|
A
biblioteca de Machado de Assis - Crítica
Luciano
Trigo - Prosa & Verso - O Globo (29/12/2001)
Os
milhares de artigos e ensaios que constituem a fortuna crítica de
Machado de Assis mostram que seu patrimônio literário é inesgotável.
E está chegando às livrarias mais um volume indispensável a qualquer
leitor do Bruxo do Cosme Velho: “A biblioteca de Machado de Assis”,
com organização de José Luis Jobim e ensaios de Jean-Michel Massa,
Gloria Vianna, Ivo Barbieri e John Gledson, entre outros.
Co-editado
pela Topbooks e pela Academia Brasileira de Letras, é um desses
livros que, quando lançados, a gente se pergunta como foi possível
passar tanto tempo sem eles. Não se trata de mera catalogação do
acervo da biblioteca machadiana — embora as informações detalhadas
nesse terreno, por si só, já justificassem a obra — mas de um verdadeiro
guia para compreender Machado através da contextualização literária,
da intertextualidade e da identificação das múltiplas vozes com
que o escritor manteve diálogos fecundos, cuja interpretação ainda
está longe de chegar ao fim.
Pesquisa
resgata as anotações do escritor nas margens das obras
| Como
o próprio Jobim explica na apresentação, é uma pesquisa fundamental
por pelo menos cinco motivos: permite comparar o universo de
leitura do escritor com os padrões da época, no Brasil e na
Europa; permite comprovar ou refutar teses teóricas sobre determinadas
influências; ajuda a estabelecer os vínculos de Machado com
o pensamento científico de seu tempo, sobretudo em relação à
psiquiatria, à lingüística e ao positivismo; analisa os comentários
feitos pelo próprio Machado nas margens de seus livros; reconstitui
historicamente o papel das obras do acervo no horizonte da época
em que o autor viveu. |
|
O volume
começa com o justo reconhecimento ao pesquisador francês Jean-Michel
Massa, que em 1961 realizou um levantamento pioneiro, publicado
na “Revista do Livro”, da já então bastante desfalcada biblioteca
machadiana — parte fora doada no dia seguinte à morte do escritor,
em 1908, e jamais recuperada; outra parte se perdera durante a Segunda
Guerra, destruída pela umidade. No texto que abre o livro, Massa
comenta o desafio da compilação minuciosa em “domínios lingüísticos”.
Compilação que iluminava a obra machadiana, multiplicando questões
sobre ela.
A biblioteca
do escritor não revela apenas seus gostos e idiossincrasias, mas
reflete a tradição cultural em que ele se insere, contribuindo para
a reconstituição de uma paisagem histórica, intelectual e social.
A pesquisa de Jobim serve também para o mapeamento dos títulos relevantes
no período e como eram recebidos — e em que medida a obra de Machado
representou uma continuidade ou uma diferença em relação ao “padrão
vigente” em seu contexto de produção — ou em relação ao que Jobim
chama de “sistema de referências intelectuais de seu tempo”.
José
Guilherme Merquior tinha razão quando afirmou que foi com Machado
que a literatura brasileira entrou em diálogo com as vozes decisivas
da literatura ocidental. O autor de “Dom Casmurro” era um leitor
voraz. Se nunca foi à Europa, a Europa veio até ele através dos
livros, tornando-o um viajante imóvel, o que explica seu distanciamento
crítico em relação à realidade brasileira de seu tempo, que decifrou
como ninguém. Seus campos de conhecimento e interesse abarcavam
literatura, lingüística, História, filosofia, sociologia e psicologia,
e devemos lembrar que ele leu muito mais do que sua biblioteca continha,
numa sugestão de erudição que hoje soa esmagadora para o leitor
medianamente culto.
Volume
lista dedicatórias, cartões de visitas e fotos encontrados nos livros
Vale
lembrar aqui que, em texto publicado recentemente no Brasil, o ensaísta
George Steiner afirma que obras que já foram marcos culturais hoje
já não se encontram mais ao alcance de pessoas razoavelmente cultas:
as mais elementares alusões à mitologia grega, ao Antigo e ao Novo
Testamento, aos clássicos, à História antiga e à européia tornaram-se
herméticas. Toda a literatura grega e latina e todas as tragédias
de Voltaire se tornaram inacessíveis aos leigos. Apesar das toneladas
de informações instantaneamente disponíveis, nossa bagagem cultural
parece substancialmente depreciada quando nos deparamos com a diversidade
da biblioteca machadiana.
Refazendo
o inventário dos livros, a pesquisadora Gloria Vianna acrescenta
15, anteriormente perdidos, aos 718 listados por Massa em 1961.
A nota triste é que 42 volumes daquela lista se extraviaram. Antes
de chegar à Academia, aliás, a biblioteca cumpriu uma verdadeira
saga, relatada por Gloria, que ainda lista dedicatórias, selos de
livrarias e objetos encontrados dentro dos livros, como cartões
de visitas, fotografias e folhas secas, além de um valioso catálogo
de citações da obra de Machado.
Os
ensaios seguintes, de Ana Lucia de Souza Henriques, Maria Elizabeth
Chaves de Mello e João Cezar de Castro Rocha, se detêm sobre três
fontes específicas da escritura machadiana: Ossian, poeta celta
do século III; Laurence Sterne, de quem o clássico “Tristram Shandy”
é influência sobre “Brás Cubas”; e a revista do Instituto Histórico
e Geográfico Brasileiro. Complementam a edição ensaios de Ivo Barbieri,
Claudio Cezar Henriques e do próprio Jobim. “A biblioteca de Machado
de Assis” era mais um volume que faltava no contexto dos estudos
machadianos.
E veja
as promoções da TOPBOOKS, clicando
aqui.
TOPBOOKS
EDITORA E DISTRIBUIDORA DE LIVROS LTDA.
RUA
VISCONDE DE INHAÚMA, 58 / SALA 203 - RIO DE JANEIRO CEP 20091-000
TELEFAX: (21) 2233.8718 e 2283.1039
e-mail: topbooks@topbooks.com.br
|
|