Com tinta nas veias

Conheço Marcia Cisneiros há 30 anos, e sempre admirei nela a alegria, a vitalidade, a determinação. É uma pessoa que a gente tem prazer de encontrar, uma amiga cheia de energia que sempre nos faz sentir revigorados com sua presença. Digo isso só pra explicar que me espantei muito menos do que ela própria quando fui a sua casa-ateliê, na Rua Candido Mendes, Glória, e conheci seus quadros. Tá certo que é surpreendente ver uma pessoa que nunca pintara antes se descobrir pintora - e das boas! - em plena idade madura, mas de Marcia sempre esperei tudo de bom ou de louco. Sei que acharia normalíssimo se ela virasse trapezista da Intrépida Trupe, monja budista na Índia ou surfista no Havaí, de forma que recebi aquelas novas informações sobre a Marcia-artista-plástica com tranquilidade, como se já estivesse esperando por alguma coisa assim. E, acompanhando desde então este seu processo de mudança, posso afirmar agora que, além de se reinventar como pintora aos 50 anos, ela vem aprimorando sua arte dia a dia exatamente por ser do jeito que é: como não tem medo de errar, a autodidata Marcia está sempre experimentando novos suportes e materiais, criando técnicas próprias, fazendo sua revolução artística particular.


Mandala, lápis de cor,
2003
No Recife, onde nasceu, Marcia Cisneiros era uma atriz promissora, que fez muito teatro, inclusive sob a direção de Hermilo Borba Filho, e atuou no filme "Crueldade mortal", do cineasta Luiz Paulino, mas enfrentava a dura resistência da mãe a essa sua escolha profissional. Assim, quando veio para o Rio, em 1968, ela acabou optando pela estabilidade e abandonou o palco. Ao longo de muitos anos de trabalho como assistente social, Marcia continuou preparando as receitas ricas e saborosas que aprendeu com a mãe e as tias: biscoitos confeitados, o tradicional bolo-de-rolo pernambucano, tortas grandes para aniversário de criança nas quais criava belas imagens com açúcar colorido. Ou seja, está claro que artista ela sempre foi, desde pequenina. Mas nunca imaginou que um dia viesse a se tornar uma pintora, e de alta qualidade: nas aulas de desenho, no colégio, era aluna apenas medíocre, e não lhe passava pela cabeça que fosse capaz de criar uma imagem especialmente bonita.

Marcia enviuvou, aposentou-se, passou a ficar mais em casa, curtindo o filho Albino e criando belas caixas de presente e delícias gastronômicas para complementar a aposentadoria. Numa noite em que se encontrava muito cansada, começou a rabiscar com caneta BIC e viu se formar sobre o papel uma figura feminina parecida com ela. Espantou-se com a qualidade daquele quase auto-retrato. "Levei um susto!", conta. "Eu pensava: 'Que coisa incrível, nunca imaginei que soubesse desenhar, nem no colégio era boa desenhista, como é que pode uma coisa assim?' Gostei tanto que não parei mais".


Maracatu, lápis de cor,
2003
A arte tomou conta dela como num caso de possessão. Na festa de seus 50 anos, mostrou aos amigos os muitos cadernos cheios de desenhos coloridos; todo mundo se encantou e a incentivou a continuar, a investir de verdade nisso, e uma professora de arte ajudou-a comprando-lhe tintas e pincéis. "Lembro-me dessa época como a mais feliz de minha vida", confessa Marcia. Logo após a maravilhosa descoberta, outros materiais foram entrando em sua vida: dos cadernos passou para os cartões, as telas, as bolsas de plástico; à caneta BIC veio se juntar o pastel, a aquarela, a tinta acrílica, o carvão, o lápis de cor e, ultimamente, as canetas coloridas.

