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UM
CONVITE AO DOM QUIXOTE*
José
Mario Pereira
"El
que lee mucho y anda mucho,
vee mucho y sabe mucho".
Dom Quixote, Parte II

Pablo Picasso |
Decorridos
quase quatro séculos de sua publicação,
o Dom Quixote de Miguel de Cervantes (1547 - 1616), obra
inaugural da novelística moderna, não pára
de estimular a imaginação dos homens, da crítica,
de pintores, gravadores e a de outros criadores de ficção.
Considerada universalmente uma das maiores criações
do gênero humano, encantou Gogol, Dostoievski e Turgueniev,
entre os russos; Fielding, Sterne e Dickens entre os ingleses;
Balzac, Flaubert e Proust, na França, para só
nos referirmos a grandes mestres da literatura de qualquer tempo. |
Nosso
Machado de Assis, que o lia em uma edição anotada
por Dom Eugenio de Ochoa, publicada em Paris pela Garnier (segundo
consta do catálogo elaborado por Glória Vianna), refere-se
a ele várias vezes. No conto "Teoria do medalhão",
de Papéis avulsos, aludindo aos que procuram os "benefícios
da publicidade", escreve: "Que Dom Quixote solicite os
favores dela mediante ações heróicas ou custosas,
é um sestro próprio desse ilustre lunático".
Cita-o ainda em "Elogio da vaidade", de Páginas
recolhidas, e em crônicas de jornal.
Quase
todas as literaturas para as quais o Quixote foi traduzido
reagiram criativamente a ele, incorporando-o, recriando-o. Um exemplo
na Inglaterra - primeiro país a promover sua tradução
- poderia ser The Spiritual Quixote (1772), do satírico
Richard Graves. Joyce e Beckett entre os irlandeses; Aldous Huxley
e Graham Greene entre os ingleses; Goethe e Thomas Mann na Alemanha
e Juan Rulfo no México viram-se às voltas com o poder
de imantação da obra poliédrica de Cervantes.
Em carta a Engels, datada de 3 de maio de 1854, Marx conta estar
aprendendo espanhol, e que, com a ajuda de um dicionário,
já se encontra "no meio do Dom Quixote".
Existem também ensaios que especulam sobre a importância
do livro para Freud e a psicanálise.
Um
caso curioso é o do argentino Jorge Luis Borges, que leu
a obra pela primeira vez em inglês, e confessaria a estranheza
ao relê-la em espanhol. Entre as inúmeras referências
de Borges ao Dom Quixote e ao seu criador as principais são,
obviamente, o "Pierre Menard, autor do Quixote",
incluído depois em Ficções - no qual
o narrador se propõe, em curiosa prova de admiração
canibalesca, simplesmente reescrever a obra - e a "Parábola
de Cervantes e do Quixote", em O fazedor. Num de seus
diálogos com Osvaldo Ferrari, Borges foi enfático:
"Poderiam perder-se todos os exemplares do Quixote,
em castelhano e nas traduções; poderiam perder-se
todos, mas a figura de Dom Quixote já é parte da memória
da humanidade".

Cândido Portinari |
No
Brasil dois poetas manifestaram enorme afeição
pela figura do Quixote: Augusto Frederico Schmidt, em "A
visita", verdadeira obra-prima da prosa evocativa, se imagina
recebendo Dom Quixote em sua casa, confessando-lhe angústias
pessoais e temores sobre a vida do país; e o mineiro
Carlos Drummond de Andrade, que avulta como o autor de "Quixote
e Sancho, de Portinari", série de 21 poemas originalmente
escritos para um livro de arte com desenhos de Cândido
Portinari, incluídos depois em As impurezas do branco. |
*
* *
Tudo
isso levou o presidente da Fundação Biblioteca Nacional,
prof. Eduardo Portella, e o diretor do Departamento Nacional do
Livro, prof. Elmer Barbosa, a decidirem realizar uma exposição
de parte da "cervantina" da FBN, na ocasião em
que o Rio de Janeiro acolhe a Bienal do Livro, onde o país
homenageado é a Espanha. A FBN possui algumas das mais preciosas
edições da obra maior de Cervantes, acervo enriquecido
em janeiro de 1992, quando a família de Genival Londres doou
à instituição a magnífica coleção
que o médico e bibliófilo reuniu ao longo de sua vida
de irrefreável entusiasmo pelas aventuras do fidalgo manchego.

