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Nem
diga que é jornalista!
Para
a imprensa brasileira, 2003 foi um ano muito cruel. Perdemos três
grandes e respeitados empresários: Manuel Francisco do Nascimento
Brito, o Doutor Brito do Jornal do Brasil; Ary Carvalho,
dono de O Dia, e Roberto Marinho, o mitológico homem de imprensa
que fez de O Globo e da TV Globo dois dos mais importantes
veículos de comunicação do país. Baseados no Rio de Janeiro, cada
um imprimiu sua marca individual e influenciou, a seu modo, o jornalismo
de todo o país.
De
origens diferentes e temperamentos diversos, eles se conheciam e
se respeitavam, embora não se possa dizer que tenham sido amigos.
Nascimento Brito, que conheci bem ao longo de 11 anos de trabalho
no JB, parecia um lorde inglês, e mesmo após sofrer um derrrame,
que lhe deixou sequelas, se manteve elegante, cheio de charme. Apreciador
da boa mesa, um de seus restaurantes preferidos era o Mosteiro,
no centro do Rio, onde almoçava frequentemente com os mesmos amigos,
entre eles João Havelange.
Durante
o regime militar, o Jornal do Brasil foi um dos centros da
resistência democrática no país, e na década de 70 era comum vermos
nossas reportagens sendo cortadas, na mesa do copy-desk, pelos censores
da ditadura. O que nos consolava, nesses tempos difíceis, era poder
contar com a total confiança do Doutor Brito, sempre ao lado dos
jornalistas, sempre defendendo seus funcionários e acreditando no
trabalho deles. É figura que merece uma biografia, assim como a
condessa Pereira Carneiro, sua sogra. Curiosamente, a biblioteca
de M. F. do Nascimento Brito, ou pelo menos parte dela, foi posta
à venda num sebo carioca poucos dias depois de sua morte. Esperamos
que seus arquivos estejam intactos e possam, em breve, ser disponibilizados
para consulta. Certamente há neles cartas e documentos importantes
para a história da imprensa brasileira no século XX.
Ary
Carvalho nasceu em Birigui, no interior de São Paulo. Trabalhou
em diversos jornais até se mudar para o Rio de Janeiro, logo depois
de comprar a Última Hora de Samuel Wainer. A partir de então
sua carreira como empresário deslanchou, culminando na compra do
matutino O Dia, de Chagas Freitas, numa transação um tanto
envolta em controvérsias, e que deu margem a um processo movido
pela família do ex-governador na tentativa de reaver o jornal. Perderam
a ação, e Ary teve confirmados seus direitos de proprietário de
um jornal que ele soube transformar - de popular-sanguinolento em
popular-sofisticado. Entre 1988 e 1994 assinei em O Dia uma
coluna diária, a Coluna da Christine, sobre os mais variados assuntos,
inclusive política e economia, e pude contar nesses seis anos com
total autonomia: o patrão raramente pedia uma notinha, e mais raramente
ainda reclamava de alguma coisa.
Além
da reforma, Ary construiu um parque gráfico dos melhores, em Benfica
- e ali, numa sala ao lado das máquinas, ele foi velado. Gostava
de tocar violão, de compor e de cantar, e um dos seus melhores amigos
e também parceiro era Michael Sullivan, um criador de sucessos.
Ariane Carvalho, a filha mais velha, que já trabalhava no jornal
há anos, assumiu a direção da empresa, e criou um conselho de que
fazem parte as irmãs mais novas, Eliane e Lígia, para tocar a obra
em que o pai empenhou sua energia e sua saúde.
Roberto
Marinho assumiu O Globo 23 dias após a morte de Irineu Marinho.
Imprimiu ao jornal uma revolução sem par, que o transformou num
dos mais poderosos veículos de comunicação do país. Entendia profundamente
do métier, e até os últimos meses de sua vida gostava de
opinar sobre as manchetes e fotografias da primeira página. Levou
para O Globo alguns dos mais importantes escritores brasileiros,
entre eles Nelson Rodrigues, Augusto Frederico Schmidt e Otto Lara
Rezende. Próximo aos governos militares, recusou-se sempre a demitir
colaboradores tidos como esquerdistas, um deles o editorialista
Franklin de Oliveira, perseguido pela ditadura militar. Amante dos
esportes, praticou boxe na juventude e depois pesca submarina e
hipismo. Gostava de música clássica, e por isso seu jornal incentivou
vários projetos nesse campo.
