O primeiro texto de um grande ator

Meus leitores não desconhecem que estou sempre em busca de coisas interessantes para contar nesta coluna, embora às vezes demore muito para revelar minhas descobertas por conta do excesso de trabalho - e peço desculpas por isso. Dessa vez, garimpei um artigo interessantíssimo de Kirk Douglas, feito por encomenda da revista O Cruzeiro em março de 1963, já lá se vão quatro décadas. Todo mundo está careca de saber que Kirk Douglas - hoje mais conhecido como pai de Michael e sogro de Catherine Zeta-Jones - é um fabuloso ator, responsável por grandes momentos da telona, entre eles o papel-título em Spartacus e o de um dos protagonistas em Glória feita de sangue (dirigidos por Stanley Kubrick). Mas pouca gente sabe que o hoje também escritor - com dois romances e duas autobiografias publicados - fez sua estréia nas letras entre nós, mais exatamente no Rio, após conhecer a então novíssima capital do país, Brasília, e o carnaval carioca, ao lado da segunda mulher, Anne Buydens, com quem se casara em 1954.

Filho de judeus russos que imigraram para os Estados Unidos em 1912, Kirk Douglas nasceu em Amsterdam, cidade do estado de Nova York, em 9 de dezembro de 1916, e recebeu o nome de Issur Danielovitch Demsky. Só em 1946, com quase 30 anos, iniciou sua carreira cinematográfica, no policial O tempo não apaga (The strange love of Martha Ivers), mas já está no 88º filme, que acaba de estrear nos Estados Unidos. Acontece nas melhores famílias, do australiano Fred Schepisi (de Um grito no escuro e Seis graus de separação), traz Kirk no papel de pai de seu primogênito Michael Douglas e de avô do neto mais velho, Cameron Douglas (primeiro dos quatro filhos de Michael). Pra completar, quem encarna a matriarca no filme é Diana Douglas, primeira mulher de Kirk, mãe de Michael e avó de Cameron na vida real.

Embora costume dizer, em rodas de amigos, que construiu uma carreira interpretando um bando de filhos da p..., na verdade ele fez todo tipo de personagem, com vários e importantes cineastas como Joseph Mankiewicz, Vincent Minelli, Jacques Tourneur, William Wyler. Na primeira fase de sua carreira, atuou numa série de filmes "noir", dos quais o mais importante é Fuga ao passado (1947), de Tourneur, ao lado de Robert Mitchum e Lizabeth Scott. Em 1949 recebeu a primeira indicação ao Oscar de melhor ator pelo boxeador de O invencível, e em seguida formou uma parceria com Minelli que levaria a mais duas indicações ao prêmio: em 1952, com Assim estava escrito, e em 1956, com Sede de viver, em que interpretou Vincent van Gogh. Não ganhou nenhum, e só em 1995 a Academia de Hollywood se redimiu deste grave erro concedendo-lhe um Oscar honorário.

Dono de uma charmosa covinha no queixo, Kirk Douglas já era famosíssimo no mundo inteiro quando, por ocasião do carnaval de 1963, visitou Brasília e depois se esbaldou nos festejos cariocas. "Há muito tempo, como ator, venho recebendo cartas de admiradores brasileiros. São milhares de cartas. Assim, meu desejo de conhecer o Brasil é um desejo antigo", confessa ele logo na abertura do artigo publicado pela hoje extinta revista O Cruzeiro na edição de 23 de março daquele ano.

Certamente nascido de uma entrevista com o ator e depois transformado em texto, este artigo é curioso, em primeiro lugar, por revelar um imenso entusiasmo do ator pela beleza de Brasília. "De repente, senti-me de volta a Hollywood, olhando para o cenário de um filme de science fiction. Creio que os brasileiros não podem sentir, como nós que chegamos de fora, o milagre de Brasília", escreve, emocionado. Em segundo lugar, surpreende que a única coisa de que o ator não gostou, após visitar o Palácio da Alvorada - que qualificou de magnífico e "bem mais bonito" do que a Casa Branca de Washington - foi a mobília dos aposentos presidenciais, por coincidência made in USA. "Os móveis foram feitos nos Estados Unidos e, disseram-me, doados ao presidente. Sei que, às vezes, é difícil a gente se desfazer de um presente, mas acho que móveis em estilo colonial português, contrastando com o modernismo da construção, ficariam bem melhor", opinou com sinceridade.

Outro momento divertido deste texto refere-se à falta de semancol dos brasileiros: vocês acreditam que pediram ao ator para se fantasiar, numa festa carnavalesca em Brasília, com o figurino usado por ele, três anos antes, no filme Spartacus? O ator se desculpa por não poder atender os brasilienses: "Pediram que eu trouxesse minha roupa de Spartacus, para usar durante o carnaval. Infelizmente não foi possível encontrar a fantasia no almoxarifado do estúdio. Talvez eu a receba a tempo para o baile do Teatro Municipal, no Rio", diz Kirk. E completa: "Aqui em Brasília eu vesti apenas um summer jacket e um chapéu de couro de vaqueiro nordestino. A pessoa que me deu o chapéu falou longamente sobre esses cowboys do Norte do Brasil. Fiquei com vontade de fazer um filme retratando a sua vida".

Infelizmente o filme não foi feito... ainda: com a energia que este homem de 87 anos e meio continua esbanjando - depois de sobreviver, em 1991, a um desastre de helicóptero em que morreram duas pessoas (e que o deixou com problemas de coluna) e de sofrer um derrame em 1996 - quem sabe não o veremos num filme de época, como um senhor de engenho do sertão pernambucano? Se você quiser ler este raro artigo de Kirk Douglas na íntegra, clique aqui.

Apresentação de Nelly Novaes Coelho
Crítica de Luciano Trigo - Prosa & Verso
Apresentação de Evaldo Cabral de Mello



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