Gustave Doré |
A
mostra Cervantes & Dom Quixote, que ora se inaugura,
foi pensada em segmentos didáticos, visando a não
só surpreender o leitor contumaz de Cervantes como
a sensibilizar quem ainda não teve a alegria de descobrir
prosa tão genial e nela enveredar sem dificuldades.
Apresenta-se, de início, um roteiro da vida e da obra
de Miguel de Cervantes em diapasão com a cronologia
dos episódios fundamentais da história espanhola
do tempo, o que permite contextualizar o livro em questão,
para muitos símbolo e metáfora da Espanha: Dom
Quixote seria a verdadeira encarnação do que
há de mais profundo na psicologia do homem espanhol.
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A seguir
o visitante é apresentado a algumas das mais belas edições
do livro. Por serem muito conhecidas as 380 ilustrações
de Gustave Doré (l833-l883) para a editora parisiense L.
Hachette (1863), disponíveis em qualquer edição
moderna, procuramos identificar outros ilustradores igualmente felizes.

Ricardo Balaca |
Assim,
apresentamos um José Jimenez Aranda (1837-1903), responsável
por 689 lâminas da monumental edição do
tricentenário, publicada em 1905, em oito volumes, quatro
deles de ilustrações que incluem 111 lâminas
de Alpériz, Bilbao, García, Ramos, Jiménez
(Luís), L. Cabrera, Moreno Carbonero, Sorolla, Sala y
Villegas, afora o estudo crítico de José R. Mélida.
Também admiráveis são as edições
barcelonesas de 1879 e 1880, a primeira com 100 cromos e 200
desenhos originais de Apeles Mestres gravados por Francisco
Fuste - cuja féerie de cores lembra em alguns momentos
o mundo de Bosch - e a outra ilustrada por diversos artistas,
o principal deles Dom Ricardo Balaca. Só essas três
edições já fariam a felicidade do mais
exigente bibliófilo. Tudo nelas é perfeito, das
ilustrações à tipologia; manusear estes
exemplares em excelente estado de conservação,
que o curador só conhecia de referência, foi emoção
rara. |
Selecionamos
ainda artistas como o inglês Tony Johannot, autor de gravuras
e vinhetas notáveis, e o francês Henri Morin, com sedutoras
imagens coloridas, no empenho de bem documentar como o Quixote
vem desafiando gravadores e pintores, ao longo de sua existência,
e de expor o alto potencial de visibilidade da obra - característica
explorada por cineastas da qualidade de um Pabst e de um Orson Welles.
"De algum modo Dom Quixote continua vivo, e ainda segue
cavalgando pela Espanha", disse o diretor de Cidadão
Kane a Peter Bogdanovich.
Na
História da caricatura no Brasil, Herman Lima incluiu
dois bons desenhos de Correia Dias, e J. Carlos valeu-se do Quixote
e de Sancho Pança para realizar várias ilustrações
para a revista Careta, como demonstram as capas das edições
de 29 de agosto de 1936 e 30 de julho de 1938. Ao exibir este material,
a Exposição chama a atenção para a relevante
presença do personagem cervantino nas artes gráficas
brasileiras: chegamos a ter duas revistas batizadas de D. Quixote,
como nos conta o pioneiro historiador (cit., vol. 2, pág.
656):
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D.
