônica O
descobrimento do Brasil para dar a dimensão real da raiva de
Antônio Torres contra a colonização portuguesa, os portugueses em
geral e os brasileiros que lhes puxavam o saco, como era o caso
do também cronista João do Rio (Paulo Barreto), um de seus desafetos.
Divirtam-se!
Leia
a sinopse do livro e, se desejar, encomende-o, com desconto especial,
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