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Nas
curvas da trilha sonora
Caetano
Emanuel Viana Telles Veloso nasceu a 7 de agosto de 1942, em Santo
Amaro da Purificação, pequena cidade do Recôncavo
Baiano. Aos 18 anos, quando se mudou com a família para Salvador,
ele arranhava um violão e curtia cantar junto com a irmã,
Maria Bethânia, nos bares da capital. Dois anos depois, aos
20, acabara de entrar para a Faculdade de Filosofia da Universidade
da Bahia quando, a pedido do diretor teatral Álvaro Guimarães,
começou a compor trilhas sonoras para peças do nível
de Boca de ouro, de Nelson Rodrigues (na qual também
trabalhou como ator) e A exceção e a regra,
de Bertolt Brecht - tudo assim meio que por acaso, pois a música
não era então uma meta de vida. "Eu me sentia
muito mais um desenhista, um artista visual, plástico, do
que literário ou musical", me confessaria ele 26 anos
depois, numa entrevista. Mais tarde, diria à revista Veja:
"Se eu não tivesse sido preso em 1968 e exilado em Londres
até 1972, teria deixado de fazer música. Com a prisão
e o exílio, fui obrigado a viver de música, e acabei
ficando preso a este trabalho". (E a gente aqui pensando que
a ditadura militar não tinha feito bem nenhum ao país,
vejam só...).
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Separado
de Paula após quase 20 anos de um casamento de muitas
alegrias, na vida particular e na profissional - além
dos dois filhos maravilhosos que lhe deu, ela foi fundamental
na organização e administração da
carreira dele, um artista naturalmente desorganizado, que não
sabia cobrar por sua arte e pouco recebia de direitos autorais,
embora sua música fosse tocada no mundo inteiro - Caetano
Veloso acaba de voltar de uma bem-sucedida temporada de duas
semanas no Japão com o show A foreign sound (leia
aqui texto dele sobre o CD). E continua firmando seu nome,
agora, também como responsável por trilhas sonoras
de sucesso, num retorno àquele primeiro trabalho profissional. |
Foi
por conta da produtora cinematográfica de Paula que Caetano
voltou a fazer trilhas sonoras, e não se pode negar que faz
isso muito bem. Ele assinou a direção musical de Tieta
do Agreste e Orfeu, filmes de Cacá Diegues, de Lisbela
e o prisioneiro, dirigido por Guel Arraes, e de Meu tio matou
um cara, do premiado Jorge Furtado. No momento, está
trabalhando com Milton Nascimento na trilha de O coronel e o
lobisomem, adaptação do romance de José
Cândido de Carvalho com roteiro e direção de
Guel Arraes, também produzido pela Natasha Produções
de Paula Lavigne.
Recentemente
ele assinou a trilha de outro filme produzido pela ex-mulher, 2
filhos de Francisco, que deve estrear em agosto, contando a
história da dupla sertaneja Zezé di Camargo &
Luciano. Antes de embarcar para Tóquio, Caetano gravou com
Zezé "Saudade brejeira", canção muito
popular em Goiás, terra dos irmãos biografados no
filme, que traz também, na trilha, participações
de Ney Matogrosso ("Romaria") e do falecido Antônio
Marcos ("Como vai você?", com vocais adicionais
de Zezé e Luciano), um dueto de Wanessa Camargo e Nando Reis
em "Poeira", hit sertanejo nos anos 60, e mais Maria Bethânia
arrasando com "É o amor", primeiro sucesso da dupla,
de 1991, regravado pela cantora em 1999 no CD A força
que nunca seca.
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O
compositor gosta igualmente de participar como cantor em trilhas
sonoras alheias, como fez recentemente em O milagre do Candeal,
filme do cineasta espanhol Fernando Trueba, onde canta uma composição
de Ary Barroso, e como já fizera lindamente antes em
outros do "oscarizado" Pedro Almodóvar: A
flor do meu segredo encerra com Caetano interpretando a
venezuelana "Tonada de luna llena", e no posterior
Fale com ela o baiano aparece tocando e cantando "Cucurucucu,
Paloma", hit mexicano conhecido internacionalmente. |
SERIEDADE
PROFISSIONAL
Após
entrevistá-lo em 1989 - um texto que mereceu página
inteira no jornal O Dia - eu, que já era amiga há
muito anos de Gilda Mattoso, sua talentosa assessora de imprensa
por décadas, acabei me aproximando mais de Caetano, e passei
a marcar presença em todas as noites de estréia de
seus shows, com direito a conversas longas depois, no camarim. E
assim, além de fã de seu trabalho, com essa aproximação
vim a me tornar admiradora também do sujeito extraordinário
que se revela no contato pessoal.
