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Um
Dois Três de Oliveira Quatro
Faz
diferença chamar-se Regina ou Christine? Acho absolutamente possível,
e até mesmo provável, que o nome ajude Regina a se sentir como verdadeira
rainha, e faça Christine achar que carrega nos ombros uma cruz porque
seu nome vem de "Cristo". Pelo menos foi isso o que eu senti quando
ouvi de minha mãe, aos cinco anos de idade, num momento qualquer
de dor, doença ou dificuldade: "Ah, bem que me disseram para não
te batizar com nome derivado de Cristo, minha filha, mas eu achei
que era bobagem. Como me arrependo!" Passei anos sofrendo por conta,
até ela me confessar mais tarde que, se eu não me chamasse Christine,
seria Leslie - em homenagem a Leslie Caron. Leslie!!!! Senti um
alívio tão grande que passei a achar Christine o mais maravilhoso
dos nomes, e a cruz de repente ficou bem mais leve.
Vocês
podem imaginar o que passa na cabeça e na alma de uma criança ao
ouvir uma sentença de morte como essa - e vinda da própria mãe,
que afinal escolheu para ela este nome fatídico. É barra, mas nada
que 10 anos de psicanálise não resolvam. Enfim, depois de tantas
décadas já me acostumei com isso, e até gosto muito do meu nome
- por ser diferente, por ter um H, porque meus amigos me chamam
de Chris, que é pequeno e sonoro e doce. E foi por causa dessa historinha
doméstica que desenvolvi uma espécie de interesse exagerado pelos
nomes das pessoas.
É por
isso que agora, diante da TV no horário de propaganda eleitoral
gratuita, onde os candidatos a deputado têm apenas alguns segundos
para se apresentar, fico tentando ver o que existe além de cada
nome, e atribuindo conceitos a eles, e imaginando por que alguns
escolheram se identificar como - por exemplo - Luisinho, Lurdinha,
Liborinho, Vaguinho, Tiquinho ou Nadinho. Será que acreditam atrair
a ternura dos eleitores apelando para o diminutivo? Ou, numa tentativa
de análise mais profunda, se poderia dizer que eles têm baixa auto-estima,
que se consideram uma coisinha pequena, uma coisa de nada? E a Creuza
Foguete? Seria uma boa parlamentar por trazer no nome a ameaça de
botar fogo - metaforicamente, é claro - na Assembléia Legislativa?
Você votaria em Índio Ferroviário se não fosse ferroviário? E se
fosse?
Certamente
o Coronel Átila fez questão da patente, no programa eleitoral, porque
seus votos virão todos da classe militar; mas se a gente voltasse
no tempo, até o batismo do candidato, não poderia especular que,
ao receber o nome de Átila, o rei dos hunos, esse menino já tinha
uns 70% de chances de fazer carreira militar? E o Franco Corredor?
Eu me pergunto se o adjetivo do prenome levou-o a usar de maior
franqueza no trato pessoal, se o sobrenome lhe deu o gosto pela
corrida, e se hoje ele é um homem muito sincero que corre todos
os dias aqui no Parque do Flamengo, ou alhures.
Outro
nome de candidato que me fascina é Paulo 1.99. Quando a gente lê
na tela da televisão "um e noventa e nove", só pode imaginar que
ele tem um loja, ou uma rede de lojas daquele tipo onde todas as
mercadorias custam um real e 99 centavos. Ou não? Ou será que ele
é um agente secreto brasileiro que ganhou o número 1.99 na Polícia
de Inteligência assim como James Bond é o 007? Pior: e se 1.99 é
o calibre de uma arma especial, assim como existe a pistola 7.68,
ou o "trezoitão"?
Toda
vez que surge o candidato Ó Clemente, eu completo, automática: "Ó
Piedosa, Ó Doce sempre Virgem Maria". Existem outros que concorrem
a uma vaga na Assembléia usando apenas o primeiro nome, e isso me
leva a acreditar que são pessoas muito carismáticas, com um imenso
grupo de amigos e admiradores, e que confiam conquistar os votos
necessários ali no seu círculo social. Como é o caso da Suely, do
Rodrigo, do Batista, do Guida, do Elói, do Alemão, do Amendoim,
do Domício, do Leonardo, do Dr. Robertinho, do Dr. Hildoberto, e
mesmo da Soraya, quase tão bonita quanto aquela triste princesa
persa que o xá trocou por outra, embora a amasse muito, porque ela
não podia lhe dar filhos e...lá vou eu, viajando na maionese. Pois
voltemos ao assunto: se você se chamasse Um Dois Três, acha que
se acostumaria? No bar: "Ei, Um Dois Três, venha tomar um chope
com a gente! Ou dois, ou três..." E no motel: "Eu te amo, Unzinho...Te
amo muito, Doiszinho! Ah, Trezinho, como eu te adoro!!!!!"