Quixote foi sempre um dos heróis prediletos dos nossos
artistas do lápis. Seria fastidioso enumerar suas reencarnações,
na pele dos nossos políticos, desde que a Semana Ilustrada
apresentou o Visconde de Itaboraí como "o cavaleiro
da triste figura" no ataque aos moinhos. Basta lembrar-se
as duas grandes revistas ilustradas que em épocas diversas,
respectivamente de 1895-1903 e de 1917-1926, circularam com
o maior êxito, sob a sua invocação: a primeira
de Angelo Agostini, e a segunda sob a direção
de Bastos Tigre, com a colaboração artística
de Julião Machado, Raul, K. Lixto, J. Carlos, Storni,
Osvaldo e tantos outros caricaturistas da época. |
A história
da ilustração da obra-prima de Cervantes começa
no século XVIII. Em 1720, Coypel, pintor da corte de Luís
XV, recebeu a incumbência de criar 28 cartões sobre
o tema para ornamentar o castelo de Compiègne. Em 1738, na
Inglaterra, apareceu a primeira edição de luxo, com
ilustrações de J. Vanderbank, e só em 1771
saiu a primeira edição espanhola dignamente ilustrada
por 32 lâminas de José Camarón.
Cada
período estético procurou interpretar o grande romance
cervantino. Se em 1791 foram publicados os desenhos de Hogarth,
durante o Romantismo vieram à luz os de Doré gravados
em madeira por H. Pisan. O Realismo pôs em circulação
os cromos de Apeles Mestres na edição barcelonesa
de l879, e no ano seguinte ele apareceu enriquecido pela arte de
Dom Ricardo Balaca, Pellicer, J. Gómez, Smeeton Tilly, Sadurní
e Martí.

Daniel Urrabieta Vierge |
Em
1897, os 270 desenhos de Daniel Urrabieta Vierge ganharam notoriedade,
e l905 foi um ano glorioso para o Quixote com a edição
ilustrada por José Jimenez Aranda e outros grandes artistas.
Afora isso, pintores espanhóis da categoria de José
María Sert, Ignacio Zuloaga, Salvador Dalí, Picasso
e Antonio Saura vieram a contribuir, no seu tempo, para a popularização
do épico nacional, assim como ficaram famosos os desenhos
dos franceses D. H. Pouchon e Daumier, do russo Alexeiev, dos
americanos H. I. Bacharach e A. Hann, do escocês W. Heath
Robinson, dos alemães K. Walser e H. Hasemann, e do holandês
Scholz. |
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* *
As
figuras de Dom Quixote e Sancho Pança são universalmente
conhecidas, até entre os que não leram Cervantes.
De games eletrônicos a esculturas em barro do Nordeste
brasileiro, é possível encontrar representações
dos dois personagens nos mais distantes pontos do mundo. Mesmo no
teatro, onde influenciou de Brecht a Pirandello, sua presença
continua forte. Exemplo recente foi a ousada montagem, em outubro
passado, do grupo catalão La Fura dels Baus: valendo-se de
sofisticados recursos da tecnologia midiática (vídeo,
computação, etc.), D. Q. em Barcelona ironizava
certa universidade que vê no Quixote apenas mais um
objeto a ser desconstruído, e não uma obra cuja modernidade
descarta limitações interpretativas.
A mostra
da Fundação Biblioteca Nacional expõe algumas
cenas do Quixote de G. W. Pabst vivido, em 1934, pelo cantor
lírico Fyodor Chaliapin. Mais tarde (1957), no filme colorido
de Grigori Kozintsev, outro russo, Nicolai Cherkasov, encarnou o
Cavaleiro da Triste Figura (l957), recentemente revivido por John
Lithgow. Espera-se que em breve esteja disponível o filme
inacabado de Orson Welles; o cineasta Júlio Bressane, que
teve acesso aos negativos (de 1955), afirma tratar-se de esplêndido
material a ser editado. O visitante da Exposição poderá
assistir a trechos do Dom Quixote feito para a TV espanhola,
com Fernando Rey e Alfredo Landa nos papéis principais, direção
de Manuel Gutiérrez Aragón e roteiro do Prêmio
Nobel Camilo José Cela.

