PINTOR MORTO COMOVE RUA E GANHA ROSAS E MUITAS VELAS *

Christine Ajuz


Eram 13h50 de quinta-feira quando o estudante Luís Carlos Pereira, de 18 anos, passou diante do edifício n° 145 da Rua São Clemente, em direção à casa de uma colega, onde ia estudar para a prova final de Desenho. Nesse momento, um ruído forte chamou sua atenção: um andaime acabava de despencar, projetando de uma altura de 15 metros o pintor Francisco de Oliveira, baiano, 51 anos, 1m60cm, cor parda, Cr$ 35,00 por dia.

Nas sete horas que antecederam a remoção do corpo para o IML, a inquietação popular foi intensa: um padre desconhecido rezou durante alguns minutos junto ao corpo, uma empregada doméstica providenciou o lençol, um passante colocou as velas, uma garota de 16 anos levou três rosas, mais de 10 pessoas pediram ao guarda para descobrir o morto, duas moças choraram e várias crianças disseram o que pensavam sobre a morte.

A QUEDA SEM GRITO

- Ele não gritou. Primeiro tentou se agarrar ao andaime, mas a madeira partiu. Depois, a cerca de quatro metros do chão, puxou o cabo telefônico, que chegou a se soltar da parede, mas foi inútil. Seu corpo girou e ele caiu de costas, os braços curvados para cima, a perna esquerda dobrada. Corri para junto do corpo mas ele já estava imóvel; apenas a mão esquerda tremeu por alguns segundos. Fiquei parado ali, meio em estado de choque, não consegui fazer nada. Um senhor que passava na hora chamou os outros dois operários, que trabalhavam na marquise sobre o Minimercado Kênia. Eles desceram apressados, olharam o morto, subiram ao último andar do prédio, trocaram de roupa e desapareceram.

Luís Carlos ainda viu o padre ("um velhinho, vindo não sei de onde") rezar ao lado do morto, e mais tarde, quando voltou ao local acompanhado da amiga de colégio, todas as providências já tinham sido tomadas. Francisca, uma moça nordestina que trabalha na casa de Dona Pepita Gonzáles - espanhola, irmã do proprietário do Minimercado Kênia, única loja do prédio - apanhou um lençol da patroa (no momento fora de casa) e cobriu o morto. E Cinto, o dono do mercado, contou que deu quatro velas para um senhor desconhecido, "que vestia camisa branca e calça marrom".

- Eu voltava de uma reunião na escola das meninas quando notei a multidão aglomerada em volta do prédio. Fiquei apavorada e disse para uma vizinha que estava comigo: mataram o meu irmão, tenho certeza que mataram ele. Há pouco tempo o minimercado fora assaltado, eu estava lá dentro e os bandidos levaram tudo, inclusive minhas jóias. Logo depois eu fui atacada por um ladrão dentro do elevador, o que me traumatizou mais ainda. Falei com meu irmão para ter mais cuidado, botar um vigia na loja, e ele não me ouviu. Por isso cheguei aqui já chorando de nervoso, certa de que tinham assassinado ele. Não pude evitar de sentir um grande alívio quando soube que o morto era o operário - contou Dona Pepita, moradora do 301.

O MORTO SEM NOME

Há cinco anos guarda de trânsito na esquina das ruas Bambina e São Clemente, o PM Damasceno (conhecido como "Marcelo" por todos os moradores do local) foi a primeira autoridade a chegar. Imediatamente procurou pelo síndico e proprietário do prédio, Sr. Ramiro Fernandes, "mas no apartamento ninguém atendeu". Subiu então ao sexto andar, em busca das roupas dos operários, mas o quartinho estava trancado. Tentou ainda passar para o terraço, onde estava preso o andaime, e também não conseguiu: a moradora da cobertura, uma moça grávida que estava sozinha em casa, ficara muito nervosa e saíra, deixando a porta de acesso fechada a chave.

Os companheiros de trabalho do pintor haviam deixado às pressas o lugar; o dono da firma que os contratara, Sr. João Fernando dos Santos, estava percorrendo outras obras, segundo informação de sua filha, ao telefone; e ninguém dentre as mais de 50 pessoas que rodeavam o morto sabia dizer nem mesmo seu nome. Já passava das 15h quando dois PMs do 8º Batalhão (na RP 8/1233) avisaram que tinham se comunicado várias vezes com a 10ª DP, "mas até agora o comissário não chegou".

Enquanto isso, mais gente se aproximava do corpo coberto, agora com duas enormes manchas de sangue no lençol, e o PM "Marcelo" prosseguia em suas investigações particulares. Conhecido de todos, acabou obtendo de um empregado do mercadinho a chave do quarto onde os trabalhadores trocavam de roupa, que entregou, orgulhoso, ao PM Carlos. Lá em cima estavam os shorts e camisas de trabalho de quatro - um estucador, dois pastilheiros e um ajudante, identificados mais tarde - além da calça de tergal marrom escura, o cinto ocre e a camisa preta da vítima.

