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Kirk
Douglas escreve o primeiro artigo de sua vida*
Pela
primeira vez em minha vida estou escrevendo um artigo para uma revista
de grande circulação. Se o faço, é para poder exprimir publicamente
a minha gratidão pela hospitalidade brasileira e dizer como fiquei
impressionado com a nova capital do Brasil. Há muito tempo, como
ator, venho recebendo cartas de admiradores brasileiros. São milhares
de cartas. Assim, meu desejo de conhecer o Brasil é um desejo antigo.
No ano passado, visitou-nos o ex-presidente Juscelino Kubitschek,
que nos falou longamente sobre sua obra em Brasília. Isto me deu
a idéia de filmar sua vida. Por isso é que aceitei agora, com grande
entusiasmo, o convite da Secretaria de Turismo para participar deste
carnaval de 1963.
Estamos
em Brasília há três dias. Três dias de encantamento e surpresas.
Viajamos de noite, horas e horas, sem nada avistar. De repente,
vimos aparecer lá embaixo estranhos e imensos desenhos luminosos
azuis e brancos. Estávamos chegando a Brasília. Eram 4h30m da manhã.
Apesar da hora, e para surpresa nossa - a primeira daquele dia -
um grupo de mais de cem pessoas, além de jornalistas e fotógrafos,
nos esperava no aeroporto. Acompanharam-nos até o hotel, aonde chegamos
às 6 horas. O dia estava clareando. Abri as janelas e assisti a
um amanhecer que jamais esquecerei.
À medida
que a luz aumentava, surgia o contorno de edifícios e formas estranhas
e belas. Era como se aquilo fosse uma miragem. De repente, senti-me
de volta a Hollywood, olhando para o cenário de um filme de science
fiction. Pouco a pouco foi aparecendo uma imensa avenida (mais
tarde me disseram ser a avenida dos Três Poderes). O verde da grama
e o vermelho do céu davam tal realce à dramaticidade do momento
que eu tive a impressão de assistir ao nascimento de uma nova era.
Não sou poeta, mas não saberia descrever de outra forma o meu primeiro
encontro com Brasília.
Depois
de comer um abacaxi, fomos repousar, o que fizemos durante poucos
momentos, tão grande era a nossa impaciência por conhecer a cidade.
Creio
que os brasileiros não podem sentir, como nós que chegamos de fora,
o milagre de Brasília. Na América do Norte, os nossos pioneiros
construíram as suas cidades de modo diferente. Eles chegavam a um
local e começavam a edificar cabanas de madeira. A transformação
desse agrupamento de barracos em cidade só se fazia depois de muitos
anos de trabalho. Neste setor temos muito que aprender com os brasileiros
- que inventaram a civilização a jato. O presidente Kubitschek me
falara de Brasília, a cidade que nascera de repente no meio da selva,
e eu já vira muitas fotografias da nova capital brasileira. Mas
o que eu via agora ia além de tudo quanto imaginara.
À tarde
fomos visitar a cidade. O sr. Israel Pinheiro foi o nosso guia.
Como americanos, ficamos espantados com a amplidão de Brasília.
Se vocês conhecem uma cidade tipicamente americana, entenderão por
que admiramos tanto a falta de cruzamentos. Repito: temos muito
que aprender de Brasília!
Visitamos
depois a "Casa Branca" do Brasil: o Palácio da Alvorada. Um mês
atrás, tínhamos sido hóspedes do presidente Kennedy na Casa Branca
de Washington. Por certo, o Palácio da Alvorada é diferente e bem
mais bonito. Nós o vimos de frente, de dentro, de lado e de trás
- e de todos os ângulos ele nos pareceu bonito. Minha mulher gostou
muito das tapeçarias de Di Cavalcanti e da sala de audiências. A
única coisa de que não gostei foi a mobília dos aposentos presidenciais.
Os móveis foram feitos nos Estados Unidos e, disseram-me, doados
ao presidente. Sei que, às vezes, é difícil a gente se desfazer
de um presente, mas acho que móveis em estilo colonial português,
contrastando com o modernismo da construção, ficariam bem melhor.
Excetuando-se este detalhe, o Palácio é magnífico.
À tarde
atravessamos o lago e fomos descansar na casa de Sílvio Pedroso.
Tomamos um bom banho e Anne conseguiu pescar dois peixinhos. Pela
primeira vez experimentei uma rede brasileira, mais confortável
e macia do que minha cama em Beverly Hills. Eu e minha mulher gostaríamos
de saber se existe rede para duas pessoas.
Pediram
que eu trouxesse minha roupa de Spartacus, para usar durante o carnaval.
Infelizmente não foi possível encontrar a fantasia no almoxarifado
do estúdio. Talvez eu a receba a tempo para o baile do Teatro Municipal,
no Rio. Aqui em Brasília eu vesti apenas um summer jacket e um chapéu
de couro de vaqueiro nordestino. A pessoa que me deu o chapéu falou
longamente sobre esses cowboys do Norte do Brasil. Fiquei com vontade
de fazer um filme retratando a sua vida.
Meu
primeiro contato com o carnaval causou-me verdadeiro espanto. Na
América do Norte não temos nada que se assemelhe a esta explosão
de alegria. E o que mais me surpreendeu foi ver que toda aquela
alegria não era causada pelo álcool, mas pelo ritmo embriagador
da música. Também as mil cores das fantasias parecem contribuir
para uma intoxicação contagiosa. O ambiente era tão carregado de
alegria que até eu e minha mulher fomos atingidos e não pudemos
resistir. Dançamos no meio do salão.
O carnaval
carioca vale o dobro de tudo o que eu disse a propósito de Brasília.
É fantástico, inacreditável. Nunca vi semelhante alegria, nem nos
Estados Unidos nem em qualquer outro país.
Sentimos
uma acolhida tão sincera e espontânea, da parte de todos os brasileiros,
que já pensamos em voltar para o carnaval do ano que vem. Será o
começo de uma longa série de visitas.
* Publicado
na revista O CRUZEIRO em 23 de março de 1963.
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