Paul Delaroche, 1910 |
Dom
Quixote atiçou igualmente a imaginação
de músicos famosos. Jules Massenet compôs uma ópera,
com libreto de H. Cain, que teve na estréia, em 1910,
o baixo Chaliapin no papel-título, e da qual existe excelente
gravação com José Van Dam (Quixote), Alain
Fondary (Sancho Pança) e Teresa Berganza (Dulcinéia);
Jacques Ibert escreveu as canções do filme de
Pabst imortalizadas pelo mesmo Chaliapin; e de Richard Strauss
há um poema sinfônico, de 1898, que ganhou duas
boas gravações sob a regência de Karajan:
uma com o violoncelista francês Pierre Fournier, outra
com o brasileiro Antonio Menezes. Baseadas no romance existem
a suíte Dom Quixote de Telemann; Las ausencias
de Dulcinea y El retablo de maese Pedro de Joaquín
Rodrigo; uma ópera de câmara para marionetes de
Manuel de Falla; o última trabalho de Maurice Ravel,
Três canções de Dom Quixote a Dulcinéia,
para barítono e orquestra (1932), e obras de Purcell
(1695), Paisiello (1769), Salieri (1771), Mendelssohn (1827)
e Mercadante (1829), entre outras. |
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O
livro inspirou um balé, com música de Ludwig Minkus
e coreografia de Marius Petipa e Alexander Gorsky, que estreou
no Teatro Bolshoi de Moscou, em 1869, ficou famoso nas performances
de Rudolf Nureyev e Mikhail Barishnikov, e hoje faz parte do
repertório das principais companhias de dança
do mundo. Também virou musical, O homem de la Mancha
(cuja Dulcinéia ganhou no Brasil a interpretação
de Bibi Ferreira), depois transformado em filme com Sophia Loren
e Peter O'Toole. As letras de Dale Wasserman musicadas por Mitch
Leigh foram gravadas em disco pelo chansonnier Jacques
Brel. A Exposição da FBN incorpora todos estes
tópicos: livro, imagem, música, reflexão
estética, apropriação do mito por outras
literaturas, seu impacto na literatura mundial, nas artes gráficas,
na poesia e no ensaísmo brasileiro. |
É
quase impossível dimensionar tudo o que se escreveu sobre
os mais diversos aspectos do Dom Quixote. Só na Espanha
do século XX publicaram-se títulos decisivos, como
os de Miguel de Unamuno (Vida de Don Quijote y Sancho, 1905),
Azorín (La ruta de Dom Quixote, 1912), José
Ortega y Gasset (Meditaciones del Quijote, 1914), Américo
Castro (El pensamiento de Cervantes, 1925), Salvador de Madariaga
(Guia del lector del Quijote, 1926), Luis Rosales (Cervantes
y la liberdad, 1960) e outros ensaístas poderosos, que
levaram a erudição e a especulação estético-filosófica
em torno do Quixote a patamares nunca antes alcançados. Como
fonte documental em relação à vida, à
obra e à época de Cervantes, o maior esforço
individual de pesquisa, até o momento não superado,
é a enciclopédica obra de Luis Astrana Marin, em sete
volumes (1948-1958), de que a FBN possui uma edição
belamente encadernada.
*
* *
No
Brasil, a literatura soube dialogar com o Quixote: no romance
Fogo morto (1943), de José Lins do Rego, notaram os
críticos desde a primeira hora a influência da obra
maior da literatura espanhola, em especial na criação
do personagem Capitão Vitorino Carneiro da Cunha, espécie
de Quixote do sertão brasileiro. A influência do Quixote
pode ser igualmente detectada na obra de Ariano Suassuna, e mesmo
na de Autran Dourado e Dalton Trevisan. No plano do ensaísmo
há uma conferência famosa de Olavo Bilac, editada também
em espanhol; uma outra de San Tiago Dantas, que para muitos justificaria
a autoridade intelectual a ele tributada pelos contemporâneos;
o ensaio de Francisco Campos, demonstração de sensibilidade
poética de um homem visto sobretudo como jurista autoritário;
o trabalho do amazonense Osvaldo Orico, lendo Cervantes em paralelo
com Camões, o ensaio Rui Barbosa e o Dom Quixote,
de J. A. Pinto do Carmo, outro de Josué Montello, e mesmo
um livro de título sugestivo: Dom Quixote e Carlito,
de Oliveira e Silva.