Numa bolsa de papel com as cores e o escudo do Fluminense havia um pacote de algodão, escova e pasta de dente, um blusão cor-de-rosa, uma atadura, duas facas de pintor e um vidro de Citoneurin (B12+B1+B6). Num short preto, de trabalho, CR$130,00. Numa outra bolsa branca, de plástico, ferramentas.
No bolso da calça do morto se achou apenas uma carteira do Sindicato dos Trabalhadores nas Indústrias do Trigo, Milho, Mandioca e de Massas Alimentícias e Biscoitos do Rio de Janeiro, com data de 14 de agosto de 1957. Natural: Estado da Bahia / Fábrica: Moinho Fluminense / Função: industriário / Endereço: Rua Mesquita Júnior, 21, casa 7 / Filiação: Aureliano e Maria da Ora de Oliveira. "Marcelo", o PM, desceu com a carteira na mão, comparou o retrato ao rosto na calçada e confirmou: "É ele mesmo, o Francisco de Oliveira".

- Já sei quem é, eu até conversei com ele outro dia, na loja - contou Dona Pepita. Estava chovendo muito e ele entrou para tomar um café. Eu brinquei: "Que sopa, hein! Quando chove vocês não trabalham". E ele então respondeu: "Pois é, dona, mas quando não chove a gente arrisca a vida lá em cima".

Eram quase 16h quando apareceu o auxiliar de comissário Carlos Ribeiro, irritado porque "só hoje já peguei mais de 10 ocorrências". Ele também foi ao quarto dos operários, examinou tudo, botou o dinheiro achado dentro do caderno de anotações e guardou-o consigo. Depois forçou um pouco o alçapão localizado no teto, na esperança de descobrir alguma outra passagem para o terraço, mas em vão. Mais irritado ainda, desceu novamente para a Vila Maria Júlia, onde caíra o pintor, e disse que ia voltar à 10ª DP em busca de autorização para arrombar o portão de acesso ao terraço.

Nesse meio tempo, um maior número de crianças, então voltando da escola, tomou conta da vila, comentando baixinho entre si suas idéias sobre o acidente e sobre a morte. Jorge Luís Ciriaco, de 10 anos, disse que sentiu "um troço na barriga, me deu enjôo olhar aquele sangue no lençol". Paulo César Chiesa, de 12 anos, tinha mais coragem de ver "porque eu acho que a morte é um descanso pra pessoa, ela não sofre mais, não tem mais nenhum problema".

A FIRMA COM CULPA

Já Lúcia Regina de Miranda César, de 14 anos, foi mais crítica: "A firma é que é culpada, porque o meu edifício, aqui ao lado, acabou de ser pintado e não houve nada disso. O que eu acho errado é que sempre esperam acontecer o fato para depois tomar providências, como no caso do Viaduto**. Eles preferem pagar barato e correr risco do que gastar um pouco mais de dinheiro com prevenção. Olha só essa escada que os homens usavam - apontou ela. Toda podre, amarrada com corda e arame".

Completando o quadro de tumulto local, Horácio, uma espécie de "louco de estimação" dos moradores do bairro, andava de um lado para outro, gesticulando muito e "conversando" com o chão. Por duas vezes ele parou diante do morto, o dedo em riste, e gritou mais alto: "Bem feito, seu desgraçado"! Depois falou baixinho, com ar cúmplice: "Isso não é nada, meu filho, não liga, não".

Algumas meninas se afastavam, assustadas, quando Horácio chegava perto, mas Lúcia Regina, sua conhecida, explicou que "ele não é agressivo. Já fugiu cinco vezes do hospício, mas agora nem vêm mais buscar, talvez por saberem que ele não machuca mesmo ninguém. Todo mundo aqui das redondezas dá restos de comida pra ele e essa roupa aí foi meu pai quem deu", contou ela.

Às 16h em ponto chamaram a perícia e a RP foi embora, ficando apenas o guarda de trânsito no local. Às 17h10, muito agitado, ele chamou os repórteres para conversar com o encarregado da obra, que tinha acabado de chegar. Tremendo muito, Paulo Vieira da Silva, estucador e homem de confiança do proprietário da J. F. dos Santos Decorações, contou que mudou de roupa correndo e sumiu "para procurar o patrão. Andei por várias obras, atrás dele, mas não consegui encontrar - disse. Voltei então até aqui para ver como estavam as coisas".

Paulo afirmou que foi o próprio Francisco quem armou os dois jaús (havia um outro junto à entrada de serviço). "Só pode ter sido falta de atenção dele, pois na hora em que a gente sobe o andaime tem de ficar por igual dos dois lados, enrolando o cabo esquerdo e o direito. Se não, quando desce dá um vácuo, o jaú tomba de lado". Ele não fez nenhuma observação quanto ao fato de o andaime não ter madeira de proteção em toda a volta, como deveria.

