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"A
terra pertence aos povos que a habitam"
Minha
querida amiga Maria Helena Leitão, jornalista com quem trabalhei
no Jornal do Brasil na década de 70 - e que vive em Madri há mais
de 20 anos - me enviou por e-mail a íntegra do discurso antibelicista
do escritor português José Saramago. Como não vi este texto em nenhum
jornal brasileiro, estou repassando para os leitores da coluna na
tentativa de mobilizar ainda mais as pessoas para a necessidade
de se manifestar contra a guerra.
Criticando
sem medo o ataque insano ao Iraque, o Prêmio Nobel de Literatura
não poupou o presidente José María Aznar, embora esteja radicado
na Espanha há tempos e seja casado com uma espanhola. Seu discurso
foi simples e claro, forte e corajoso, contundente e direto, fácil
de ser compreendido por todos os cidadãos deste imenso mundo, como
você pode ver em seguida.
Íntegra
do manifesto contra a guerra lido por José Saramago,
Prêmio Nobel de Literatura, a 22 de março de 2003, em Madri
Eles
e Nós
Eles
acreditavam que nós havíamos cansado de protestos e que os havíamos
deixado livres para continuar com sua alucinada carreira em direção
à guerra. Se equivocaram. Nós, os que hoje nos estamos manifestando,
aqui e em todo o mundo, somos como aquela pequena mosca que obstinadamente
volta uma e outra vez a cravar seu ferrão nas partes sensíveis da
besta. Somos, em palavras populares, claras e contundentes para
que melhor se entendam, a mosca que morde os colhões do poder.
Eles
querem a guerra, mas nós não vamos deixá-los em paz. Nosso compromisso,
ponderado nas consciências e proclamado nas ruas, não perderá vigência
e autoridade (nós também temos autoridade) nem com a primeira nem
com a última bomba que venham a cair sobre o Iraque. Que não digam,
os senhores e as senhoras do poder, que nos manifestamos para salvar
a vida do regime de Sadam Hussein. Mentem com todos os dentes que
têm na boca.
Nos
manifestamos, isso sim, pelo direito e pela justiça. Nos manifestamos
contra a lei da selva que os Estados Unidos e seus acólitos antigos
e modernos querem impor ao mundo. Nos manifestamos pela vontade
de paz das pessoas honestas e contra os caprichos belicistas de
políticos a quem lhes sobra em ambição o que lhes falta em inteligência
e sensibilidade. Nos manifestamos contra o concubinato dos Estados
com os superpoderes econômicos de todo tipo que governam o mundo.
A terra pertence aos povos que a habitam, não àqueles que, sob o
pretexto de uma representação democrática descaradamente pervertida,
ao final os exploram, manipulam e enganam. Nos manifestamos para
salvar a democracia em perigo.
Até
agora a humanidade tem sido sempre educada para a guerra, nunca
para a paz. Constantemente nos aturdem os ouvidos com a afirmação
de que se queremos a paz amanhã não temos outro remédio que fazer
a guerra hoje. Não somos tão ingênuos para acreditar em uma paz
eterna e universal, mas se a humanidade foi capaz de criar, ao longo
da história, belezas e maravilhas que a todos nos dignificam e engrandecem,
então é chegada a hora de iniciar a mais maravilhosa e formosa de
todas as tarefas: a incessante construção da paz. Mas que essa paz
seja a paz da dignidade e do respeito humano, não a paz de uma submissão
ou de uma humilhação que muitas vezes vêm disfarçadas debaixo da
máscara de uma falsa amizade protetora. Já é hora da razão da força
deixar de prevalecer sobre a força da razão. Já é hora de que o
espírito positivo da humanidade se dedique definitivamente a sanar
as inúmeras misérias do mundo. Essa é sua vocação e sua promessa,
não a de pactuar com supostos ou autênticos "eixos do mal".
Amenamente
estavam Bush, Blair e Aznar conversando sobre o divino e sobre o
desumano, seguros e tranqüilos em seu papel de poderosos feiticeiros,
e conhecedores eméritos de todas as trapaças da propaganda enganosa
e da falsidade sistemática, quando no salão oval onde se encontravam
reunidos chegou a terrível notícia de que os EUA haviam deixado
de ser a única grande potência mundial. Antes que Bush pudesse dar
o primeiro soco na mesa, o presidente José Maria Aznar se apressou
em declarar que essa nova potência não era Espanha. "Te juro, George",
disse. "Meu Reino Unido tampouco", acrescentou rapidamente Blair
para cortar a nascente suspeita de Bush. "Se não é você e se você
não é, quem é então?" perguntou Bush. Foi Collin Powell, mal acreditando
no que estava dizendo com sua própria boca, quem respondeu: "A opinião
pública, senhor presidente".
Já
compreendestes que esta estória é uma simples invenção minha. Peço-lhes
portanto que não lhe dêem importância. Mas já é evidente, para todos
que a têm, a mais exaltadora e feliz constatação destes conturbados
tempos: os feiticeiros Bush, Blair e Aznar, sem querer, sem se propor
a isto, somente por suas má conduta e pior intenção, fizeram surgir,
espontâneo e irreprimível, um gigantesco, um imenso movimento de
opinião pública. Um novo grito de "no pasarán", com as palavras
"não à guerra", percorre o mundo.
Não
há nenhum exagero em dizer que a opinião pública mundial contra
a guerra converteu-se em uma potência que o poder tem que levar
em conta. Nós nos enfrentamos deliberadamente com os que querem
a guerra, lhes dizemos "NÃO", e se mesmo assim seguem obstinados
no seu propósito demente e desencadeiam, uma vez mais, os cavalos
do apocalipse, então os avisamos daqui que esta manifestação não
é a última, que continuaremos os protestos durante todo o tempo
que durar a guerra e inclusive por mais tempo - porque a partir
de hoje já não se tratará simplesmente de dizer "não à guerra",
mas sim de lutar todos os dias e em todas as instâncias para que
a paz seja uma realidade, para que a paz deixe de ser manipulada
como um elemento de chantagem emocional e sentimental com que se
pretende justificar guerras.
Sem
paz, sem uma paz autêntica, justa e respeitosa, não haverá direitos
humanos. E sem direitos humanos - todos eles, um por um - a democracia
nunca será mais que um sarcasmo, uma ofensa à razão, uma gozação.
Os que estamos aqui somos uma parte da nova potência mundial, assumimos
nossas responsabilidades. Vamos lutar com o coração e o cérebro,
com a vontade e a ilusão. Sabemos que os seres humanos são capazes
do melhor e do pior. Eles (não necessito agora dizer seus nomes)
escolheram o pior, nós escolhemos o melhor.
José
Saramago
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