Nina foi a terceira e última mulher de Kandinsky

Wassily Kandinsky tornou-se pintor relativamente tarde, aos 30 anos de idade, sem provocar grandes expectativas entre as pessoas de suas relações. Interessado em investir na carreira artística, em 1904 deixou a Rússia e se mudou para a Alemanha levando apenas sua mulher, Anna Chimyakina, que era também sua prima. Anna não era uma pessoa comum para sua época - ela foi a primeira estudante mulher na Universidade de Moscou, onde Kandinsky era conferencista. Não se pode dizer que ela não gostasse de arte, mas amar a pintura e ser casada com um pintor são coisas absolutamente diversas. Anna, que havia desposado um homem com a respeitável profissão de advogado, não nutria qualquer entusiasmo pela perspectiva boêmia que aguardava o casal em sua nova vida na Alemanha. Foi portanto com muita relutância que ela o acompanhou a Munique para logo depois ver acabar seu casamento e, sete anos mais tarde, em 1911, divorciar-se oficialmente dele.

Nesse tempo já havia outra mulher na vida de Kandinsky, uma pintora alemã chamada Gabriele Münter. Eles se conheceram em 1901, quando ela começara a estudar arte na recém-inaugurada Phalanx Art School. A Phalanx existiu por apenas um ano e teve que fechar, mas Gabriele continuou como aluna de Kandinsky e logo se tornaram íntimos amigos. Quando, em 1904, Kandinsky rompeu com a mulher, passaram a viver juntos. Era uma coisa censurável para uma jovem do início do século 20: ela vivia abertamente com um homem casado, e embora isso fosse mais ou menos aceitável nos círculos boêmios, era malvisto no meio burguês de onde vinham ambos.

Eles não ligavam pra isso, estavam apaixonados. E embora o retrato não tenha sido um gênero a que Kandinsky demonstrasse apreço, abriu uma única exceção: pintou um retrato de Gabriele. No quadro ao lado, de 1905, ela surge como seus olhos grandes, nariz forte e queixo curto, lábios finos e testa alta. Embora fosse também artista, e tão forte e ambiciosa quanto ele, Gabriele continuava sendo uma mulher, sensível, compreensiva e apaixonada, e, desafortunadamente, esta sua paixão por Kandinsky a faria sofrer durante muitos anos.

Em 1904 eles começaram a viajar pela Europa e a África, voltando a Munique em 1908. Gabriele comprou uma casa de campo em Murnau, nos Alpes bavarianos, onde eles passavam o verão; a casa pretendia ser também o lar onde eles se refugiariam na velhice. Kandinsky mobiliou o interior com simplicidade, decorando algumas peças ele mesmo, com flores estilizadas e cavaleiros a galope em seus cavalos.

Embora fosse aluna de Kandinsky, Gabriele tinha sua visão e seu próprio estilo na pintura, provavelmente influenciados pelo estilo e visão de sua época, e essa deve ter sido a razão para que ele começasse a se irritar com ela. Logo sua relação tornou-se mais e mais complicada: um dia ele pedia Gabriele em casamento, no outro insistia em que deviam se separar imediatamente.

O que acontece com o amor entre as pessoas, para onde ele vai - quem pode saber? Enquanto Gabriele fora uma estudante cheia de admiração pelo mestre, ela lhe parecera a musa inspiradora. Quando se tornou mais independente, vindo a desenvolver seu próprio estilo pictórico, recusando-se a seguir o dele e até mesmo, possivelmente, influenciando o estilo de Kandinsky, ela passou a exasperá-lo. O começo da Primeira Guerra Mundial foi um bom pretexto para que rompesse com Gabriele. Primeiramente deixaram juntos a Alemanha, mas logo depois Kandinsky retornou a Moscou enquanto Gabriele voltava para Munique. Eles se corresponderam, ela lhe escreveu uma enorme quantidade de cartas, e seu último encontro se deu em Estocolmo, em dezembro de 1915. Nunca mais se viram, apesar de terem mantido correspondência por mais um ano. Gabriele jamais conseguiu superar essa paixão pelo antigo mestre, embora para ele isso já fosse passado.

Em setembro de 1916 Kandinsky, aos 50 anos, apaixonou-se novamente, vindo a se casar em fevereiro de 1917. A notícia de seu casamento foi um choque para Gabriele, que passou muitos anos sem conseguir pintar. Mas o tempo tudo cura; afinal ela se recuperou e retomou sua arte, perdoando - mas nunca esquecendo - a traição do seu "gênio". Por toda a vida Gabriele enalteceu o mestre, embora ele jamais a tenha mencionado em seu trabalho, o que só reforça a suspeita de alguns especialistas de que Kandinsky deva muito a ela, como pintor.

