HISTÓRIA DA LITERATURA BRASILEIRA E OUTROS ENSAIOS

Joaquim Norberto de Sousa Silva
Organização, apresentação e notas de Roberto Acizelo de Souza
Zé Mário Editor/Fundação Biblioteca Nacional

Quem pensa no Brasil da primeira metade do século 19, aquele Brasil descrito pelos viajantes, pensa-o como naquelas cenas pitorescas pintadas por Debret, Rugendas, Steimann, Planitz e outros, onde, em meio a uma paisagem exuberante, e uma população multicor, reinava um jovem monarca muito alto e muito louro, com seu manto de penas de tucano. Quem lembra dessas imagens, pensa num Brasil com a cara da Bahia em pleno carnaval, um ambiente pouco propício ao debate intelectual. Mas foi em torno daquele jovem imperador, precocemente envelhecido, educado para ser um erudito, que se constituiu uma corte intelectualizada, uma espécie de recriação tropical da corte filosófica que cercava o ''divino Frederico'' em Potsdam. ''Um soberano'', como diz Joaquim Norberto de Sousa, ''dotado de uma inteligência tão elevada como seu coração, [que]ostenta no trono e na flor da mocidade o amor filosófico à liberdade e à sabedoria.'' Estudos sobre o ambiente intelectual da corte de D. Pedro II, como os de Lilia Schwarcz e João César Castro Rocha, nos revelam que este foi movimentado por algumas polêmicas, das quais a mais célebre foi a que envolveu o jovem jornalista e escritor José de Alencar e D. Pedro II em torno do poema de Gonçalves de Magalhães, ''A confederação dos Tamoios''.

Joaquim Noberto de Sousa foi um dos personagem mais ativos na corte de artistas e intelectuais que cercavam D. Pedro II. Nascido no Rio de Janeiro em 1820, Joaquim Norberto começou a vida como caixeiro de uma casa comercial, logo ingressando no serviço público, destino certo para quase todos os homens de letras do seu tempo. Foi a partir daquele ano de 1841 que iniciou sua atuação no meio intelectual do Rio de Janeiro numa trajetória que o levou à presidência do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro e que só se encerrou com sua morte, em 1891. Suas obras literárias propriamente ditas, em poesia e ficção, no entanto, não são consideradas relevantes pela crítica, sendo mais reconhecido por suas contribuições à história da literatura brasileira.

Este volume é a mais completa reunião de textos que comprovam esse esforço. Os capítulos que compõem a primeira parte do livro, marcados por um exacerbado nacionalismo romântico, lidam com o tema da especificidade da literatura brasileira. Noberto debate com outros autores em torno da questão: existe uma literatura brasileira ou devemos reconhecer nesta apenas um gênero da literatura portuguesa? Esta proposição leva o autor a reflexões mais gerais sobre o caráter específico da cultura brasileira em contraste com a portuguesa e sobre o que se concebe, de uma maneira mais abrangente, como literatura nacional. Um aspecto desse debate que merece reflexão é o diálogo encetado entre o autor e críticos estrangeiros, tais como o espanhol Juan Valera, o peruano Santiago Nunes Ribeiro e os franceses Louis Burgain, Emile Adet, Eugène de Monglave, que nos sugere que o mundo intelectual brasileiro não era assim tão isolado no século 19.

Autor difícil de ler, o estilo de Norberto torna-se particularmente pesado, gongórico, exagerado, no capítulo que trata da influência da natureza sobre a literatura de nosso país. Em meio a uma irritante sucessão de metáforas, antíteses, inversões, alusões clássicas e frases retumbantes que prejudicam a apreensão do conteúdo, ele produz um ''porque me ufano'' avant la lettre chatíssimo, em que desenvolve seu argumento através de passagens como esta: ''a imaginação avigora-se nesse berço imenso, educa-se com o espetáculo que tem ante si, e, como o condor, nascido nos píncaros dos Andes, olha e contempla ainda implume a imensidão do espaço, e depois, sem temor, ensaia o ardido vôo.''

