Uma dupla cheia de boas lembranças

Há poucos dias, numa noite de sexta-feira, tive vontade de conhecer o restaurante Gero, em Ipanema, primeiro endereço carioca do paulista Rogério Fasano. Mas quando eu e meu marido adentramos a casa, a fila de espera era tão grande que eu disse: "Vamos só checar a decoração e sair fora, que estou morta de fome". Demos dois passos e... tchan! Lá se encontravam, numa mesa pequena encostada à parede, Tônia Carrero e José Lewgoy, dois ícones das artes cênicas no Brasil, de quem gostamos muitíssimo. Fomos cumprimentá-los e, dois minutos depois, Tônia já estava chamando o maître e pedindo que afastassem a mesa da parede, que a virassem ao contrário, que buscassem mais duas cadeiras, e logo logo tudo estava organizado para nos acolher, no que veio a ser um delicioso - e inesquecível - jantar.

Ela estava vindo diretamente do teatro, onde dois dias mais tarde encerraria temporada de sucesso da peça A visita da velha senhora, de Dürrenmatt. "Por isso estou com essa maquiagem toda, imagine se eu saio na rua assim toda pintada! Não, de jeito nenhum, isso é maquiagem de cena", explicava a diva. Comentei que ela estava lindíssima, que a peça recebeu ótimas críticas, e ela completou, vaidosa: "O momento em que a platéia mais aplaude é quando, nos agradecimentos finais, eu me abaixo até o chão. Acho que ficam pasmos por eu ter essa flexibilidade toda aos 80 anos, mas devo isso ao meu treinador. Ele é bárbaro, o melhor em técnicas de alongamento".

Aí chegou a vez de falar de Lewgoy. Contei que várias pessoas haviam elogiado sua cena em Esperança, interpretando um padre, e ele disparou, rindo: "Era um papel pequeno, mas a novela anda tão mal das pernas que a minha participação acabou sendo comentadíssima". Aos 82 anos, completados dia 16 de novembro, José Lewgoy está a mil por hora, pleno de entusiasmo, olhos brilhantes, ânimo revigorado: assim que passarem as festas de fim de ano ele começa a cuidar do documentário sobre sua própria vida. A produção é do experiente Cláudio Kahns - que produziu A marvada carne e Antônio José, o Judeu, entre outros sucessos nacionais - o roteiro tem a assinatura do jornalista Sérgio Augusto, e o diretor será o próprio Lewgoy. "E quem poderia fazer melhor?", argumenta ele, com propriedade.

Além de cenas no Brasil, a equipe filmará nos Estados Unidos, onde Lewgoy estudou teatro, por três anos, na Universidade de Yale; em Paris, onde viveu 10 anos; em Nice, onde fez dois filmes; em Hamburgo, na Alemanha, onde trabalhou durante um ano; e em Portugal, onde gravou a minissérie Os Maias, da TV Globo, e estrelou um filme (Antônio José, o Judeu) e uma novela portuguesa. "Mas isso só a partir de abril, porque está frio demais naquelas bandas", explica ele.

Enquanto esperam por um clima mais ameno, as gravações vão acontecer no Brasil, começando por Veranópolis, no Rio Grande do Sul, cidade natal do maior vilão do cinema brasileiro. Foram tantos os filmes de Lewgoy na Atlântida que uma parte do roteiro - a referente a esse período - será detalhada por Eduardo Biffone, curador do maravilhoso acervo da Atlântida Cinematográfica. Como sempre faz em dezembro, José Lewgoy vai passar alguns dias de férias com seus parentes em Porto Alegre. "Eu adoro minha família, tenho sobrinhos-netos e sobrinhos-bisnetos maravilhosos", revela, com alegria. Desta vez ele embarca para o Sul na companhia de Tônia Carrero. Os dois vão ficar no mesmo hotel e festejarão a entrada do Ano Novo na casa de uma grande amiga em comum: Mafalda Veríssimo, viúva de Érico, mãe de Luís Fernando.

Ao final do jantar, meu marido cobrou de Lewgoy o livro de memórias, que há anos ele vem escrevendo por encomenda de nossa editora, a Topbooks. Imediatamente Tônia disparou: "Ah, está escrevendo sua biografia, é? Então, no primeiro capítulo referente ao seu trabalho, você tem que contar a nossa estréia conjunta na vida profissional!". E eles nos narraram a divertida história da primeira vez em que os dois, totalmente inexperientes, fizeram uma cena de cinema. O diretor mandou que Tônia batesse no rosto de Lewgoy com um revólver. Ela nunca batera em ninguém, ele nunca apanhara, não havia quem explicasse como fazer isso de mentirinha. Resultado: Zé Lewgoy passou uma semana sem poder trabalhar, com o rosto coberto de equimoses. Hoje ambos rolam de rir ao lembrar o episódio, que com certeza vai estar no documentário sobre a vida dele. Recordar é viver.

Apresentação de Nelly Novaes Coelho
Crítica de Luciano Trigo - Prosa & Verso
Apresentação de Evaldo Cabral de Mello



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