Mme. Kandinsky e a estagiária em pânico

Como já contei anteriormente, comecei meu estágio no Jornal do Brasil no dia 13 de agosto de 1973, na Reportagem Geral. Era aluna de Jornalismo da PUC e ainda tinha metade do curso pela frente, mas uma experiência anterior no Diário de Notícias, entre março e agosto do mesmo ano, me dera jogo de cintura para enfrentar sem sobressaltos as pautas mais exigentes daquele que era, à época, o jornal preferido dos intelectuais e da elite carioca. Tirava de letra as mais variadas "coberturas": acompanhar casos famosos na Justiça, entrevistar autoridades, noticiar da praia lotada de domingo em Ipanema ao buracão da Light no dia mais quente do ano em Realengo. Eu caprichava no texto, mas sabia que não precisava me preocupar demais: estagiário não assinava matéria.

Ainda não completara dois meses na casa quando a sub-editora do Caderno B, Marina Colasanti, adentrou o salão da Reportagem Geral pedindo socorro ao chefe, Armando Strozemberg: "Por favor, amigo, preciso de um repórter que fale bem o francês para entrevistar a viúva do pintor russo Kandinsky. Ela está de passagem pelo Rio, vinda de São Paulo, onde foi para a Bienal de Artes Plásticas. É russa, está bem velhinha, e fala um francês com forte sotaque". Quando Armando me indicou pra missão, quase tive uma síncope: o Caderno B era o supra-sumo, o patamar mais alto do JB, o mais sofisticado caderno de arte e cultura do país, e eu nem sabia direito quem era Kandinsky!!!! Imagine entrevistar uma senhora de idade, com dificuldades de articulação, falando uma língua que não era a dela - muito menos a minha! - sobre um assunto que eu desconhecia! Pensei que fosse desmaiar, mas meu chefe nem se abalou: "Vai pra Pesquisa", disse ele, e obedeci.

Entrei ofegante no Departamento de Pesquisa e expus meu problema aos colegas. Em cinco minutos tinha diante de mim um farto material sobre Wassily Kandinsky (1866-1944), "pintor e teórico russo, um dos mais importantes pioneiros da arte abstrata", segundo o Dicionário Oxford de Arte. É bem verdade que não houve tempo para aprofundamentos no assunto: a entrevista com a viúva estava marcada para duas horas mais tarde, no Copacabana Palace, e tive pouco mais de 60 minutos para dar uma cheirada no tema e não fazer feio diante dela. Levei cópias xerox do material pesquisado, que fui lendo no banco de trás da velha camionete Rural Willis até a porta do hotel. Pela primeira vez, estava em pânico, completamente insegura, e agradeci a Deus quando me abriu a porta do quarto uma senhora de 80 anos, pequena, um pouco curvada, com problemas de visão: ela certamente não notaria o estado de nervos em que se encontrava sua entrevistadora.

A conversa durou mais de uma hora, com Dona Nina muito solícita, me oferecendo comidas e bebidas, mostrando fotos antigas e livros com reproduções de quadros belíssimos de Kandinsky, de quem falava como se já não se tivessem passado três décadas de sua morte. Ela estava feliz com a homenagem que a XI Bienal de São Paulo prestava ao marido, mas reclamou muito do tempo chuvoso no Rio, que há cinco dias atrapalhava seus planos de turista. Gostei muito dela, e depois daquele encontro comecei a me interessar seriamente por artes plásticas: desde então, passo a maior parte do tempo dentro de museus e galerias nas minhas viagens, compro todos os catálogos das exposições que visito, tenho uma bela coleção de livros de arte, sou apaixonada por pintura flamenga e tenho um carinho todo especial por Wassily Kandinsky, de quem vi obras maravilhosas no Centro George Pompidou, em Paris, e no Museu Guggenheim, de Nova York. Afinal, por causa dele, no dia 11 de outubro de 1973 eu tive a minha primeira matéria assinada no Jornal do Brasil. A escritora Marina Colasanti, então à frente do Caderno B, gostou e decidiu assinar o texto da estagiária à beira de um ataque de nervos, que você pode ler clicando aqui.

É a minha homenagem ao artista, que morreu em 13 de dezembro de 1944 - há seis décadas exatamente - e à sua doce viúva, assassinada 10 anos depois dessa entrevista, aos 90 de idade, em sua villa na Suíça, por um criminoso covarde e até hoje impune. Para quem quiser saber um pouco mais sobre o casal, traduzi alguns textos pesquisados na internet (que, aliás, tem zilhões de sites sobre o pintor russo). Espero que você goste.

Apresentação de Nelly Novaes Coelho
Crítica de Luciano Trigo - Prosa & Verso
Apresentação de Evaldo Cabral de Mello


   


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