A memória preservada


Quem for a São Paulo não pode perder uma das melhores exposições já montadas por lá. Trata-se de "A Escrita da Memória", que o Banco Santos, através do banqueiro e colecionador Edemar Cid Ferreira, está mostrando de graça em seu belo espaço cultural na Rua Hungria, Jardim Paulistano, perto do clube Hebraica.

A mostra se divide em três setores. Na primeira parte, o tema é a própria escrita, desde registros anteriores à sua invenção, como é o caso de pedras pré-históricas com inscrições rupestres, datadas de 5000 antes de Cristo, selos em pedra ou terracota, peças de argila da Mesopotâmia, atual Iraque (os tokens), outras em osso de animal com motivos geométricos, da China. Entre as cerca de 120 peças, de grande valor histórico e arqueológico, encontra-se um raríssimo tablete de argila, com envelope do mesmo material, datado de 2100 a.C.: o texto, em escrita cuneiforme, é um documento legal de compra de um escravo da terceira dinastia de Ur, cidade da Mesopotâmia.

Outra peça interessante é a quipo, única forma de escrita tridimensional do mundo, utilizada pelos incas nos séculos XV e XVI. Constitui-se de uma série de fios, todos com diferentes nós (quipo significa nó na língua inca), combinando variáveis como cores, grossuras dos nós e texturas de materiais para compor mensagens complexas, que eram decifradas por especialistas (quipucamayocs).

Há peças da Báctria (hoje Afeganistão), do Saara, da região do lago Van (atual Turquia), da Assíria, da Suméria. O Egito está muito bem representado, com raridades como um vaso branco de mármore com inscrições da XXII dinastia (945-715 a.C.), um baixo-relevo em calcário (séc. III a.C.), um vaso cilíndrico em diorito, com inscrição (1479-1425 a.C.), placas em calcário com baixo-relevo (2686-2181 a. C.), elementos funerários em calcário e madeira e mesmo um sarcófago em ótimo estado, da XXI dinastia (1069-945 a.C.).

O mesmo ocorre com a China, de que se pode ver desde um osso da dinastia Shang (1600-1100 a. C.) a epitáfios em pedra, vasos esmaltados, garrafinha para rapé, porta-pincéis de porcelana e espelho de bronze, todos com inscrições (do século VII ao XIX), além de textos budistas, mapas e espadas de metal belíssimas.

Outra região de boa representatividade na mostra é a Mesoamérica, que se compõe do Sul dos Estados Unidos, México e parte da América Central. Da arte maia podemos ver um vaso cilíndrico em terracota, uma estela em pedra, um vaso trípode e outro cilíndrico em cerâmica policromada, além da fascinante escrita tridimensional, o quipo.

Da escrita alfabética, que começou com os fenícios, há peças interessantíssimas, como a tigela em cerâmica com inscrição em aramaico (Oriente Médio), o vaso-ânfora em calcita com inscrição cananéia (Egito), selo em pórfiro vermelho e escaravelho em jaspe (Fenícia), um dodecaedro em pedra com letras gregas e outros símbolos (Roma), roda bizantina e espelho, ambos de bronze, com caracteres gregos, uma lâmpada circular em cerâmica com linhas de escritura grega, um mosaico bizantino em cerâmica, um papiro grego do século VI a.C., selos e placas de bronze, além da peça que elegi como minha preferida: um fantástico anel bizantino em ouro, de design enxuto e moderno (por que a H. Stern não copia coisas assim, e insiste em suas jóias pesadonas?), com o nome do proprietário gravado, e mais ou menos uns 1.500 anos de existência.


