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Sylvia
Telles em 36 canções
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Nos
anos 60 - aquele tempo em que a gente era feliz e não sabia
- minha mãe ouvia muito Sylvia Telles, e eu, criança, aprendi
a gostar de música popular brasileira na voz suave e afinada
daquela moça dentucinha e cheia de charme. (Se a gente pensar
que as crianças de hoje aprendem a gostar de MPB ouvindo Xuxa
e Kelly Key, já dá pra avaliar o quanto a nossa infância foi
melhor, né mesmo?). Quando fui morar sozinha, nos 70, comprei
alguns LPs da cantora, que sumiram de vista quando inventaram
o CD e, numa estranha sincronia, meu toca-discos Garrard enguiçou.
Passados mais ou menos 10 anos, eis que me reconcilio com a
arte dessa magnífica intérprete em 36 faixas distribuídas por
três discos nada menos do que perfeitos. |
O primeiro
deles, relançado pela Dubas Música em 2002, se chama Bossa/ Balanço/Balada,
e foi gravado em 1963 para a recém-criada Elenco. Ali encontramos
duas pérolas de Tom e Vinicius ("O amor em paz" - que ela canta
chorando, e se pode ouvir claramente os soluços - e "Insensatez"),
três de Menescal e Bôscoli ("Rio", "Só quis você" e "Vagamente"),
o indefectível "Samba do avião" de Tom, a intimista "Ilusão à toa",
de Johnny Alf, e mais "Você e eu", de Vinicius e Carlos Lyra, "Rua
deserta", de Dorival Caymmi e Carlos Guinle, e "Bossa na praia",
de Geraldo Cunha e Pery Ribeiro.
A baladinha
"Dorme", parceria de Ronaldo Bôscoli com o primeiro marido da cantora,
o violonista Candinho (José Cândido de Mello Mattos Sobrinho), fecha
o disco, onde há também uma versão belíssima de "Midnight Sun",
dos americanos Sonny Burke, Lionel Hampton e Johnny Mercer, feita
por Aloysio de Oliveira, dono da gravadora Elenco e segundo marido
de Sylvinha. Só pra comparar, peguei na estante um dos muitos songbooks
de Ella Fitzgerald, o dedicado a Johnny Mercer, e constatei que
a gravação da brasileira deste "Sol da meia-noite" não deixa nada
a dever à da americana. É claro que Ella tem uma potência de voz
muito superior, mas a interpretação de Sylvinha é doce e envolvente,
e nos remete para um fim de noite em algum piano-bar de Copacabana.
Em
1965 ela gravou o segundo na Elenco, The music of Mr. Jobim,
igualmente com 12 faixas, nove em inglês e três em português. Em
nota assinada por Aloysio de Oliveira, explica-se que o disco, feito
no Brasil a pedido da americana Kapp Records, foi produzido para
exportação - "daí o seu título permanecer em inglês". Diz ainda
a nota que as nove composições cantadas em inglês "são as versões
originais gravadas nos Estados Unidos por vários artistas, como
Andy Williams, Tony Bennett, Astrud Gilberto e o próprio Tom". Além
de produtor, o segundo marido da cantora participou dos vocais,
e em quatro faixas ele assina a parceria com Tom: "Samba torto",
"Eu preciso de você" (estas em português), "Inútil paisagem" (Useless
landscape) e a eterna "Dindi".
Entre
as nove em inglês, duas ela gravara em português no LP anterior:
"Insensatez" (How insensitive) e "O amor em paz" (Once
I loved, que desta vez ela canta sem chorar). As outras são
as já citadas "Dindi" e "Inútil paisagem", mais "Vivo sonhando"
(Dreamer), "É preciso dizer adeus" (All that's left is
to say goodbye), "Corcovado" (Quiet nights), "Bonita"
e uma belezura de Dorival Caymmi, "Das rosas" (And roses and
roses), que entra aqui como uma espécie de Pilatos (do bem)
no "Credo", já que o LP se pretendia inteiramente dedicado à obra
do maestro Antonio Carlos Brasileiro de Almeida Jobim. Nesse disco,
que a Dubas remasterizou em 2003, a dúzia se completa com "Samba
de uma nota só", parceria de Tom com Newton Mendonça, cuja letra
Sylvinha desfia na língua original.