Não
conheci Roberto Marinho profissionalmente. Nunca trabalhei nas Organizações
Globo, mas fiz durante seis meses, paralelamente à minha coluna
em O Dia, uma vinheta ao vivo na Rádio Globo, com duração
de cinco minutos, nas manhãs de segunda a sexta-feira, dentro do
"Programa Francisco Barbosa", em que eu comentava as principais
notícias da área cultural. E nunca ouvi dos funcionários nenhuma
queixa contra o patrão. Já o Roberto Marinho anfitrião, que recebia
com gentileza e elegância, este eu conheci em cinco ou seis festas
na belíssima mansão do Cosme Velho, onde ele vivia feliz ao lado
da terceira mulher, Lily de Carvalho, cercado de amigos, de uma
pinacoteca invejável e de dezenas de flamingos, alguns deles - os
de penugem num tom mais forte de rosa - presenteados por Fidel Castro.
Figura simples, carinhosa, incapaz de qualquer grosseria ou discriminação,
a morte transformou Roberto Marinho em unanimidade nacional: mesmo
os antigos detratores curvaram-se à importância de sua ação renovadora
na imprensa do Brasil.
Com
Nascimento Brito, Ary Carvalho e Roberto Marinho foram-se três diferentes
visões do Brasil e diferentes modos de abordar o jornal como empresa,
que tinham a uni-los uma característica comum: a ética profissional.
O tempo dirá dos erros e acertos de suas atuações pessoais e públicas,
e saberá dimensionar a contribuição de cada um ao jornalismo do
país. O certo, por enquanto, é que a quadratura astrológica que
em 2003 os levou para outra dimensão fez cessar a mitologia que,
com gradações diversas, sempre envolveu a trinca em questão.
Curiosamente,
num ano em que perdemos estes três grandes nomes da imprensa nacional,
entra em cartaz na TV Globo a novela "Celebridade", de Gilberto
Braga, onde jornalista, repórter, fotógrafo e mesmo o dono de empresa
jornalística não têm nenhum caráter e estão permanentemente às voltas
com falcatruas de toda ordem. O empresário Lineu arma até pra cima
do genro, e anda tão fora da linha que será assassinado; o editor
Renato Mendes manda forjar matérias, compra fotos que comprometem
pessoas, passa a perna no próprio irmão; o fotógrafo Ivan faz chantagem
e extorsão com as fotos que tira das vítimas; o repórter Joel se
finge de detetive e invade casas para investigar, arbitrariamente,
pessoas de quem seu chefete não gosta, em atitudes de consumado
bandido; e o único jornalista que não chega a ser vilão, o Cristiano
interpretado por Alexandre Borges, é alcoólatra, vive dando vexame,
cai na rua, e até destruiu a festa da escola, envergonhando o filho
pequeno.
Fico
imaginando o seguinte: se Roberto Marinho estivesse vivo, o que
acharia do personagem vivido por Hugo Carvana, dono de um grande
império das comunicações (semelhante às Organizações Globo)? E nós,
jornalistas, o que devemos pensar e sentir com relação ao editor
encarnado por Fábio Assunção, ou mesmo aos repórteres e fotógrafos,
todos sem compostura, sem nenhuma ética profissional? Por que Gilberto
Braga, sempre incensado pela imprensa, vem tratando tão mal os "coleguinhas"?
Não
bastasse, nos últimos anos, o processo de deterioração que a imagem
do jornalista vem sofrendo junto à população - provocado por uma
série de distorções, tais como jovens despreparados que se formam
em péssimas faculdades de Jornalismo e são contratados, com baixíssimos
salários, no lugar de profissionais competentes (com experiência
e salários mais altos); ou repórteres travestidos de delegados de
polícia, apresentando na TV programas de baixo nível que só enfatizam
a violência e o sensacionalismo, além de outras causas, entre elas
um sindicato fraco e omisso - vemos agora agravar-se o problema
com o desmonte da figura antes respeitada do jornalista através
da ficção dramatúrgica, na emissora de maior audiência, e em horário
nobre.
Como
o Ibope de "Celebridade" é bem maior que o do "Jornal Nacional",
há muitos brasileiros acreditando que jornalista é coisa mais parecida
com Lineu, Renato, Joel, Ivan ou Cristiano do que com Fátima Bernardes,
William Bonner, Chico Pinheiro, Ana Paula Padrão ou Renato Machado.
Jornalismo na novela de Gilberto Braga é profissão patética, medíocre,
com profissionais fazendo matérias ridículas sobre tipos igualmente
ridículos, chefiados por mascates sem ética nem responsabilidade
social. A quadratura astrológica que nos tirou, este ano, três grandes
homens de imprensa parece ter se transformado numa espécie de vírus
poderoso, implacável, com o poder de estender sua ação deletéria
até mesmo ao mundo da ficção.
Saudades
do Super-Homem, saudades do Planeta Diário...
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