Na segunda parte da mostra encontramos cerca de 170 documentos onde se vê a escrita como suporte da criação - artística e científica. São textos e imagens (em vídeo) de Albert Einstein, Villa-Lobos, Santos Dumont, Mário de Andrade, Delacroix, Sigmund Freud, Gabriela Mistral, Jorge Luis Borges, Oscar Niemeyer, entre muitos outros. Neste espaço há também cartas de nomes consagrados, com suas caligrafias tão diferentes: Victor Hugo, Alexandre Dumas, Gonçalves Dias, José de Alencar, Machado de Assis, Olavo Bilac, Cecília Meireles,

Carlos Drummond de Andrade, Tennessee Williams, João Cabral de Mello Neto, Monteiro Lobato, Graça Aranha, José Lins do Rego, Graciliano Ramos, Oswald de Andrade, Murilo Mendes, Rubem Braga, Albert Camus, Jean-Paul Sartre, Simone de Beauvoir, Pablo Picasso, Miró, De Chirico, Magritte, Cézanne, Gauguin, Toulouse-Lautrec, Renoir, Pisarro, Monet, Stravinsky, Tarsila do Amaral, Portinari, Di Cavalcanti, Cícero Dias, Carybé, Le Corbusier, Joaquim Nabuco, Gilberto Freyre, Bernard Shaw, Nelson Rodrigues.

Há um incrível bilhete de Jean Genet, de 1949, em que o "escritor maldito" agradece ao presidente da França por tê-lo indultado, atendendo a um pedido de Sartre e Jean Cocteau. Genet livrava-se assim de dois anos de cadeia por roubo, e na carta de agradecimento fez um desenho em que se retratou com auréola de santo, como que a prometer bom comportamento, dali em diante.Também encontramos cartas de Charles Darwin, Albert Sabin, Louis Pasteur, Madame Curie, Oswaldo Cruz, Vital Brasil, Carlos Chagas e outros cientistas e médicos.

Na terceira e última parte há mais 140 documentos de figuras históricas, como Carlos V, Filipe II, Fernando V, Isabel de Castela, Dom Sebastião, Maquiavel, Bolívar, Dom José I, Marquês de Pombal, Dom João VI, Dom Pedro II, rainha Vitória, Thomas Jefferson, Getúlio Vargas, e até o documento de casamento de Josephine e Napoleão Bonaparte. Entre cardápios antigos e receitas anônimas, uma dos mais interessantes peças desta parte da mostra são as anotações, em inglês, das mensagens de socorro dos passageiros do Titanic, recebidas por telégrafo: iniciam-se às 23h15, quando o navio bateu no iceberg, e terminam às 2h19 da madrugada.

Completando a exposição, há uma grande quantidade de manuscritos em suportes como pedra, telha, pergaminho, tecido e casca de árvore, além de impressos e livros antigos, entre eles uma Bíblia editada em Nuremberg em 1493.

E também vários tipos de penas, canetas, tinteiros, máquinas de escrever, instrumentos de escrita e de leitura (como é o caso da mãozinha de prata - yad em hebraico - do século XIX, usada para ler os textos sagrados do judaísmo), mais uma parede inteira com telões onde são projetadas imagens de seres humanos produzindo textos.


Para facilitar o entendimento do leitor, enumero aqui os 10 módulos em que se divide a mostra:

1. Registros humanos anteriores à escrita.
2. Os berços da escrita: Mesopotâmia, Egito, China e Mesoamérica;
3. Escritas alfabéticas;
4. A escrita do sagrado;
5. Outras formas de escrita;
6. Arte caligráfica;
7. A revolução da imprensa;
8. Memória e documentos;
9. A escrita e a criação: arte e ciência; e
10. Instrumentos da escrita e da leitura.

"A escrita da memória" está em cartaz de terça a sexta-feira, das 10h às 17h30, e aos sábados, domingos e feriados das 10h às 16h30, no Instituto Cultural Banco Santos, Rua Hungria, 1.100, Jardim Paulistano, São Paulo. A entrada é franca, e pode-se agendar visitas guiadas para grupos pelo telefone (11) 3818.9591. Há monitores no local e acesso para deficientes físicos, e no estacionamento do Shopping Eldorado existem vans que levam de graça para a exposição. Ou seja, você só não vai se for um tolo...

Visite o site da exposição, clicando aqui.

Apresentação de Nelly Novaes Coelho
Crítica de Luciano Trigo - Prosa & Verso
Apresentação de Evaldo Cabral de Mello



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