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Acabo
de encontrar na livraria da Travessa o terceiro e último trabalho
da cantora para a Elenco, recém-lançado em CD pela mesma Dubas
e, assim como os anteriores, produzido por Ronaldo Bastos e
Leonel Pereda. Foi gravado em 1966, pouco antes da morte dela
em acidente de carro, aos 32 anos, e tem arranjos de Lindolfo
Gaya, o mesmo arranjador dos outros dois discos. Intitulado
It might as well be Spring, nome de um dos mais famosos
standards da canção americana (de Oscar Hammerstein II e Richard
Rogers), que abre o disco, nele só uma das 12 faixas é em português:
a deliciosa "Balanço Zona Sul", de Tito Madi, que à mesma época
fez sucesso também na voz de Wilson Simonal. |
Há
mais duas composições americanas: "Baubles, bangles and beads",
de A. Barodin/R. Wright/G. Forrest, e "But not for me", dos irmãos
Gershwin. As outras oito são brasileiras em versões para o inglês,
e entre elas estão três dos irmãos Marcos e Paulo Sérgio Valle -
"Seu encanto" (The face I love, com o parceiro Pingarilho),
"Vamos pranchar" (Surfin' in Rio) e a insuperável "Eu preciso
aprender a ser só" (que ganhou como título If you went away)
- mais a belíssima "Chuva" (Rain) de Durval Ferreira e Pedro
Camargo, e duas de Menescal & Bôscoli: "Tetê" e "Você", que manteve
o título em português. Todas as versões foram feitas por Ray Gilbert,
de uma forma nova, que representou um marco nos anos 60, como explica
no encarte Roberto Menescal, cuja carreira artística começou aos
18 anos, acompanhando Sylvinha ao violão:
"O
Aloysio de Oliveira morou muitos anos em Los Angeles e tinha este
acordo de lançar lá, pela Kapp Records, alguns discos de sua gravadora
Elenco, que mudou o padrão musical da época. Era quase uma cooperativa,
nós estávamos mais interessados em ter um cartão de visitas, que
eram os discos. E foi com este disco, It might as well be Spring,
que a gente conseguiu passar o espírito da Bossa Nova para os americanos.
Finalmente as versões foram feitas pensando-se no sentido original
da canção. Antes, o versionista pegava a música e não queria nem
saber como era a letra, fazia a letra dele, uma nova letra. Neste
disco não. O Aloysio trouxe o Ray Gilbert para o Brasil, para trabalhar
diretamente com cada um de nós [os compositores], para preservar
o sentido do que a gente fazia aqui. Fazíamos as versões juntos,
porque ele queria tudo bem em cima da métrica. E usava muito o som
da palavra original. "Você", por exemplo: ele não traduziu o nome
da música, e na letra manteve o "você" em português, e só entregou
o significado na última frase. Mas pra isso ele teve que ficar aqui
um tempo, morar aqui. E, com as nossas músicas ao lado de músicas
americanas num disco, eles começaram a entender um pouco do que
a Bossa Nova falava. Então esse disco virou uma referência para
muitos artistas de lá, várias dessas músicas foram gravadas por
artistas dos Estados Unidos, como a Sarah Vaughan, o Barney Kessel,
que era um ídolo pra gente...", conta ele, num texto pontuado pela
emoção.
O mesmo
Aloysio de Oliveira assinou a produção e a direção artística deste
disco e nele emplacou duas composições: "Imagem" (Image),
com o parceiro Luiz Eça, e aquele "Samba torto" feito com Tom Jobim,
que a cantora gravara em português no disco anterior, aqui em inglês
e rebatizado de Pardon my English. Lembremos que em 1966,
quando ela fez este que foi seu nono e último LP, Aloysio já era
ex-marido: Sylvia Telles namorava então o advogado Horácio de Carvalho
Jr., filho único do empresário Horácio de Carvalho, proprietário
do Diário Carioca, e de Dona Lily, hoje viúva Roberto Marinho. Horacinho
morreu com Sylvinha naquele desastre, até hoje mal explicado. Foi
no dia 17 de dezembro daquele ano, na rodovia Amaral Peixoto, a
caminho de Maricá; e dizem que o casal estava brigando no momento
do acidente.
Às
vezes, parece que esse mistério contribui, de alguma forma, para
o clima de encantamento que cerca a audição dos três CDs remasterizados
- como se o fato de a cantora ter morrido tão jovem, e de forma
tão fora do comum, nos despertasse uma atenção maior, um cuidado
mais apurado para o trabalho que ela nos deixou, e que prometia
ser ainda mais especial se sua vida fora mais longa. São 100 minutos
de música de alta qualidade, cantada com talento, competência, afinação
e charme, e tocada por alguns dos maiores músicos de todos os tempos,
tais como Bené Nunes e Luiz Eça (piano), Henrique Morelembaum e
Peter Dauelsberg (violoncelo), Copinha (flauta), Wilson das Neves
(bateria), Luiz Bonfá, Roberto Menescal e Geraldo Vespar (violão),
entre muitos outros que capricharam também nas trompas, trompetes,
trombones, flugelhorns, violinos, baixos, harpas, vibrafones, xilofones
e percussão. Enfim, se você achar, depois disso tudo, que não faz
o seu gênero, dá de presente pra sua mãe que ela, certamente, vai
adorar.
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