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Sua
Majestade, o Príncipe do Samba
Paulinho
da Viola - ou Paulo Cesar Faria, o PC do Bem - completou 60 anos
em 2002 (mais exatamente em 12 de novembro) com uma integridade,
na vida e no trabalho musical, que poucas vezes se encontra dentre
a chamada "classe artística". Reparem: ele é reconhecidamente um
homem fino, educado, gentil, que trata bem a todo mundo e detesta
confusão; não se vê Paulinho palpitando nos assuntos que são manchetes
de jornal, ou dando entrevistas sobre qualquer tema da moda; ninguém
o encontra fazendo o tipo "arroz-de-festa" nas bocas livres da cidade;
não se pode acusá-lo de marqueteiro, como é o caso de muitos artistas
que passam mais tempo inventando factóides para aparecer na mídia
do que criando obras de arte; nunca se ouviu falar que Paulinho
tenha puxado o tapete de algum colega, ou gravado coisas de que
não gosta só para agradar os manda-chuvas das gravadoras. Enfim,
estamos falando aqui de um grande artista que soube manter em alta
a qualidade de seu trabalho, que não fez concessões e, talvez até
por isso mesmo, está envelhecendo belamente.
Todo
esse hors-d'oeuvre aí em cima é só para introduzir o prato principal:
os primeiros LPs do excelente compositor, instrumentista e cantor
Paulinho da Viola foram remasterizados nos estúdios Abbey Road,
de Londres, e se transformaram em 11 CDS, numa nova roupagem que
os deixou com cara de coleção. O disco de estréia, de 1968, se chama
Paulinho da Viola, simples no título e sofisticadíssimo no repertório:
além de cantar Cartola, Candeia, Elton Medeiros, Nelson Silva e
Hermínio Bello de Carvalho, aos 25 anos ele já mostrava a que vinha
em composições do nível de A gente esquece e Coisas do mundo minha
nega ("as coisas estão no mundo / só que eu preciso aprender...").
Já
no segundo trabalho (1970), Paulinho assina sozinho 11 das 13 faixas,
pérolas raras como Foi um rio que passou em minha vida, Tudo se
transformou, Jurar com lágrimas e Sinal fechado, um de seus maiores
sucessos ("olá, como vai / eu vou indo, e você, tudo bem?"). O seguinte
(1971) tem 14 faixas, onde se destaca uma das minhas prediletas,
Para um amor no Recife. No mesmo ano ele lançou o quarto disco,
com Pressentimento e Para ver as meninas, entre outras preciosidades.
Em 72 veio A dança da solidão, que além da faixa-título ("solidão
é lava / que cobre tudo") apresenta, de sua autoria, Guardei minha
viola, Ironia, No pagode do Vavá e Orgulho (essa com Capinan), entre
outras maravilhas de Nelson Cavaquinho, Monarco, Wilson Batista,
Nelson Sargento e Geraldo das Neves. Nervos de aço, de Lupicínio
Rodrigues, deu título ao sexto disco, de 1973, e em 75 veio o sétimo,
onde o carro-chefe era Argumento ("tá legal, eu aceito o argumento
/ mas não me altere o samba tanto assim"), além de Amor à natureza
("relíquia do folclore nacional / jóia rara que apresento...").
Em
1976 ele colocou dois belos trabalhos no mercado, Memórias / Cantando
e Memórias / Chorando, que, como o nome diz, tem repertório de choro,
com maravilhas de Pixinguinha, Benedito Lacerda, Ary Barroso e do
próprio Paulinho. Veio então, em 78, o décimo LP (agora em CD, obviamente),
do qual eu destaco Coração leviano e uma parceria dele com Elton
Medeiros, Sentimento perdido ("tirei / do coração uma sombra perdida
/ jurei / que nunca mais amaria na vida"). E por fim Zumbido, de
79, que além da faixa-título tem outras ótimas canções de sua autoria,
como Aquela felicidade, Não posso negar, Pode guardar as panelas,
Amor é assim, Recomeçar (com Elton Medeiros), Foi demais (com Mauro
Duarte) e Amor é de lei (com Sergio Natureza).
Tá
morrendo de inveja por saber que eu acabei de ouvir tudo isso? Fica
não. Corre na loja e compra logo a coleção toda, pois não há repertório
melhor para começar 2003 com o pé direito.
P.S.
Se você quiser mais informações sobre Paulinho da Viola, leia o
livro sobre ele que o jornalista João Máximo lançou recentemente,
na coleção Perfis do Rio (co-edição da Prefeitura Carioca com a
Relume Dumará).
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