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A
visita do Papa
Artigo - Dom Eugenio Sales
Jornal do Brasil
17/7/2004
A 30 de junho de 1980, iniciava o santo padre João Paulo
II sua primeira e histórica visita ao Brasil, percorrendo
oito Estados. Aproxima-se o 25º aniversário, uma excelente
oportunidade para serem recordados os ensinamentos do sucessor de
Pedro e o nível de fidelidade medido pelo cumprimento das
diretrizes dadas pessoalmente e transmitidas, na ocasião,
por uma extensa rede de comunicação. Ele abordou,
com sua autoridade, os principais problemas da Igreja no Brasil
e apontou aos católicos a solução. A lembrança
dessa extraordinária peregrinação também
possibilitará o fortalecimento de eventuais correções
de rota. Estaremos assim nos preparando para as celebrações
que, certamente, serão realizadas em caráter individual
ou comunitário.
João
Paulo II foi bem explícito quanto aos objetivos da viagem.
Ao desembarcar, em Brasília, a 30 de junho de 1980, presente
o presidente da República, afirmou: ''Aqui me encontro numa
missão nitidamente pastoral e religiosa''. Na catedral de
Brasília, dirigindo-se aos sacerdotes e religiosos, assim
se expressou: ''Sois os pastores de um povo bondoso e simples, que
revela uma grande fome de Deus. Vivei, pois, com entusiasmo, a missão
evangelizadora da Igreja. Para realizá-la, deveis assumir
com coragem a tarefa de saciar essa fome, levando o povo ao encontro
de Deus. Assim estareis contribuindo para torná-lo mais humano''.
Na homilia da missa ele proclamou: ''A fé católica
(...) está na raiz da formação do Brasil, especialmente
de sua cultura. Pretender cancelar essa fé é esvaziar
séculos de história, (...) é mutilar a mensagem
do Evangelho (...); a missão da Igreja não pode ser
reduzida ao sociopolítico, mas consiste em anunciar o que
Deus revelou sobre si mesmo e sobre o destino do homem''. Aos presos
do presídio da Papuda, dirigiu estas palavras: ''Gostaria
de entrar, para uma visita como esta, em todas as prisões
do Brasil. Que esta seja um símbolo e que cada prisioneiro
se sinta visitado pelo papa''.
Em
Belo Horizonte, a 1º de julho, exortou a juventude ''a construir
uma sociedade justa, livre e próspera, onde todos e cada
um possam gozar dos benefícios do progresso''.
No
Rio de Janeiro, na missa do Aterro do Flamengo, o tema central foi
a família: ''Como fechar os olhos para as graves situações
em que concretamente se encontram numerosíssimas famílias
entre vós e para as sérias ameaças que pesam
sobre a família em geral? Algumas dessas ameaças são
de ordem social; (...) outras são de ordem moral e referem-se
à generalizada desagregação da família;
(...) outras ainda são de ordem civil, ligadas à legislação
referente à família (...). Queira Deus que assim não
seja em vosso país (...). E aqueles que têm a responsabilidade
de elaborar e promulgar as leis o façam no respeito aos valores
insubstituíveis de uma ética cristã'' (nº
5). No discurso aos intelectuais, a 1º de julho, o papa assim
falou: ''Não tenhais medo, senhores, abri as portas do vosso
espírito, da vossa sociedade, das vossas instituições
culturais à ação de Deus, que é amigo
do homem e opera no homem e pelo homem'' (nº 3). Na visita
à favela do Vidigal, fez o discurso síntese de todos
os pronunciamentos no Brasil, como ele mesmo afirmou (nº 3).
Ao referir-se à Igreja dos pobres, declarou que ela não
é ''de uma classe ou de uma só casta. (...) A Igreja
dos pobres não quer servir àquilo que causa as tensões
e faz explodir a luta entre os homens. (...) A Igreja dos pobres
não quer servir a fins imediatos, políticos, às
lutas pelo poder e (...) suas palavras e ações não
sejam usadas para tal fim ou 'instrumentalizadas'.''
Inspira-nos
na preparação ao 25º aniversário da primeira
visita de João Paulo II ao Rio de Janeiro e ao Brasil o discurso
que ele proferiu no Corcovado, com intensa participação
desta cidade através da cadeia das emissoras de rádio
e televisão. Era o dia 2 de julho e assim começou:
''Cristo! De que outro lugar, no Brasil e fora dele, faz ecoar este
Nome - o único que nos pode salvar (cf Atos 4,12) - e que
tem um particular direito de cidadania na história do homem
e da humanidade (cf. Redemptor Hominis, nº 10). Não
há melhor lugar para falar de Cristo do que do alto deste
imenso penhasco feito altar, entre maravilhas naturais, criadas
por Ele, o Verbo de Deus (cf. Jo 1,3), bem no coração
do Rio de Janeiro. Aqui a estátua que há precisamente
50 anos todo um povo quis erguer no cimo do pedestal natural, se
faz a um tempo símbolo, apelo e convite'' (nº 1).
Na
tarde do mesmo dia, no estádio do Maracanã, o santo
padre, ordenou 72 presbíteros, de muitas dioceses do Brasil.
Na homilia da missa reafirmou: ''O serviço sacerdotal é
serviço excelente e essencialmente espiritual (...), não
é o do médico, do assistente social, do político
ou do sindicalista (...)''. Aos bispos latino-americanos, reunidos
no Rio de Janeiro, tratou das atividades do Conselho Episcopal Latino-Americano
(Celam). Destaco o seguinte: ''A Igreja é para o crente objeto
de fé e de amor. Um dos sinais do compromisso real com a
Igreja é acatar sinceramente seu magistério, fundamento
da comunhão. Não é aceitável a contraposição
que se faz, às vezes, entre uma Igreja 'oficial', 'institucional'
e a Igreja 'comunhão'.''
Voltaremos
ao assunto, recordando, assim, todo o roteiro, etapas dessa extraordinária
viagem. Evidentemente, a leitura integral de cada pronunciamento
será uma ocasião de recordar, com maior eficácia,
essa pregação do Evangelho em nossa pátria,
que bem merece uma digna celebração. Isso nos leva
a um exame de consciência a respeito da nossa obediência
aos ensinamentos e orientações do santo padre contidos
em numerosos discursos e homilias que aqui pronunciou. Vamos reler
a pregação de João Paulo II, examinar nossa
conduta, fazer uma autocrítica da aplicação
das diretrizes do sucessor de Pedro. É, sem dúvida,
a melhor maneira de celebrar os 25 anos da primeira visita do papa
ao Rio de Janeiro e ao Brasil.
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