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O
ano foi de Elza Soares
Em
2003, chegou ao mercado a caixa "Negra Elza Soares", com 12 CDs
da cantora, totalizando 306 faixas. Não bastasse esse grande lançamento,
homenagem mais do que merecida a seus 45 anos de carreira, o novo
disco de Elza confirma que o brasileiro perde muito tempo correndo
atrás de modismos: com sua voz especial, potentíssima, seu gingado
inimitável, sua coragem em desafiar o senso comum e apostar nas
coisas mais diferentes, ela fez de "Vivo Feliz", produzido pela
Reco Head, o melhor CD de 2003. E mostrou que Maria Rita precisa
comer muito feijão pra chegar perto.
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Logo
na abertura a cantora faz um scat-singing arrasador,
no "Intro" de sua autoria, que emenda numa versão inesquecível
da velha (e eterna) "Opinião", de Zé Kéti, em ritmo de hip-hop.
Com o auxílio luxuoso do rapeiro Anderson Lugão em duas faixas
assinadas por ele - "Rio de Janeiro" e "Two Tac" - a sambista
prova que é boa também no rap. |
O ritmo
se repete na releitura de "Volta por cima", de Paulo Vanzolini,
onde Elza divide a cena com outro rapper, Pyroman, cantando/falando
em francês, e em "Computadores fazem arte", de Fred 04, onde a voz
dela aparece distorcida eletronicamente.
Já
a bela "Concórdia", de Nando Reis, é enriquecida pela participação
do ex-Titã na voz e no violão, enquanto "Lata d' água" e "Somos
todos iguais" nos dão a conhecer a compositora Elza Soares. Samba
de raiz, a primeira tem um ótimo coro (Pedrin Gomes, Anderson Lugão
e Arthur Joly) e versos autobiográficos: "Lata d'água na cabeça
/ É o estandarte que representa minha arte / Jogo de cena é a fome
/ Negra sempre foi o meu nome / Mas digo isso porque / Tenho o samba
pra me defender". E no merengue "Somos todos iguais", dançante homenagem
à cubana Célia Cruz, a autora bissexta é otimista: "Eu era tão pequenina
/ Já me dizia papai / Filha não fique triste / Aqui somos todos
iguais". O espaço que a mídia tem dado a Elza Soares e a Maria Rita
deve já ter feito ver à ex-mulher de Garrincha que, desgraçadamente,
alguns são mais iguais que os outros, como diz a piada.
Enfim,
vida que segue. Pra completar o ano glorioso, em 2003 dois excelentes
discos de Elza Soares apareceram remasterizados. Em "A Bossa Negra",
de 1961, seu segundo disco, ela desfia um repertório impecável,
pérolas como "Marambaia" (Rubens Campos/Henricão), "Beija-me" (Roberto
Martins/Mário Rossi), "Cadeira vazia" (Lupicínio Rodrigues/Alcides
Gonçalves) e especialmente "Boato" (José Roberto Kelly) que trasforma
em clássicos com sua voz jazzística e sua divisão rítmica personalíssima.
O outro,
gravado em 1968, ela compartilha com o baterista Wilson das Neves
(e a capa traz foto dos dois). Neste, além dos sucessos "Se acaso
você chegasse" (Lupicínio Rodrigues/Felisbrto Martins) e "Mulata
assanhada" (Ataulfo Alves), que a consagraram como intérprete, a
bossa nova dá o tom nas faixas "Garota de Ipanema" (Jobim/Vinicius),
"Balanço Zona Sul" (Tito Madi), "O pato" (Jayme Silva/Neusa Teixeira)
e "Samba de Verão" (Marcos e Paulo Sérgio Valle).
Enfim,
depois de ouvir um, três ou 12 discos de Elza, qualquer mediano
admirador de MPB se indaga: por que a maioria dos brasileiros acha
que deve seguir a moda e acreditar que Maria Rita é a grande cantora
do Brasil? Ora, me poupem! É verdade que Maria Rita tem boa voz,
que seu timbre é parecido com o da incomparável Elis Regina (e seria
parecido com o de quem? Clara Nunes? Araci de Almeida?), mas o disco
de estréia da moça é morno, repetitivo, óbvio. E quando acaba deixa
na gente uma vontade de botar rapidinho no aparelho todos os CDs
da mãe dela, infinitamente superiores.
Excetuando-se
as três faixas de autoria de Marcelo Camelo - que se firma como
cantor e compositor, e teve também um grande ano profissional em
2003 - "Maria Rita" não traz nada de novo. "Encontros e despedidas",
de Milton Nascimento e Fernando Brant, reaparece aqui cansada, sem
fôlego, enquanto "Agora só falta você", igualmente arrastada, dá
saudades da gravação de Rita Lee, autora da música (em parceria
com L. Carlini). Ou seja, o CD revela uma cantora de 26 anos que,
embora de inegáveis qualidades, parece estar sem gana de cantar,
ou muito triste, ou desanimada, ou tudo isso junto. Falta suingue,
falta jogo de cintura, molho, ginga, tesão, amor ao ofício, ou que
nome queiram dar para o que, na verdade, distingue a precocemente
envelhecida filha de Elis da eternamente ousada e inovadora Elza
Soares, filha de lavadeira e 40 anos mais velha.
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