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Segundo
Brito Broca, na excelente Introdução à
edição brasileira da José Olympio Editora,
"é em Antônio José da Silva, o Judeu,
vítima da Inquisição, que vamos encontrar,
pela primeira vez, a marca do Quixote em nossa literatura.
Sua peça, aliás denominada "ópera
jocosa", composta de duas partes e estreada em outubro
de 1733, no Teatro do Bairro Alto, em Lisboa, intitula-se Vida
de Dom Quixote de la Mancha." O crítico informa
ainda que, mais de um século depois, Machado de Assis,
num poema de exaltação ao conhaque, publicado
na Marmota Fluminense a 12 de abril de 1856, dizia: |
Cognac
inspirador de ledos sonhos,
Excitante licor de amor ardente,
Uma tua garrafa e o Dom Quixote
É passatempo amável.
E acrescenta
que "numa página de 1877, sob o título Aquiles,
Enéias, Dom Quixote, Rocambole, vemos o romancista de
Brás Cubas considerar ironicamente a voga do personagem
folhetinesco de Ponson de Terrail em cotejo com o de Cervantes e
aquelas figuras mitológicas". Brito Broca enfatiza que
o próprio Machado registrava, em crônica de 1876, "a
organização de uma Cia. Literária, no Rio de
Janeiro, somente para editar o Dom Quixote com as famosas
ilustrações de Gustave Doré".
Num
ensaio de 1951 incorporado a esta edição da José
Olympio, o folclorista Luís da Câmara Cascudo afirma
não ter encontrado registro do Quixote no Brasil seiscentista,
ressalvando, porém, que "não é crível
o desconhecimento do Engenhoso Fidalgo para os olhos coloniais brasileiros".
Em "Com Dom Quixote no folclore do Brasil", escreve
Mestre Cascudo:
| Desde
quando é lido no Brasil o Dom Quixote? Rodríguez
Marín apurou que a primeira remessa do Dom Quixote
para a América foi em 1605, poucas semanas depois de
publicar-se a primeira parte do El Ingenioso Hidalgo Don
Quijote de la Mancha. Pedro González Refolio apresentou
à Inquisição para exame quatro caixas de
livros em uma das quais viajariam cinco Don Quixotte de la
Mancha. Viajariam no navio São Pedro y Nuestra Señora
del Rosario, de mestre Juan de Alsusta, que devia tomar parte
na frota de Tierra Firme de que ia como general Don Francisco
del Corral y Toledo. Os livros iam para Puerto Belo. O exame
é datado de 25 de fevereiro de 1605. Dom Quixote
saíra cinco ou seis semanas antes. O indispensável
mestre Rodríguez Marín informa que antes de terminar
o ano da publicação (1605) a começos do
seguinte, 1606, habia en las tierras americanas cerca de
mil quinientos ejemplares de ella. |
Contrariando
não só o crítico Brito Broca, mas também
o ilustre sábio potiguar, podemos identificar na obra atribuída
a Gregório de Mattos - para muitos o fundador da poesia brasileira
-, a primeira referência explícita ao livro de Cervantes,
no poema em que descreve "as festas de cavalo que se fizeram
no Terreiro [de Jesus] em louvor das onze mil virgens", texto
provavelmente escrito entre 1684 e 1687 por se referir à
presença, na platéia, do conde do Prado, filho do
então governador da Bahia, o marquês de Minas. Ao se
reportar à ação do "sobrinho do Frisão"
no cavalo, afirma Gregório:
Uma
aguilhada por lança
Trabalhava a meio trote,
Qual o Moço de Dom Quixote,
A que chamam Sancho Pança.
Em
outro poema, um soneto dedicado ao "Tabelião Manoel
Marques", diz, no verso final, que ele "manhas tem de
Dom Quixote"...
*
* *
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Miguel
de Cervantes y Saavedra nasceu no mesmo ano em que o imperador
Carlos V, o grande rival de Lutero, venceu a batalha de Mühlberg.
