Nas cores de Nina

Christine Ajuz

- Kandinsky foi o primeiro a dar à pintura a verdadeira expressão livre - a mais difícil, porque o pintor precisa conhecer perfeitamente o desenho, ter senso de composição e, sobretudo, ser poeta.

Tranqüila, serena, sem saudosismos, Nina Kandinsky fala do marido, falecido em 1944, como se não o visse apenas há uma semana. Ela chegou ao Rio no domingo, vinda de São Paulo, onde compareceu à inauguração da XII Bienal de Artes Plásticas que, este ano, presta homenagem ao grande artista russo, precursor da arte abstrata, pela primeira vez em exposição na América do Sul.

No apartamento do Copacabana Palace, ela reclama do mau tempo, da chuva que lhe atrapalha os passeios pela cidade que "sempre quis conhecer", e relembra, com carinho, sua vida ao lado de um homem que "até sua morte, com quase 80 anos, deu formas, cores e conteúdo novos à arte".

O ARTISTA

Nascido em Moscou em 1866, Wassily Kandinsky começou a ser notícia no início do século, mais precisamente em 1910 quando passou a representar o quadrado, o triângulo e o círculo em expressão abstrata.

- Ele sempre dizia que não se pode fazer a teoria sem antes conhecer a prática, e todo o seu trabalho seguiu esta diretriz.

Sua obra dividiu-se em sete fases, cada uma correspondendo a um estilo diferente. Primeiramente, o neo-impressionismo, de 1900 a 1906, e o expressionismo, até 1910, "quando fez sua primeira aquarela abstrata e, no ano seguinte, o primeiro quadro a óleo". Depois, até 1920, o que chamamos de época dramática do abstracionismo, sua fase de explosão, em que retratou cometas, nebulosas, vias-lácteas.

- Até 1913, Kandinsky retratava a natureza, ao mesmo tempo em que mergulhava na poesia do abstracionismo. Um dia, ele me disse: "Quando você notar que não é mesmo um poeta, volte à natureza e ela lhe dará o tema". Ele nunca mais retornou à sua antiga temática.

De 1920 a 1926, a época arquitetural, mais construída e elaborada; de 26 a 28, a época do círculo; de 28 a 33, a época romântica da arte abstrata, quando parte então para Paris e lá se estabelece até sua morte, em 1944. Para Nina, a época parisiense foi a mais rica "em expressão, forma, conteúdo e cores; a apoteose de sua obra". E conta que ele jamais usou o mesmo vermelho num quadro:

- Kandinsky atingiu o mais alto refinamento de cores; ele as estudou durante dois anos, observando os efeitos de uma sobre a outra, e, por isso, sua técnica é impecável.

Os 22 quadros a óleo que compõem a sala especial da Bienal de São Paulo, grande parte de sua propriedade, são de uma fase expressionista que já entra na arte abstrata. Essas obras ficarão também em exposição durante 10 dias, em data ainda não fixada, no Museu de Arte Moderna do Rio. Para a viúva do artista, "a homenagem brasileira prestada a Kandinsky, através da Bienal de São Paulo, se torna ainda mais importante pelo interesse que se vem demonstrando por sua obra no Brasil".


Small Pleasures, 1913. Óleo sobre tela,
109.8 x 119.7 cm.
The Solomon R. Guggenheim Museum,
Nova York

Red Oval, 1920. Óleo sobre tela,
71.5 x 71.5 cm.
The Solomon R. Guggenheim Museum,
Nova York
   

In Grey, 1919. Óleo sobre tela,
129 x 176 cm.
Musée National d'Art Moderne,
Centro Georges Pompidou, Paris

Picture with White Border, 1913.Óleo sobre tela,
140.5 x 200.3 cm.
The Solomon R. Guggenheim Museum,
Nova York

O HOMEM
Com a mesma tranqüilidade com que dissertou sobre o artista que "até o último momento fez coisas inesperadas", ela fala do homem que realizou uma das maiores revoluções dentro da arte.

- Muito inteligente e culto, extremamente sensível e com um constante interesse por tudo que o cercava, Kandinsky via na arte uma coisa sagrada. Pintava quando sentia vontade e nunca fez concessões, mantendo-se, até o fim, um artista honesto. Tinha idéias muito abertas sobre a arte em geral, e sempre respeitou todas as formas de expressão, mas costumava dizer que "estamos numa época abstrata e este é um fato a que as pessoas precisam e devem se acostumar."

E Madame Nina continua, entre comovida e entusiasmada:

- Muito bonito, elegante - eu diria mesmo um príncipe, pois tinha traços nobres - ele sabia cativar as pessoas. Os jovens o procuravam constantemente porque ele sempre encontrava a palavra certa com que reconfortá-los. Muitos deles, artistas principiantes que chegavam à nossa casa desanimados, saíam de lá dizendo: "A gente tem vontade de viver depois de uma conversa com Kandinsky".

Talvez isso explique a vitalidade de Nina Kandinsky, o seu sorriso tranqüilo e a forma carinhosa com que fala do passado: uma vida inteira mergulhada em cores que revolucionaram a pintura, numa arte que colocou em constante dinâmica a própria vida.


Picture with Black Arch, 1912.Óleo sobre tela,
188 x 196 cm.
Musée National d' Art Moderne,
Centro Georges Pompidou, Paris

Sky Blue, 1940. Óleo sobre tela,
100 x 73 cm.
Musée National d'Art Moderne,
Centro Georges Pompidou, Paris
   

Composition VII, 1923. Óleo sobre tela,
140 x 201 cm.
The Solomon R. Guggenheim Museum,
Nova York

Dominant Curve ,1936. Óleo sobre tela,
129.3 x 194.3 cm.
The Solomon R. Guggenheim Museum,
Nova York


* Publicado em 11/10/1973, quinta-feira, no Jornal do Brasil, Caderno B, pág. 4.

Apresentação de Nelly Novaes Coelho
Crítica de Luciano Trigo - Prosa & Verso
Apresentação de Evaldo Cabral de Mello


   


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