O estilo se suaviza nos dois capítulos que tratam da literatura indígena. A partir do relato de viajantes europeus, Norberto reconstitui ou recria de forma muito feliz algumas lendas indígenas para provar a existência de uma literatura brasileira anterior ao descobrimento. A tese é discutível, mas as analogias que Norberto estabelece entre elas e alguns mitos da cultura ocidental são extremamente instigantes. O contraste entre o estilo de Norberto e a leveza e simplicidade da narrativa nessas lendas nos leva também a pensar em que medida elas eram de fato registros fiéis da narrativa oral. De qualquer maneira a linguagem despojada que se usa ali é a mesma com que se convencionou construir narrativas atribuídas aos índios brasileiros. Vide Darcy Ribeiro com o seu Uirá.

Do maior interesse é também o seu estudo sobre o papel do teatro no trabalho de catequização dos índios pelos jesuítas. Essas primeiras manifestações do nosso teatro, das quais quase não ficaram registros, são descritas por alguns viajantes e é a partir desses relatos que Norberto trabalha. Naturalmente que, tanto no caso das lendas, e com mais razão ainda no do teatro, a tese de uma literatura brasileira permanece discutível, mas o tratamento monográfico dado pelo autor aos temas e seu trabalho de pesquisa constituem, sem dúvida, uma contribuição admirável ao estudo da evolução de uma cultura brasileira que se beneficiou tanto das manifestações barrocas do teatro no Brasil colonial quanto da chamada literatura indígena.

Nos capítulos daquela que seria a história da literatura brasileira, merece especial destaque o que trata do século 17, centrado quase que exclusivamente na vida e na obra de Gregório de Matos. Mas é a reconstituição do ambiente literário colonial o aspecto mais interessante de todo o livro. A vida intelectual da colônia aparece aí de uma forma surpreendente, animada, colorida. O capítulo dedicado à Academia dos Seletos é um preciosidade ao nos apresentar uma sociedade acanhada, tacanha, onde uma elite incipiente dá vazão às suas veleidades literárias. Todo o programa da academia, constituída especialmente para fazer a apologia do governador Gomes Freire; o tom da correspondência entretida entre seus membros; a agenda dos temas e do tratamento que deveriam ter os trabalhos apresentados e o relato do que foi a sessão, tudo, enfim, faz lembrar uma daquelas deliciosas peças de Martins Pena. É um documento maravilhoso, uma peça literária completa, tanto no texto quanto nas notas. O fecho do artigo remete a Basílio da Gama, que figurara naquela sessão única da Academia dos Seletos como um modesto espectador. ''Poucas foram as poesias de algum mérito que sobreviver puderam a este aluvião de versos compostos sem entusiasmo e que foram depois reunidos e pomposamente publicados sob o título de Júbilos da América. A glória que a lira brasileira reservava ao futuro herói de O Uruguai estava destinada não a uma academia inteira, mas ao único poeta que tinha de valor mais do que todos esses acadêmicos que tão cheios de modéstia se denominaram seletos!''

A coletânea se encerra com dois artigos que, reunidos sob o título ''Histórias de poetas'', compõem a parte mais amável deste livro. O primeiro deles, o interessantíssimo ''Poetas moribundos'', apresenta uma seleção de poesias de despedida de supostos moribundos que, bem dentro do espírito do Romantismo, não poderiam partir desta para uma melhor sem deixar expressas em versos as sensações que a sua condição lhes proporcionava. O capítulo sobre poetas repentistas mostra como este gênero, que, no Brasil de hoje, pertence exclusivamente aos poetas populares do Nordeste, freqüentava os melhores salões e as penas mais qualificadas de alguns dos notáveis políticos do Império. Deliciosas quadrinhas de Basílio da Gama, Domingos Caldas Barbosa e Lucas José de Alvarenga ilustram e dão conta de como este gênero literário, mais adequado aos salões do que às páginas dos livros, funcionava como uma espécie de jogo, de brincadeira, estimulando a sociabilidade, o flerte e dando prestígio aos mais talentosos dos seus cultores.

Isabel Lustosa, pesquisadora da Casa de Rui Barbosa, é autora de Insultos impressos: a guerra dos jornalistas na Independência (Companhia das Letras) .

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Apresentação de Nelly Novaes Coelho
Crítica de Luciano Trigo - Prosa & Verso
Apresentação de Evaldo Cabral de Mello




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