Sua vida adulta coincide com o reinado do filho de Carlos V,
Felipe II (1527-1598), homem profundamente religioso, construtor
do Escorial e protetor de Santa Teresa, e um dos paladinos da
Contra-Reforma; também sob Felipe II a capital da Espanha
transferiu-se de Toledo para Madri. Cervantes viria a lhe dedicar
um poema quando de sua morte. O novo monarca, Felipe III, não
herdou a vontade de poder do pai, entregando muitas decisões
importantes a seu valido, o Duque de Lerma; neste reinado
os mouros foram expulsos, fato comentado no Quixote,
embora para alguns analistas a posição de Cervantes
sobre a questão seja ambígua. |
Sob
o comando de D. Juan de Áustria, o irmão bastardo
de Felipe II, Cervantes lutou contra os turcos na batalha de Lepanto,
vencida pelos espanhóis em 7 de outubro de 1571, depois de
infligirem aos adversários uma baixa de 30 mil mortos e 10
mil prisioneiros. Ali, segundo depoimentos da época, e apesar
da febre que o dominava, guerreou bravamente a bordo da Marquesa,
levou dois tiros e acabou por perder os movimentos da mão
esquerda.
Em
1575, junto com o irmão, zarpou de Nápoles com destino
à Espanha. O navio em que viajavam foi atacado por piratas
berberescos, que os levaram prisioneiros para Argel. Com o irmão
Rodrigo, permaneceu cativo até agosto de 1577, quando padres
trinitários o resgataram. Essa aventura é mencionada
no Quixote, e há quem especule - refiro-me, entre outros,
ao romance de Fernando Arrabal - sobre possíveis experiências
homossexuais de Cervantes naquele momento. Libertado, dedicou-se
às letras, mas sustentava-se como cobrador de impostos. No
mesmo ano da publicação da Primeira Parte do Quixote
passou mais uma vez pela prisão, junto com a família,
sob a acusação de assassinato, embora tenha sido logo
solto ao se constatar o engano: apenas socorrera um ferido, Gaspar
de Ezpeleta, que acabou morrendo à sua porta.
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O
Quixote tornou-se um best-seller tão logo
a Primeira Parte foi posta à venda, em 1605, pelo impressor
Juan de la Cuesta. Mas as edições piratas impediram
que Cervantes pudesse ganhar a vida como escritor. Além
disso, viu-se alvo das mais desumanas e invejosas perseguições
do meio literário. Afora promoverem sua confrontação
com o grande teatrólogo Lope de Vega, seu vizinho em
Madri, em 1614, um ano depois de publicar as Novelas exemplares,
apareceu em Tarragona, assinado por Fernández de Avellaneda,
um Segundo tomo del Ingenioso Hidalgo Don Quijote de la Mancha,
em cujo prólogo se faziam ofensas pessoais a Cervantes.
O fato, se o magoou, provocou também a decisão
de escrever a Segunda Parte de seu livro. Três dias antes
de morrer em Madri - onde o sepultaram vestido com o hábito
da Ordem Franciscana - terminou a última obra, Los
trabajos de Persiles y Sigismunda, publicada postumamente
e tida como uma das prediletas do autor. |
Supõe-se
que a idéia de escrever Dom Quixote nasceu em Sevilha. O
filósofo Julián Marías nota que:
| ...hechas
las cuentas, resulta que Cervantes, el castellano, vivió
cerca de veinte años en Andalucía, sobre todo
en Sevilla y su comarca. La Mancha de Don Quijote nos há
oscurecido bastante este hecho decisivo. Creo que sin Italia,
primero, y Andalucía después no se entiende a
Cervantes: su amor a la liberdad y la belleza, su complacencia
en las cosas, esse entusiasmo que pone al describir la belleza
de una mujer o 'un pequeño patio ladrillado, que de puro
limpio y aljofifado, parecía que vertía carmín
de lo más fino'... |
Os
críticos apontam diferenças de tom entre as duas partes
do Quixote. A primeira continha 52 capítulos e mostrava
um herói mais aventureiro, empenhado em grandes conquistas,
enquanto nos 74 capítulos da segunda parte, lançada
10 anos depois, vê-se um homem que caminha, melancólico,
para a morte. Nesse ponto, procuram aproximar a biografia do personagem
à do autor.
