História triste contada em detalhes


Durante todo o ano de 1975, o chefe de reportagem do Jornal do Brasil foi tomado por uma obsessão: queria saber, e explicar aos leitores, como é possível que, tão logo um desconhecido cai morto no meio da rua - por assassinato, atropelamento ou outro tipo de acidente - em poucos minutos seu corpo está coberto com um lençol, cercado de velas e com flores ao peito. "Quem acende as velas? Onde arrumam o lençol? Como? Por quê?", esbravejava ele. E em todas as reuniões de pauta o assunto sempre voltava: "Precisamos fazer essa matéria, isso é um mistério interessantíssimo, temos de explicá-lo ao leitor".

Em novembro, após uma série de atropelamentos na Avenida Brasil - aos quais os repórteres e fotógrafos só conseguiam chegar depois de consumado o ritual da colocação de lençol, velas e flores, para desespero do manda-chuva do JB - recebemos um telefonema na Redação: um pintor de paredes acabara de morrer ao cair do andaime, em Botafogo. Sobrou pra mim - e nosso chefe gritava tanto que saí correndo sem sequer esperar pelo fotógrafo, que seguiu mais tarde para o local.

No caminho, sacolejando na velha Rural Willis em alta velocidade, eu rezava para que conseguíssemos chegar a tempo de acompanhar todo o processo de adoção pública do morto: aquele chefe maluco já havia ameaçado me mandar fazer plantão em cima de uma passarela de pedestres da Avenida Brasil até que alguém fosse atropelado. Com o calor inclemente naquela área do Rio, me apavorava a perspectiva de que, após três ou quatro horas de tocaia debaixo de sol, eu começasse a desejar a morte de um infeliz para extinguir meu calvário.

Deu tudo certo: o trânsito estava livre, e chegamos à Rua São Clemente a tempo de reportar tudo, do jeito exato com que o chefão vinha sonhando há quase um ano. Eu me esforcei para anotar absolutamente todas as minúcias, dos nomes das pessoas às cores das rosas, a procedência das velas e do lençol, os detalhes da roupa do morto, sua altura, sua idade, quanto ganhava por dia. Naquela época as reportagens precisavam ter um lead e um sub-lead, além de entretítulos ao longo do texto. No lead se escrevia o fundamental: o que aconteceu, quando foi, quem fez, como fez e por quê. É uma das primeiras coisas que se aprendem na Faculdade de Jornalismo: o lead deve responder a todos os WW - "what? when? who? how? why?". No sub-lead entra o que se considera secundariamente mais importante, uma espécie de resumo da ópera, e os entretítulos vão apresentando cada ato do "espetáculo" até o grand-finale.

Modestamente, acho que nunca, em mais de 30 anos de jornalismo, cheguei tão perto da perfeição da fórmula quanto na reportagem sobre a morte do humilde pintor de paredes, publicada em 30 de novembro de 1975. É uma história triste, sobre um operário pobre e explorado, num país onde se dá pouco valor ao ser humano e não existe uma política séria de prevenção de acidentes de trabalho - e eu fiquei emocionadíssima durante todo o trabalho de apuração. Mas está tão bem contada que me rendeu elogios dos chefes, dos diretores do Jornal do Brasil e de muitos colegas de trabalho, de forma que passei a guardar esse texto na gaveta das melhores lembranças de minha vida profissional. Espero que vocês se comovam ao ler aqui essa matéria muito especial.

Apresentação de Nelly Novaes Coelho
Crítica de Luciano Trigo - Prosa & Verso
Apresentação de Evaldo Cabral de Mello



Fale Conosco - Para anunciar no Portal - Para obter mais informações
Site melhor visualizado na resolução 800x600 pixels.

Copyright © 2005, QuadraVirtual - Soluções via Web Ltda.
É proibida a reprodução total ou parcial sem autorização.