Nova epopéia para a nova América

"Marcus Accioly, né à Pernambouc en 1943, appartient au groupe de jeunes poètes dénommé 'Génération 65'. Après Cancioneiro (1968), Nordestinados (1971) et Xilografia (1974), il a publié Sísifo (1976), poème en dix chants, plus nouvelle et plus vaste et ambitieuse que Légende des Siècles, où les mythes, l'histoire, la littérature, la pensée philosophique et scientifique sont évoqués et revécus d'une façon personnelle, dans une forme qui, comme chez Apollinaire, accueille, à côté de la tradition la plus rigoureuse, les innovations les plus audacieuses".

Este texto da revista Europe (Paris, 1982) confirmava, na França, a dimensão épica da poesia de Marcus Accioly, que já havíamos percebido nas primeiras publicações do poeta, conforme assinalamos na orelha de Sísifo - "Poema do novo épico, Sísifo talvez esteja destinado a ser a epopéia do nosso tempo, em língua portuguesa" - e no posfácio da 2a. edição de Nordestinados: "Foi, pois, essa intenção épica que descobrimos então em Cancioneiro e Nordestinados e se confirmou com a produção posterior do poeta, Sísifo, verdadeira epopéia do Homem do Século XX". Também Wilson Martins considerou Sísifo "uma nova direção poética, não só do autor, mas da poesia brasileira em geral, reiterada pela segunda edição de Nordestinados".

Conseguindo uma aliança rara entre qualidade e quantidade, durante uma trajetória de 33 anos de profissionalismo literário, que reúnem 13 publicações e 10 prêmios nacionais, a obra poética de Marcus Accioly tem atraído a atenção da crítica brasileira e estrangeira. O belga Marcel de Grève considerou-o "um autêntico Apollinaire brasileiro". O português Jacinto do Prado Coelho, saudoso amigo nosso, nomeou-o "dos mais dotados e fascinantes poetas brasileiros". A italiana Luciana Stegagno Picchio acolheu-o como "poeta clássico na reinterpretação dos mitos do passado". No mesmo diapasão segue a crítica brasileira.

Os seus livros têm sido objeto de dissertações de mestrado e teses de doutorado, de discos de poesia - Marcus Accioly é grande declamador - e música popular, de teatro e curta-metragem, além de traduções para o espanhol, francês, alemão.

Presente entre o passado e o futuro, este novo épico de Marcus Accioly - Latinomérica - interpreta e reinterpreta uma América-maior, singular e plural, ora perdida na infância, ora ligada à África e à Atlântida, desde o tempo pré-colombiano até este final e/ou início de século. Mitos e monstros, heróis e anti-heróis, enfrentam-se no ringue, e se pode encontrar, como dissonância ou contraponto, Zumbi e Nelson Mandela, Tiradentes e Che Guevara, Victor Jara e Chico Buarque de Holanda, Pablo Neruda e João Cabral de Melo Neto, Cuauhtémoc e Frei Tito de Alencar Lima, José Martí e José Genoíno, Hebe de Bonafini e Margareth Tratcher, Pinochet e Reagan, "Tio Sam" e "Tio" Sam Slick, Rubén Darío e Lawrence Ferlinghetti, Don Jordan e Dan Mitrioni, e, assim, até onde o imenso fôlego do autor consegue conduzir o leitor através do projeto audacioso das 620 páginas que consumiram 20 anos de sua vida. Homens e mulheres da América desfilam neste vasto painel, estão pintados neste mural com as cores fortes de um Orozco ou de um Brennand, de um João Câmara ou de um Siqueiros, em que nada parece escapar, da história à geografia, da filosofia à religião, da alegria à dor, do canto à luta, da democracia à ditadura, da liberdade à tortura, da flora à fauna, do mar à terra. Todos os países, todas as possessões, arquipélagos e ilhas, cordilheiras e vulcões, gelos e sóis, estão arrolados neste extenso inventário da América ou das Américas. O autor conta, canta, grita, denuncia, reivindica, conclama, exorciza, procura reconhecer todos os nomes, resgatar todos os desaparecidos, e se às vezes mostra a face do homem cordial e os olhos do menino ou do primitivo, também exibe o rosto do homem indignado e levanta os punhos do selvagem.

Latinomérica não é um livro de poemas; é um livro único, um poema inteiro - a poesia que estava faltando à história, a obra que estava faltando aos dois 500 anos, a epopéia que estava faltando à América. A sua estrutura é a de uma luta de boxe, entre gongos e intervalos, onde o poeta, como observa Pedro Lyra, "em sucessivos cantos/rounds - apresenta o drama da América Latina em sua homérica luta contra o neocolonialismo, entrecruzando a sua voz com a de todos os seus grandes criadores".

O ponto mais alto de Latinomérica é a busca da identidade do homem americano, que funciona como uma espécie de círculo vicioso: o filho (o personagem/autor) procura o pai (o descobridor/conquistador) e, como não o encontra, regressa à mãe (a América) através do incesto. Violentada duas vezes, pelo pai do seu filho e pelo seu próprio filho, pelo que nunca a amou e pelo que sempre a ama, a América cumpre a sua épica fatalidade latina e homérica.

NELLY NOVAES COELHO

"Mas o que me impressiona dentro da poesia posterior à minha, e sobretudo no Nordeste, é o Marcus Accioly, que representa em sua geração a continuidade melhor da poesia pernambucana (e também brasileira), que "faz" o poema. Ele faz a poesia. Marcus Accioly é que faz a poesia".
JOÃO CABRAL DE MELO NETO

"Agora é a confirmação do impacto causado por obra tão densa e plurifacetada, que não se esgota, antes se enriquece a cada mergulho no seu vasto bojo".
CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE

"Marcus Accioly, poeta do povo nordestino, poeta de minha predileção".
JORGE AMADO

"Uma poesia que surgiu, como diria Roquete Pinto, clássica - nova, inovadora e clássica - uma combinação rara, mas que ocorre e ocorreu, de modo magnífico, no caso deste, na verdade, grande poeta".
GILBERTO FREYRE

"Quando tantos haviam decretado a morte da épica, a poesia obstinada de Marcus Accioly nos mostrou que se tratava de um assassinato prematuro e despropositado. E a épica, que já fora o mar, o oceano, a guerra, a conquista, (...) passou a ser o projeto americano possível, penado e promissor, a pergunta atravessada na garganta, a construção crispada, a esperança rasurada. Esta é a nossa América, para qual a nova épica de Marcus Accioly, enraizada e vital, pede passagem".
EDUARDO PORTELLA

"Marcus Accioly é, talvez, o mais intelectual dos nossos poetas contemporâneos (...) é Virgílio, morando ou preferindo morar em Roma, a urbs por excelência, e escrevendo a pastoral didática das Geórgicas (...). Sua poesia é otimista e vigorosa".
WILSON MARTINS

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Crítica de Luciano Trigo - Prosa & Verso
Apresentação de Evaldo Cabral de Mello



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