Segundo o estucador, o pintor era "um cara muito calado, de pouca intimidade. A única coisa que sei é que era separado da mulher". Quando Paulo saiu do edifício e retornou à Vila, se comoveu ainda mais: sobre o corpo do companheiro de trabalho, uma mulatinha muito bonita - Lina Tavares de Melo, de 16 anos - colocava três rosas brancas que comprara na casa de flores vizinha.

O ANEL DE SÃO JORGE

 

Às 17h30, algumas senhoras começaram a reclamar que as velas já tinham acabado; Cinto providenciou mais seis no mercado e uma das vizinhas as acendeu em torno do morto. Cinco minutos depois a joaninha azul e branca regressou com o PM Roberto Cruz de Souza, que tinha ordem para interditar o local. Lá em cima, junto à janela do quinto andar, o andaime estava imóvel, pendurado pelo cabo direito, mas por precaução o PM afastou todo mundo para a calçada defronte, o lado par da Vila Maria Júlia.

Só às 17h50 chegou a perícia. Três homens - um motorista, um fotógrafo e o perito Juarez Lins - descobriram o corpo: um par de sandálias japonesas verde, a calça de brim azul-escuro rasgada na perna direita, deixando à mostra um short vermelho, a camisa rosa levantada, o tórax coberto de cimento, um pedaço de madeira do andaime ao lado de cada braço, um terceiro junto ao pé esquerdo. Sem capacete, sem luvas, sem cinto de segurança, como proteção ele tinha apenas um anel com a imagem de São Jorge na mão direita.

A essa hora, "Marcelo" já tinha convencido uma vizinha da moça grávida a procurá-la na cada de uma tia, onde se imaginava que ela estivesse, para pegar a chave do terraço. E pouco depois apareceu com ela na mão, mais orgulhoso ainda, entregando-a ao perito. "Insuficiência da amarração" foi a causa do acidente, segundo o engenheiro Juarez Lins, que explicou: " Não foi colocado cavalete sobre a mureta do terraço. Com o peso, uma parte da alvenaria por onde passava o cabo afrouxou, como também a corda, erradamente amarrada a ele, e o jaú caiu para a esquerda".

Nos 25 minutos que a perícia levou para fazer o exame, o corpo ficou descoberto, atraindo número ainda maior de curiosos. À saída, o fotógrafo cobriu-o novamente, tendo o cuidado de colocar as rosas por cima. Apenas às 18h35 o cadáver foi liberado pela perícia.


A VELA E AS FLORES

Às 19h25 chegou o dono da empresa, Sr. João Fernando dos Santos, que muito nervoso afirmou, repetidas vezes, ter sido este o primeiro acidente com empregado nos 10 anos de existência da J. F. dos Santos Decorações. Seu advogado mostrou a carteira de trabalho do morto, registrada a 2 de setembro deste ano: Nascimento: 28 de janeiro de 1924 / Profissão: garçom / Estado civil: casado / Endereço desconhecido. E comentou, com ar teatral: "Olha aqui, Cr$35,00 por dia, coitado". Em seguida, os dois se dirigiram à 10ª DP, para prestar depoimento.

Somente às 20h50 - exatamente sete horas após a queda do pintor - o camburão J A 5871 apareceu. Dois homens saltaram no meio da multidão, que nesse instante se tornou ainda maior, abriram a porta da viatura e tiraram da lá uma bandeja com um cadáver enrolado num estranho pano estampado, que foi posto no chão. Algumas pessoas se afastaram, outras cobriram o rosto, mas a maioria se aproximou para ver melhor.

Outra bandeja foi retirada, e desta vez surgiram protestos porque ela estava cheia de sangue. Ninguém queria que o "seu" morto viajasse até o Instituto Médico-Legal no alumínio molhado e sujo, mas o motorista, Otávio Curado Ribeiro, calou logo a boca de todos: "Ele vai aqui nessa mesma, o sangue mistura com o do outro e no fim é tudo igual", disse. Sorridentes, debochando da apreensão do pessoal ("nós já estamos acostumados com isso, só hoje já pegamos mais de 20"), eles fizeram seu trabalho rapidamente e partiram.

A multidão foi se dispersando aos poucos, em grupos, comentando o fato. Sobre a calçada ficou o lençol manchado e as flores; junto ao meio-fio restou apenas uma vela, já no fim, quase apagando. Uma menina chorava, impressionada "com o barulho que a perna dele fez, quando esticaram". Até ontem, ninguém da família fora reclamar o corpo e buscar o atestado de óbito no IML, que acusava como causa mortis "contusão tórax-abdominal com ruptura do coração e dos pulmões."


* Publicado no Jornal do Brasil em 30 de novembro de 1975.

** Referência a outra tragédia: pouco tempo antes, um ônibus tombara do alto do Viaduto São Sebastião, na Praia de Botafogo, com vítimas fatais. A mureta de proteção estava podre.

Apresentação de Nelly Novaes Coelho
Crítica de Luciano Trigo - Prosa & Verso
Apresentação de Evaldo Cabral de Mello



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