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Tempo
dos Flamengos - Apresentação
Já
não recordo qual o autor francês que escreveu a respeito do convívio
com os livros: "Depois do prazer de lê-los, o prazer de comentá-los".
Os cinqüenta anos de publicação de Tempo dos flamengos deu-me,
há pouco, o prazer da releitura dessa obra que é minha velha conhecida
e a quem devo não só o conhecimento da história social do domínio
holandês no Brasil, mas muito mais que isso: a ambição de também
me dedicar ao estudo desse período. Os grandes livros de história
fazem sempre lembrar a comparação dos irmãos Goncourt, que Gilberto
Freyre citou no prefácio a Casa-grande & senzala: "a história,
este romance veraz". O grande medievalista Georges Duby chamou certa
vez a história de "sonho controlado". E assim é, com efeito, quanto
ao romancista, com a diferença de que, naquele, esta capacidade
encontra-se limitada pelas fontes, ancorada na terra firme e, muitas
vezes, pouco firme, dos documentos e de outros vestígios do passado.
Seu critério é, portanto, o da veracidade, ao passo que o do ficcionista
é o da realidade, que vai muito além do realismo.
Na
historiografia do Brasil holandês, nenhuma obra renovou tanto quanto
Tempo dos flamengos nosso conhecimento dos vinte e quatro
anos de ocupação estrangeira do Nordeste. Filhos do século, Netscher
e Varnhagen haviam explorado a história política, a administração
nassoviana, as guerras e as batalhas. No começo do século XX, um
erudito alemão da linhagem de Weber e de Sombart, Hermann Wätjen,
escreveria a história econômica da ocupação neerlandesa.
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dos flamengos deu-nos finalmente a história social do período.
Na verdade, o livro de José Antônio Gonsalves de Mello é o resultado
da convergência entre a pesquisa sólida e a nova sensibilidade
despertada por Gilberto Freyre a partir dos anos trinta. Desde
1886, a coleção de documentos colhidos pela missão de José Higino
Duarte Pereira aos arquivos holandeses dormia nas estantes do
Instituto Arqueológico, Histórico e Geográfico Pernambucano.
O mesmo José Higino, como também Alfredo de Carvalho, haviam
promovido a tradução e a divulgação de vários destes textos.
Dispersivos ambos, não deixariam a obra de conjunto que os seus
conterrâneos estavam no direito de esperar. Falecido Alfredo
de Carvalho em 1916, a coleção José Higino permaneceu inexplorada
durante quase vinte anos. |
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Por
volta de 1930, Gilberto Freyre deu a Gonsalves de Mello o conselho
de estudar neerlandês para explorar esse acervo, conselho seguido
à risca. Coube-lhe assim a primeira, e creio a única, investigação
abrangente dos trinta códices de José Higino, que são a base de
Tempo dos flamengos. Ao contrário dos predecessores, Gonsalves
de Mello não ficou pelas peças principais, os grandes relatórios
do governo do Recife, mas enveredou pela correspondência que ele
mantinha com a direção da Companhia das Índias Ocidentais na Holanda
e pelas riquíssimas atas das suas reuniões diárias. Daí quase se
tenha tornado impossível escrever sobre qualquer aspecto da história
social da dominação batava sem recorrer a Tempo dos flamengos
ou sem nele encontrar matéria relevante. Alguns temas ainda poderão
ser aprofundados mas duvido que as linhas de força da sua exposição
venham a ser substancialmente alteradas. A que título maior pode
aspirar um livro de história? Aliás, o próprio Gonsalves de Mello
iniciou este aprofundamento com o seu estudo sobre a comunidade
judaica no Brasil holandês, sem falar na excelente análise da igreja
calvinista no Nordeste, de autoria de Franz Leonard Schalkwijk.
O
interesse de Tempo dos flamengos reside, sobretudo, em que
ele reconstrói a realidade da ocupação através de uma história social
que é também história quotidiana. Organizado em torno de cinco grandes
temas (os holandeses nas suas relações com a vida urbana, com a
rural e com as comunidades locais), Tempo dos flamengos não
os trata jamais de maneira abstrata mas na sua concreção quase etnográfica.
Não o envolve nenhuma adiposidade verbal ou expositiva nem o prejudica
a deformação polêmica. O discurso historiográfico adere flexivelmente
à matéria documental, sem que a utilização maciça das fontes torne
as citações redundantes ou disfuncionais. Quem escreve história
sabe que não é pequeno problema empregá-las de maneira expressiva,
fazendo delas não uma demonstração ociosa de erudição, mas a própria
carne e o próprio sangue da obra. Por tudo isto e por outras coisas
mais, a historiografia brasileira é devedora a Gonsalves de Mello,
que não titubeou em sujar as mãos com papel velho, como tantos dos
seus colegas brasileiros de ofício, para quem os documentos não
passam de uma preocupação de antiquário, e que preferem uma página
de Althusser para compreender como foi a escravidão em Conceição
do Mato Dentro.
EVALDO
CABRAL DE MELLO
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