Por sua vez, Kandinsky estava felicíssimo em seu novo casamento. Finalmente encontrara a mulher com a qual sempre sonhara. Ela era Nina Nikolayevna Andreevskaya, uma jovem russa. Existe, até hoje, muito de desconhecido sobre Nina, inclusive sua data de nascimento. Ela jamais mencionou isso, e só o que se sabe, contado pela própria, é que era 27 anos mais nova do que ele. Segundo seu livro de memórias, Nina era filha de um general, mas quem se atreveu a buscar por esse pai numa lista de 1.248 generais do Exército russo, entre 40-90 anos, do final do século XIX ao início do século XX, não conseguiu achar nenhum general Nikolai Andreevsky.

Segundo alguns pesquisadores russos, ela era filha de um certo capitão Andreevsky, que foi morto na guerra russo-japonesa em 1905. Mais tarde, vindo a se tornar a esposa e depois a viúva de um homem famoso, Nina preocupou-se em criar uma lenda em torno de si mesma. Alguns biógrafos insistiam em afirmar que Kandinsky desposara uma simples dona-de-casa - coisa nada improvável. Ele estava cercado de amigos intelectuais, por que precisaria de mais alguém intelectual em casa? Ele já tivera uma esposa intelectual e uma amante idem. Era o bastante. Mas em seus primeiros dias fora da Rússia Nina insistia em afirmar que vinha de família boa. "Boa" aqui significa, se não da nobreza, pelo menos da intelligentzia; de outro modo ela não seria admitida nos círculos de emigrantes russos, que se compunham, naqueles tempos, só de famílias "boas".


Feito para Nina:
To the Unknown Voice,1916.
Aquarela e tinta sobre papel,
23.7 x 15.8 cm.
Centro Georges Pompidou,
Paris
Como se conheceram, Kandinsky e Nina? Se seguirmos a lenda forjada por Nina, foi, primeiramente, por telefone; ela ligou pra ele para transmitir mensagem de um amigo, e sua voz "causou nele profunda impressão". Ele chegou a pintar uma aquarela que batizou de "To the Unknown Voice" (para a voz desconhecida), que, segundo Nina, inspirara-se na voz dela.

Em 1917, Kandinsky, então com 51 anos, casou com a muito mais jovem Nina. "Nosso casamento marcou o princípio da Primavera no Outono da vida dele. Nós nos apaixonamos à primeira vista e nunca mais nos separamos, nem mesmo por um dia", escreveu Nina Kandinsky em suas memórias. Eles viajaram à Finlândia para a lua-de-mel, mas tiveram de voltar logo por conta da Revolução Russa. O único filho do casal, Vsevolod, nasceu no mesmo ano, mas morreu em 1920 durante a Guerra Civil, de doença infecciosa.

Em dezembro de 1921 Kandinsky e Nina mudaram-se para Berlim, deixando para trás uma Rússia faminta e arruinada. Nina continuou participando integralmente da vida do marido, "nunca passando sequer um só dia separados", jamais saindo de perto dele, sempre à sombra do artista genial.

Quando o pintor morreu, em 13 de dezembro de 1944, de doença vascular-cerebral, Nina era sua única herdeira. Ela criou o Kandinsky Fund para estudo, exposições e preservação dos trabalhos do marido, e em 1981 fez uma generosa doação ao Museu de Arte Moderna de Paris (Centro Georges Pompidou), para onde transferiu a maior parte desta Fundação: mais de mil obras do artista.

Nina não se casou de novo, mas, por ser muito rica, viveu sempre cercada de homens jovens do tipo garoto-de-programa, e apreciava esse assédio. Também adorava jóias, comprava-as com freqüência, e formou uma grande e preciosa coleção. Em 1983, Nina Kandinsky foi assassinada na Suíça, na villa onde morava, e talvez sua coleção de jóias tenha desempenhado papel fatal no crime. O assassino nunca foi preso; Nina foi enterrada em Paris e logo esquecida. Dizem os críticos que seu livro de memórias é interessante, mas deve ser lido com certo distanciamento porque "está cheio de contos de fadas ao estilo hollywoodiano".

Nota: O texto acima foi extraído de sites em inglês, e traduzido pela colunista. Leia matéria sobre a passagem de Nina Kandinsky pelo Rio de Janeiro, em 1973, clicando aqui.

Apresentação de Nelly Novaes Coelho
Crítica de Luciano Trigo - Prosa & Verso
Apresentação de Evaldo Cabral de Mello


   


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