Visto
como sátira aos romances de cavalaria, especialmente ao Amadis
de Gaula (circa 1300), embora o gênero já
estivesse em declínio à época, o Quixote
impressionou e confundiu leitores. Há quem afirme que a "loucura"
do protagonista surgiu como forma de burlar os censores. Afinal,
quem iria ligar para os delírios de um insano? Engana-se,
porém, quem acredita que só de loucura é feito
o Quixote. Nele há também realismo, e mesmo
documento sociológico: os moinhos de vento do tipo com os
quais se debate o personagem existiam, e eram novidade na época
- só os ricos senhores de terra os possuíam. Os pobres
camponeses viam como inimigos essa moderna tecnologia, no que diz
respeito à produtividade. Os moinhos de vento seriam, portanto,
a máquina do capitalismo competindo deslealmente e oprimindo
os pequenos produtores rurais. Dom Quixote, fanático por
justiça, não tinha como fugir a essa luta...
 |
A
Exposição da Fundação Biblioteca
Nacional reúne também uma seleção
de livros citados por Cervantes como pertencentes à biblioteca
de Dom Quixote (Tirant lo Blanc, de Joanot Martorell,
é um deles), edições do Quixote em línguas
como o japonês, o chinês e o hebraico, e outras
endereçadas ao público infanto-juvenil, como as
ilustradas por Apeles Mestres e Henri Morin, além das
congêneres nacionais. Uma das primeiras adaptações
para os jovens realizou-a Monteiro Lobato (Dom Quixote das
crianças, 1940), e aqui é de notar que ainda
está por fazer-se um levantamento do que as artes gráficas
brasileiras produziram a partir do herói de Cervantes. |
Para
quem quiser se aprofundar na bibliografia sobre o tema, selecionou-se,
em meio à avalanche de textos existentes sobre Cervantes,
trechos de livros facilmente encontráveis e que ajudam a
melhor conhecer as peculiaridades da obra maior do mestre espanhol.
Assim é o capítulo "A Dulcinéia Encantada",
de Erich Auerbach, em Mimesis; o ensaio "Dom Quixote e o problema
da realidade", de Alfred Schutz, em Teoria da literatura
em suas fontes, indispensável antologia organizada por
Luiz Costa Lima; o capítulo de Michel Foucault em As palavras
e as coisas; o ensaio "Cervantes, ou a crítica da
literatura", de Carlos Fuentes, em Eu e os outros - Ensaios
escolhidos; o capítulo de Ian Watt em Mitos do individualismo
moderno, para só citar ensaios facilmente encontráveis
em português. Desse modo, espera-se que o visitante da Exposição,
se sinta interiormente convocado a aprofundar-se na leitura inteligente
dessa obra-prima plurifacética.
*
* *
Verdadeiramente
enciclopédico, no Dom Quixote é possível
encontrar-se referência a temas tão diversos quanto
pintura, alimentação, judaísmo, tradução,
geografia, temas médicos e jurídicos, superstições
e ditos populares. Prosa mutante, que se renova a cada leitura,
já examinada sob os mais variados prismas, hoje é
quase impossível encontrar aspecto inexplorado nesta obra
que há séculos diverte, inquieta e provoca reflexão.
Às vezes quem pensa estar dizendo algo novo, ou sendo provocador,
apenas parodia ou contradiz o já dito. Por exemplo: muito
se tem repetido, com ar de encantamento, um trecho do capítulo
dedicado ao Dom Quixote em How To Read and Why (Como
e por que ler, na edição brasileira), em que o
crítico americano Harold Bloom afirma:
 |
(...)