Em 1996 Marcia pela primeira vez mostrou ao público o seu trabalho participando do movimento "Arte de Portas Abertas", que envolve a maioria dos artistas de Santa Teresa. No mesmo ano expôs sua produção numa coletiva no Centro Cultural Laurinda Santos Lobo, naquele bairro. Em 97 foram duas coletivas, uma delas em São Paulo, na Casa da Cultura e Museu Barão de Mauá, e em seguida ganhou individual em Minas Gerais: sua obra ficou no Espaço Cultural Trianon, em Belo Horizonte, durante 40 dias, e teve enorme receptividade. Uma colecionadora mineira conheceu ali a arte de Marcia, comprou um quadro e se tornou cliente fiel: até hoje, sete anos depois, continua mantendo contato e adquirindo obras dessa pernambucana-carioca.


Mulher na praça, acrílico sobre
papel, 2002
Em 1998 foram duas individuais e três coletivas, e ela disparou, produzindo também calendários de mesa. Cozinheira de mão cheia, em dezembro de 2000 lançou um livro com suas receitas, cheias de segredos aprendidos na infância e juventude em Recife: "Poética da Culinária" reunia, além de delícias gastronômicas, textos em prosa e poesia belamente ilustrados pela própria autora. Em 2001 fez duas exposições individuais no Rio e uma em São Paulo e deu um show no programa de Rodolfo Bottino - o "Gema Brasil", na TVE - falando sobre sua pintura e preparando, na hora, o famoso bolo-de-rolo.

Não demorou muito para que seu trabalho fosse descoberto por gente de outras áreas. Em 2002, a designer Sonia Goulart, autora do projeto gráfico do livro "A questão de gênero no Brasil", editado por uma instituição voltada para a valorização da mulher, o Cepia - Cidadania, Estudo, Pesquisa, Informação e Ação - enviou para o Banco Mundial, que dava apoio à edição, ilustrações de diferentes artistas, entre eles Marcia Cisneiros. E o Banco Mundial escolheu exatamente uma obra dela para enriquecer a capa do livro: "Cenas de um bar". No ano seguinte, ela foi contratada pelo Cebela - Centro Brasileiro de Estudos Latino-Americanos - para realizar 12 trabalhos de pintura e colagem com fotos do falecido filólogo e acadêmico Antonio Houaiss; um deles foi escolhido para ilustrar a capa da revista cultural "Comunicação & Política" (edição de maio-agosto/2003), e todos os 12 quadros passaram a fazer parte do acervo fixo do Memorial Antonio Houaiss. Também em 2003 o quadro "Reflexão", lindíssimo trabalho em preto e branco retratando uma mulher nua ao espelho, foi o selecionado para a capa do livro "Trabalhando com mulheres e Aids / Cartilha de orientação para multiplicadores", editado pelo Cepia com apoio do Ministério da Saúde, Secretaria Municipal de Saúde/RJ e UFRJ.

Além da pintura, ela se aventurou na escultura em barro: modelou lindas peças e vendeu todas em pouco tempo. Hoje fazem sucesso também suas criações em lápis de cor e em canetas coloridas, e os calendários ilustrados já se tornaram famosos: no mês de dezembro muita gente vai a sua casa-ateliê especialmente para comprá-los e dar de presente de Natal. Embora só haja descoberto a vocação há poucos anos e nunca tenha tido aulas de pintura, Marcia Cisneiros já é conhecida nacional e internacionalmente: agora seus quadros estão também em casas e escritórios da Inglaterra, França, Irlanda e Estados Unidos, entre outros países, pois são muitos os turistas estrangeiros que se tomam de amores por sua arte ao encontrá-la exposta na loja La Vereda, no Largo do Guimarães, em Santa Teresa. Tipicamente brasileira nas formas e, sobretudo, na intensidade tropical das cores, a pintura de Marcia é puro reflexo de sua autora, e faz a gente se sentir do mesmo jeito que quando nos encontramos pessoalmente com ela: mais forte, mais vital, mais feliz.

Contatos com Marcia Cisneiros: (55-21) 2232-3128 - Rio de Janeiro

Apresentação de Nelly Novaes Coelho
Crítica de Luciano Trigo - Prosa & Verso
Apresentação de Evaldo Cabral de Mello



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