Pois
saiba que há nomes muitíssimo mais exóticos do que este, nomes que
poderiam me matar de vergonha - ou me levar a mais 20 anos de psicanálise
- e que no entanto continuaram nas carteiras de identidade de brasileiros
que nunca pensaram em mudá-los, embora a Justiça lhes garanta este
direito. Ou seja: como eu, eles também se acostumaram, e se acostumaram
a coisas muito estranhas, tais como Abrilina Décima Nona (taí, eu
podia ser Dezembrina Décima Oitava...por que minha mãe não pensou
nisso?).
Recebi
pela internet uma lista de nomes muito
diferentes, que repasso aos leitores desta coluna porque realmente
acredito que é possível se fazer uma deliciosa viagem mental imaginando
o que levou cada pai ou mãe a batizar seus filhos como Abxivispro,
Aeronauta ou Agrícola Beterraba. A menina que, ao nascer, ganhou
o nome de Barrigudinha... fez lipo? Ou marombou tanto, a vida toda,
que hoje é um feixe de músculos? E o Amável Pinto, continuou amável
e amorável, ou perdeu a cabeça (com trocadilho)? Por falar em cabeça,
Dona Cafiaspirina tem cefaléia? O garoto batizado de Caso Raro transformou-se
num? Colapso Cardíaco virou cardiologista, ou - pêi-buf - nem teve
tempo de se formar? Dezêncio Feverêncio comemora aniversário a 10
de fevereiro ou tem tanta raiva do nome que só festeja em março?
Esparadrapo Clemente é do tipo que gruda? E o beijo de Éter Sulfúrico,
inebria mesmo? Faraó do Egito trata todo mundo como seu escravo,
e Graciosa Rodela é tão convencida, dizem que ela se acha a própria
inventora da... Gente, acho que me perdi diante de tanto exotismo.
Hidráulico,
Magnésia Bisurada, Manganês Manganésfero - eu gostaria de conhecer
os pais destas pessoas para fazer uma longa entrevista com cada
um deles, assim como adoraria poder investigar se o senhor Homem
Bom faz jus ao nome, se Inocêncio Coitadinho é assim mesmo, se Carabino
Tiro Certo nunca erra o alvo, se Dolores Fuertes de Barriga já experimentou
o elixir paregórico. Leda Prazeres Amante dá aulas de pompoarismo?
Quando crianças, José Catarrinho e José Xixi se comportavam bem
nas festinhas de aniversário?
Se
os pais de Liberdade Igualdade Fraternidade Nova York não fossem
tão nulos em geografia, a menina se chamaria Liberdade Igualdade
Fraternidade Paris, não é mesmo? Acho que Chevrolet da Silva Ford
deve ser dono de uma concessionária de automóveis, e Maria Passa
Cantando virou famosa diva internacional da ópera. Lança Perfume
Rodometálico de Andrade infelizmente já morreu, era filho do escritor
paulista Oswald de Andrade, um dos inventores do Modernismo (e bota
moderno nisso...). Como eu adoraria ter conversado com ele sobre
este nome fantástico, em que seu famoso pai, além de homenagear
o produto, propagandeava a marca - Rodometálico - de origem argentina...
Jotacá
Dois Mil e Um nasceu no ano passado, e agora, no colo dos pais,
deve estar participando de todas as homenagens ao Centenário de
Juscelino Kubitschek. Oceano Atlântico era parente de Oceano Pacífico?
Remédio Amargo conseguiu casar-se? Leão Rolando Pedreira - machucou-se
muito? E as irmãs Defuntina e Finadina, chegaram à adolescência?
Todas essas perguntas me perseguem, me tiram o sono, e às vezes,
diante do televisor, examinando os rostos dos candidatos para ver
se combinam com seus nomes, me lembro do menino que os pais batizaram
de Antonio Veado Prematuro. Terá ele conseguido escolher livremente
e assumir sem sofrimentos sua verdadeira sexualidade?
P.
S. — Acabo de descobrir que a neta da famosa poeta goiana Cora Coralina
— cujo nome de batismo era Ana Lins dos Guimarães Peixoto Bretas
— se chama Goiândira. Não nega as origens.
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