Se o leitor me permite uma visão estritamente secular,
Cervantes me parece o único rival possível de
Shakespeare, na literatura de ficção produzida
ao longo dos últimos quatro séculos. Dom Quixote
é comparável a Hamlet, assim como Sancho Pança
está à altura de Sir John Falstaff. Elogio maior
do que esse eu não poderia tecer. Contemporâneos
perfeitos (é possível que tenham morrido no mesmo
dia), Shakespeare, evidentemente, leu Dom Quixote, mas é
bastante improvável que Cervantes soubesse da existência
de Shakespeare. |
Vejamos
agora um ponto da conferência "Hamlet e Dom Quixote",
pronunciada pelo escritor russo Ivan Turgueniev em janeiro de 1860
, na qual consumiu 10 anos de meditação e preparo,
e onde diz, entre outras afirmações discutíveis,
que "não há traço de sensualidade no Dom
Quixote":
| A
imaginação evoca contente a imagem dos dois poetas
contemporâneos, que morreram no mesmo dia, o 26 (sic)
de abril de 1616. É muito provável que Cervantes
não soubesse nada de Shakespeare; mas o grande trágico,
na solidão de sua casa de Stratford, para a qual se retirou
três anos antes de sua morte, pode muito bem ter lido
a célebre novela, que já havia sido traduzida
ao inglês...Que tema para um pintor que fosse ao mesmo
tempo um pensador: Shakespeare lendo o Quixote! |
Ninguém,
em sã consciência, acusaria o erudito Bloom de plágio,
mas constatamos aqui fenômeno interessante: um lapso de memória,
provocado por sua admiração pelo texto de Turgueniev.
Afinal, não é Bloom o teórico da "angústia
da influência"? Desnecessário lembrar que Shakespeare
fora o tema do trabalho anterior de Bloom e, dado o caráter
titânico do projeto, ele não tinha como desconhecer
a famosa conferência do autor de Pais e filhos.
*
* *
Uma
antologia de citações sobre Dom Quixote corre
sempre o perigo da injustiça e da omissão. Dostoievski,
cujo O idiota é visivelmente devedor do Quixote,
escreveu no Diário de um escritor (l877): "Esse
livro, o mais triste de todos, o homem não deve esquecer
de levar consigo no dia do Juízo Final". Para o ensaísta
Alfonso Reyes, que foi embaixador do México no Rio de Janeiro,
"toda consulta ao Quixote equivale a um proveitoso exame
de consciência". Segundo o poeta espanhol Jorge Guillén,
"Dom Quixote encarna a tragédia do homem superior que
não consegue se realizar plenamente como sonhou". E
Luis Rosales, outro gigante da interpretação do Quixote,
sentenciou que "ninguém termina sua leitura e continua
sendo o mesmo homem".

Gustave Doré |
Obra
sublime, que fala de livros e convida à leitura, com
ela Cervantes escreveu não só a própria
biografia como também a de todo homem que acredita na
utopia de uma vida melhor e de um mundo mais justo. Por isso
nos identificamos com seus personagens: sofremos com as desventuras
do Quixote montado no fiel Rocinante; nos divertimos com seu
contraponto Sancho Pança, sempre empenhado em trazê-lo
de volta à realidade; e continuamos a crer - como dizia
Menéndez Pidal - que nunca existirá mulher mais
bela que Dulcinéia. Livro simultaneamente irônico
e melancólico, que induz à solidariedade, à
gratidão, interpela os poderosos e desperta afeição
pelos deserdados da terra, conclamando ao amor, à amizade
e ao entendimento, o Dom Quixote é também
convocação à transcendência, recusa
moral da corrupção e da mentira, uma aposta na
moralidade e na ética. E não foi por outra razão
que Miguel de Unamuno e Rubén Dario o chamaram de Nosso
Senhor Dom Quixote. |
Cervantes
morreu em Madri, em 22 de abril (e não 26, como anotou Turgueniev)
de 1616. Mas, desde então, sempre que um "desocupado
leitor" abre um exemplar do Quixote, bíblia do
humanismo civilizador, tem a certeza de que o autor e seus personagens
são imortais.
Texto
de abertura do Catálogo da Exposição Cervantes & Dom Quixote,
na Biblioteca Nacional. Maio, 2001.
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