Em
1992, passava férias em Nova York e descobri, lendo o Village
Voice, que Caetano se apresentaria naquele dia. Era 5 de setembro,
um sábado com horário de verão, e o sol ainda
brilhava quando, às 7 da noite - faltando apenas uma hora
para a estréia de seu show Circuladô - vi o
baiano deixar esbaforido o Town Hall, na rua 43, e embarcar numa
limusine preta rumo ao hotel, onde tomaria um banho rapidíssimo
pra poder estar de volta correndo. Ele, a banda, toda a equipe de
apoio e mais Paula Lavigne tinham investido a tarde inteira em passar
e repassar o som sem chegar a um resultado satisfatório.
Por conta dessa busca de perfeição, o artista atrasou
em 15 minutos o início do espetáculo naquela noite,
e ao final de duas horas e meia de palco, em que levou a platéia
da nostalgia ao delírio, continuava reclamando: "Não
dá pra acreditar numa coisa dessas!", esbravejava, inconsolável.
"Em Nova York, numa casa assim famosa, o som é pior
do que no interior do Brasil".
Essa
historinha entra aqui só para ilustrar a responsabilidade,
o profissionalismo, o extremo cuidado que esse grande músico-poeta-compositor-cantor
dispensa a seu trabalho e a seu público, coisas transmitidas
pelo pai, Seu Zeca - um funcionário dos Correios que jamais
tirou férias para não desapontar seus conterrâneos,
acostumados a vê-lo sempre como um exemplo de atividade.
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"Meu
pai era uma pessoa que não decepcionava", me disse
Caetano uma vez. O mesmo se pode afirmar hoje do herdeiro mais
famoso de Seu Zeca e Dona Canô, que no próximo
7 de agosto completará 63 anos com uma discografia impecável
- a caixa "Todo Caetano" traz 43 CDs; um filho de
33 anos, Moreno, também músico, com a baiana Dedé
Gadelha, que em breve lhe dará o primeiro neto; mais
dois com a carioca Paula Lavigne: Zeca, de 13 anos, e Tom, de
sete; e uma multidão de fãs, no Brasil e no mundo,
a quem ele não decepciona. |
DEBAIXO
DOS CARACÓIS
No
dia da estréia de Circuladô no Canecão,
em 11 de março de 1992, teve gente chorando na platéia
quando Caetano, relembrando o duro período do exílio
em Londres, contou das manifestações de solidariedade
que recebia do Brasil - entre elas a canção feita
para ele por Roberto Carlos. Na estréia do mesmo show em
Nova York, seis meses mais tarde, Caetano repetiu a história
em inglês, e quando emendou cantando "um dia a areia
branca/ seus pés irão tocar...", tinha gente
chorando também entre as poltronas primeiro-mundistas do
Town Hall. A maioria do público, apesar de brasileira, não
sabia que a famosíssima "Debaixo dos caracóis
dos seus cabelos" era um tributo de saudade do rei Roberto
Carlos ao amigo Cae.
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Muitos
deles radicados em Nova York desde os anos de chumbo - e exatamente
por causa da ditadura militar - estes patrícios se emocionaram
mais por serem, de algum modo, ainda um pouco exilados; e traduziram
toda essa emoção numa onda de aplausos e gritos
que obrigou Caetano Veloso a voltar várias vezes ao palco,
em muitos e muitos bis. Mesmo os americanos que não entendiam
as letras das canções entraram no clima fantástico
daquela noite, inebriados pela relação amorosa
entre artista e platéia. "Não vou ao Brasil
há mais de cinco anos e não pensava fazer isso
tão cedo", revelou uma capixaba sentada a meu lado
na fila E. |
"Mas,
depois deste espetáculo, estou com um sentimento de brasilidade
que nem sabia que eu tinha. Me deu vontade de voltar, um orgulho
danado de ser brasileira".
Quando
voltei das férias em NY, escrevi para o jornal (já
extinto) Rio Capital, que então estava estreando,
um texto contando essa experiência emocionante na platéia
do Town Hall, seguida pela entrevista que Caetano me dera em 1989.
Era 1992, Caetano acabava de completar 50 anos, Moreno, seu primogênito,
ainda estava nos 20, e Zeca, seu primeiro um filho com Paula, era
um bebê de seis meses. Como quase tudo que perguntei e ele
respondeu era atemporal, e continua valendo, segue aqui a reportagem,
para quem gosta desse artista especial e quer saber um pouco mais
sobre ele. Em respeito à privacidade do casal, não
vou falar sobre a separação de Caetano e Paula, até
porque todas as revistas de fofocas têm se encarregado disso
- e fartamente. Prefiro, ao contrário, prestar homenagem
ao baiano que, há 40 anos, adotou esta cidade de São
Sebastião do Rio de Janeiro, e foi orgulhosamente por ela
adotado quando aqui chegou, em 65, acompanhando a irmã mais
nova, Maria Bethânia, convidada a substituir Nara Leão
no show Opinião.
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