Controle remoto já não serve pra nada

Sabemos, há muito tempo, que domingo do Gugu e domingão do Faustão (ou ao contrário?) são a mesma coisa, só muda o canal. Mas nas últimas semanas a falta de imaginação dos diretores de TV atingiu seu ponto máximo com a repetição de personagens e histórias na imensa maioria das emissoras. O casamento da filha de Chitãozinho, por exemplo, foi destaque em quase todas as redes, que também mostraram, entre outras inutilidades: o choro da bonita Viviane em sua campanha pela inocência do noivo, o pagodeiro Belo; o fim do romance entre o galãzinho global Thierry Figueira e a Maria da novela Esperança, Priscila Fantim; a briga doméstica que levou a cantora (?) Gretchen a desistir do casamento na véspera da cerimônia (realmente, véu branco não encobre hematoma).

Fora isso, após a conquista do pentacampeonato mundial de futebol nossos craques - em especial Ronaldinho, Denilson, Roberto Carlos e Ronaldinho Gaúcho - andaram respondendo às mesmíssimas perguntas em vários programas, de Fausto Silva a Gugu Liberato, do palco superpop de Luciana Gimenez à cama de Monique Evans no erótico "Noite Afora". Se você ficou zapeando na esperança de encontrar novidades, certamente imaginou, por alguns instantes, que o controle remoto estava com defeito, né não? Ou seja: neste país, quem não tem TV a cabo está condenado à mesmice e ao baixo nível dos canais abertos, a cada dia piores e mais parecidos uns com os outros. Eu pergunto: quer coisa mais feia do que Dercy Gonçalves, ao vivo, no programa de Hebe Camargo, perguntando o que teria feito a Gretchen para levar o noivo a lhe descer a lenha - como se existisse justificativa para tal agressão? Eu respondo: Raul Gazolla, ao vivo, no programa de Hebe Camargo, chamando o agressor de burro - "Por causa de um dia? Ele podia ter casado e batido depois". Que pérola!

Para completar, a TV Globo, não satisfeita em viver se repetindo e botando atrações iguais nos programas do Faustão, da Xuxa, do Luciano Huck, do Serginho Groisman, teve a cara-de-pau de colocar no horário nobre uma novela quase idêntica, em forma e conteúdo, à obra anterior do mesmo novelista. Faltando-lhe ânimo e sobrando-lhe dinheiro, sem saco nem necessidade de trabalhar mais, pois criou fama, se encheu de grana e já pode deitar na cama, o autor decidiu copiar-se, e a emissora acolheu o autoplágio. Em "homenagem" a esta linha de produção em série, que vem derrubando a antiga respeitabilidade da dramaturgia da Globo, passo aos meus leitores um e-mail muito engraçado que recebi no dia 17 de julho último. Como o autor não se identificou - e a amiga que me enviou a mensagem também não sabe quem escreveu o texto - vai assim, anônimo, apócrifo, mas com os meus sinceros parabéns pela percepção aguda e apropriada do que ele (ou ela) chamou de

CURSO PRÁTICO DE TELEDRAMATURGIA

MÓDULO I: Como escrever uma novela de Glória Perez

Pegue um assunto da área médica que esteja na moda: clonagem, transplante de coração, mãe de aluguel... Convide Victor Fasano, Raul Gazzolla, Eri Johnson e Guilherme Karam para o elenco. Escreva diálogos sem sentido, crie personagens desajustados e esqueça todo e qualquer compromisso com a verossimilhança. O principal personagem masculino tem que ser interpretado por um péssimo ator (ou um ator que esteja em um péssimo momento). Não há explicação para este fenômeno, mas o fato é que as terríveis interpretações de Victor Fasano (Barriga de aluguel), Ricardo Macchi (Explode coração) e Murilo Benício (O clone) ajudaram a levantar o ibope das novelas. Os personagens suburbanos são fundamentais, devem ser bastante explorados. Mas também é imprescindível criar um núcleo que tenha costumes bem diferentes dos nossos, como muçulmanos ou ciganos. E uma mocinha deste núcleo tem que viver um amor impossível com um mocinho de outro núcleo. No meio da novela, crie uma campanha social, tipo "busca por crianças desaparecidas" ou "luta contra as drogas". Tudo temperado com cenas longas, chatas, repetitivas, arrastadas e sem sentido.

MÓDULO II: Como escrever uma novela de Benedito Ruy Barbosa

Ma non há dificuldade, cazzo! Este é lo módulo ma facile! Antonio Fagundes é inimigo de Raul Cortez, ma é tutto buonna gente. O bambino de uno ama a bambina doutro. Tutto mondo parla italiano com sotaque portunhol. A italianada vem morar no Brasile. Os namoratti se separam ma depois de un'ani o ragazzo vê a ragazza na rua, com uno bambino nos bracci; doppo, o ragazzo descobre que o bambino é filho dele, ma non crê. Mai 10 anni se passam. O ragazzo (que já non é tan ragazzo) declara tutto su amore para la ragazza (que também já non é mai tan ragazza). No finale da novela os personagi fazem as pazes, ficam amicci, e tutti junto dançam una tarantela.

MÓDULO III: Como escrever uma novela de Carlos Lombardi

Uhuuuuu, e aí parceiro? Você visa escrever uma novela do Lombardi? Demorô, isso é mole pra gente. A parada é a seguinte: tu pega a Danielle Winits e bota os peitos dela bem à mostra. Daí tu chama os irmãozinhos Marcelo Novaes, Humberto Martins e Marcelo Faria pra firmar. Os cara vão pegar geral e a mulherada vai rodar de mão em mão. Os camarada num são mole não, se mexer com eles é porrada em todo mundo. E se a polícia for atrás, os mano são sagaz, fogem durante 15 capítulos e ninguém encontra. Ah, não se preocupa com história, não! O lance é botar mulher gostosa com vestido curto e homem bonito sem camisa, e a audiência vai lá em cima, cara! E não esquece da Betty Lago, hein! O papel dela é sempre o mesmo: uma madame histérica. É tiro certo, mano, podiscrê.

MÓDULO IV: Como escrever uma novela de Aguinaldo Silva

Ô bichinho, invente uma cidade porreta, que fique lá no sertão nordestino. Tem que ter uma igrejinha, as carolas fuxiqueiras, um político danado de safado e um mistério daqueles de arrancar cabelo de careca. Ah, e não pode esquecer do forasteiro, que vai botar a vidinha do povo da cidade de pernas pro ar. E pra aumentar esse furdunço, tem que ter um namorico bem quente. Mas o cabra vai ter que cortar um dobrado pra ficar com a moça; afinal de contas, rapadura é doce mas não é mole não. Claro que sempre tem uma mulher mal amada pra azedar o acarajé dos outros e um corno vingativo que vai atazanar a vida do casal. Mas no fim, fica tudo certo, até o político safado consegue um novo mandato.

P.S. - O (a) internauta desconhecido (a) terminava o texto afirmando que os módulos V (Manoel Carlos) e VI (Gilberto Braga) serão dados posteriormente. Prometo que, tão logo receba o novo e divertido material, repasso aos alunos de teledramaturgia, digo, aos leitores desta coluna. Podem aguardar!

Apresentação de Nelly Novaes Coelho
Crítica de Luciano Trigo - Prosa & Verso
Apresentação de Evaldo Cabral de Mello



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