Vítimas dos dois lados

Você está na padaria e tem uma senhora comentando com a moça que serve o cafezinho; vai ao cabeleireiro ou à barbearia e todo mundo fala nisso; entra no supermercado e percebe que discutem sobre a mesma coisa. Crianças e adolescentes no mundo das drogas, este assunto vem desbancando Casa dos Artistas 2 e Big Brother Brasil nas rodas de conversa do país inteiro. E não é pra menos: ao abordar o tema através de três personagens - Mel, Nando e Cecéu - a telenovela de maior audiência nacional vem tirando o sono de muitos brasileiros, sobretudo aqueles que têm filhos entre 12 e 21 anos.

A polêmica em torno disso é se, com sua denúncia, a novelista Glória Perez colabora para reduzir ou aumentar o número de drogados. Há quem acredite que ela estaria glamourizando o uso de drogas por mostrar o problema através de personagens ricos e bonitos num contexto de euforia e luxo - todos moram muito bem, vão a festas de alto nível e circulam em ambientes sofisticados, uma espécie de sonho de consumo da grande maioria da população jovem do mundo todo. Outros pensam o oposto: a autora de O Clone estaria ensinando os pais a detectar os sintomas do consumo de maconha e cocaína, tais como os olhos vermelhos, os frouxos de riso, aumento da fome e uma certa lerdeza nos movimentos e reações (no caso da maconha); ou ainda o olhar esgazeado, a boca seca, a falta de apetite e a hiperatividade (entre os usuários de cocaína).

Não estou aqui pra julgar Glória Perez. Novela é ficção e não documentário ou reportagem policial, e como ficcionista ela pode escrever o que quiser, obviamente. Apenas gostaria de juntar a este assunto notícias recentemente publicadas na imprensa sobre a entrada de crianças, cada vez mais cedo, no tráfico de drogas. Porque assim se fecha o círculo da deterioração social: temos, de um lado, nossas crianças e adolescentes de classes menos favorecidas engrossando dia a dia as hostes do tráfico, e de outro vemos os jovens de melhor poder aquisitivo envolvendo-se com maior facilidade no consumo de drogas e se tornando dependentes químicos.

Lei da oferta e da procura, eis uma lei irrevogável. Se cada vez cresce mais o exército de traficantes é porque a cada dia aumenta também a demanda de drogas: ou você já viu alguém querer produzir e vender no mercado coisa que ninguém está interessado em comprar? Não adianta constatar o problema, até porque ele é velho conhecido nosso. Este quadro só mudará quando o governo federal tomar a si a tarefa de montar um plano sério e bem estruturado de combate à miséria, que é, na verdade, a causa principal de nossas desgraças.

Pais sem emprego, ou subempregados, não podem garantir a seus filhos o alimento, a roupa, o sapato... mas os traficantes podem. E hoje há crianças de 10, 11 anos ganhando entre dois e quatro salários mínimos no tráfico de drogas. Ou seja, viraram arrimo de família! A grande maioria delas morrerá antes de completar a maioridade, mas os jovens endinheirados que vão aos morros comprar drogas nunca se lembram disso. Preferem fingir que não sabem que centenas de crianças (mortas-vivas) ajudam a garantir o acesso dos bem-nascidos à droga, trabalhando no preparo das trouxinhas e dos papelotes, subindo e descendo barranco pra levar o produto aos consumidores, correndo da polícia, tentando se proteger em meio aos tiroteios.

Se Glória Perez restringir sua denúncia aos belos e ricos adolescentes que, coitadinhos, carregam na bolsa (em espécie!) 200 reais - dados pelo papai ou pelo vovô sem que eles tivessem de pregar um prego numa barra de sabão para merecer, como mostrou cena recente dos personagens Mel e Nando na boca de fumo, comprando cocaína - sua iniciativa não passará de tiro n'água. Quando muito, a autora conseguirá acordar os telespectadores de classe média e alta para a necessidade de estabelecer maior diálogo com os filhos. Mas não vai mudar em nada o quadro triste e preocupante de toda uma geração de miseráveis predestinada a morrer na adolescência, essa garotada das favelas que tem poucas opções na vida e, por isso, cai na rede dos traficantes.

Seria enriquecedor - para a novela e para a sociedade brasileira - se a trama das 21h mostrasse também o outro lado da questão, dando voz aos que não têm, denunciando o descaso das autoridades pelo destino desses soldadinhos do tráfico, colocando os riquinhos da Zona Sul em contato com os miseráveis que arriscam suas vidas diariamente para lhes fornecer o inebriante e caro escape da realidade, fazendo-os compreender essas contradições sociais, sofrendo crises de consciência... enfim, ligando estes dois mundos tão próximos e ao mesmo tempo tão distantes. Mas por enquanto, em O Clone, o núcleo "pobre" da história ou está num bar em São Cristóvão ou numa gafieira no Centro do Rio, e o único desempregado (o Tião de Antônio Pitanga) come muito bem. E de graça.

Apresentação de Nelly Novaes Coelho
Crítica de Luciano Trigo - Prosa & Verso
Apresentação de Evaldo Cabral de Mello



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