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TEXTO
DE CAETANO VELOSO NA OCASIÃO DO LANÇAMENTO DO DISCO,
EM ABRIL DE 2004
A foreign sound
Caetano Veloso
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A
idéia de fazer A FOREIGN SOUND é muito velha.
Na verdade, quando estava em Londres (de 1969 a 72), conversando
com amigos, já falava disso e pensava em fazer um CD
com repertório anglo-americano quando voltasse ao Brasil.
Trinta anos se passaram e a idéia, a forma de fazer ou
não este CD, mudou muito. |
Há
cerca de uns 10 anos fui a Nova York completamente decidido a não
fazer mais esse trabalho. Bob Hurwitz, presidente da Nonesuch, me
cobrou e eu disse que a idéia não existia mais, que
eu a achava sem interesse. Bob insistiu, disse que eu era a única
pessoa do mundo que poderia gravar Cole Porter e Bob Dylan num mesmo
CD. No avião de volta ao Brasil, pensando na conversa com
Bob, me animei. Lembrei de It's alright, ma, do Bob Dylan
(de onde saiu o título do CD que afinal fiz), pensei em gravar
só com voz e cello, com Jaques (Morelembaum) fazendo o que
Dylan faz no violão e que parece o Te entrega, Corisco,
de Sérgio Ricardo para Deus e o Diabo na Terra do Sol.
Sempre tive grande intimidade com o repertório anglo-americano,
sou fã não só do auge dos anos 20, 30, 40 e
50, mas também do pós-rock n' roll, cujo maior representante
é Bob Dylan.
Depois
disto, a idéia do disco voltou a esfriar. Fiz Circuladô,
e Livro e Prenda Minha e Noites do Norte e Noites do Norte ao
Vivo. Fazendo o A FOREIGN SOUND, sofri muitas vezes por não
fazer outras coisas que estava inspirado a fazer. Também,
virou um pouco lugar-comum para músicos de minha geração
visitar a grande canção norte-americana. Há
uma espécie de desafio na feitura deste CD. Gravei-o agora
porque posso fazer qualquer coisa.
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Quando
fiz Fina Estampa (95), já pensava na questão
de mexer em uma área de maior poder, que é a língua
espanhola. A língua portuguesa é um gueto: embora
haja muitos falantes dentro do mundo português, há
muito poucos fora dele. Inglês é muito mais poder
do que espanhol. Parece que ambiciono ampliar o mercado, entrar
no grande mundo!! |
Tenho
ambições até maiores do que esta, mas não
exatamente esta. Cantar as canções americanas é
voltar a pontos de minha vida e da cultura de massas do século
XX. Tenho ternura pelo material. Eles produziram a canção
pop mais bonita do mundo, todas essas músicas já foram
cantadas pelos melhores. O nível de composição
e de execução dos americanos é um paradigma
para o Ocidente.
A FOREIGN
SOUND é um disco atípico - tomei liberdades maiores
na seleção, que é alienígena para quem
quer que seja. Não supunha que pudesse fazer nada de relevante.
Pode ser que as minhas gravações suscitem algum interesse
enviesado. Não espero mais do que isso.
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