A primeira visita a gente não esquece


Lembro de que não gostei nadinha quando a chefia de Reportagem do Jornal do Brasil avisou que eu estava credenciada para acompanhar a primeira visita de João Paulo II ao Rio de Janeiro. Há anos eu vinha cobrindo a passagem de chefes de Estado estrangeiros, com credencial expedida pelas Forças Armadas, e sabia o quanto era sufocante trabalhar cercada de policiais naqueles tempos de ditadura militar. Não foi difícil, portanto, imaginar, por exemplo, como seria duro reportar a visita do papa ao morro do Vidigal - duplamente "perigoso", na visão das autoridades, por sua localização e por nele habitarem favelados - num esquema de segurança militar, ou seja, exagerado e malfeito.

Vivia-se no Brasil, em 1980, a mais grave crise entre Igreja e Estado. Na década anterior, a oposição fora destruída pela ditadura, e o clero progressista representava a única força a se colocar francamente contra os abusos do governo dos generais. Lá fora, o cardeal dom Helder Câmara irritava ainda mais os militares com suas denúncias de tortura de presos políticos, e, apesar de já estarmos vivendo o início da chamada distensão "lenta e gradual e o final do AI-5, no governo João Figueiredo ainda ocorriam atentados contra os oposicionistas. E foi neste clima de insegurança que João Paulo II chegou ao Brasil.

De 30 de junho a 12 de julho o papa fez mais de 40 discursos em 12 estados, falando sobre a unidade da Igreja, os direitos humanos, a importância de se manter livre a cultura de um povo e a necessidade de se criar uma sociedade mais justa e igualitária. No Estádio do Morumbi, em São Paulo, ele pediu por justiça social diante de 150 mil operários, o que foi interpretado como demonstração de apreço à causa dos metalúrgicos, que acabavam de sair de uma greve de mais de 40 dias no ABC, reprimida com violência. Na época, Lula e mais 13 líderes sindicais foram presos e os sindicatos sofreram intervenção.

Embora tivesse tomado decisões contra a Teologia da Libertação, de que Leonardo Boff era um dos principais representantes no Brasil, o papa mostrou simpatia pelos que lutavam em defesa dos oprimidos. Na missa campal que rezou em Recife, abraçou dom Helder Câmara e o chamou de "irmão dos pobres e meu irmão".

Diante desses pequenos gestos de grande conteúdo, parece que os militares quiseram fazer uma demonstração de força, e a repressão exibiu suas garras, insensível à presença do papa em território nacional: foram seqüestrados o jurista Dalmo Dalari, presidente da Comissão Justiça e Paz, e o padre argentino Jorge Oscar Adur, até hoje desaparecido.

Já na rápida visita de João Paulo II ao Piauí, manifestantes ergueram uma faixa onde se lia: "Santo padre, o povo passa fome", e foram presos.O que me lembro, como repórter, é de que não só no Rio mas em todo o país aconteceu exatamente como os jornalistas haviam previsto em termos de organização da visita papal: uma bagunça nunca vista antes. O prestigiado Araújo Netto, correspondente do JB em Roma, veio participar da cobertura e ficou chocado, como escreveu em 2 de julho de 1980:

"Se o objetivo do governo brasileiro era oferecer, a mais de 200 jornalistas dos quatro cantos do mundo, a imagem da incapacidade nacional no momento de organizar uma grande manifestação popular - como é no caso a visita do papa - a esta hora a Secretaria de Comunicações Sociais da Presidência da República (Secom) deve ser cumprimentada. Com brilho, ela cumpriu sua estranha missão.

Se com o seu desinteresse e desapreço pela função dos meios de comunicação o monsenhor Paul Marcinkus, o atlético e autoritário presidente do Instituto para as Obras Religiosas da Santa Sé (leia-se Banco do Vaticano), o homem que sai na frente para estudar e preparar as maratonas pastorais de João Paulo II, quisesse ver "o circo pegar fogo" nos 12 dias brasileiros do papa, hoje é o caso de felicitá-lo calorosamente. (...)

Se esse conjunto de esforços negativos teve a intenção de transformar a primeira visita de um papa ao país que continua a vangloriar-se de ser "o mais católico do mundo" num acontecimento marcado pelo grotesco, numa página de subdesenvolvimento, parabéns a todos os autores. Talvez seja o caso de reviver e parodiar, mais uma vez, a célebre frase de Winston Churchill: 'Nunca tão poucos fizeram tanto para a pior divulgação do Brasil'."

O desabafo de Araújo Netto não poderia ser mais apropriado. Realmente o que se viu durante a passagem do papa foi uma sucessão de erros. Muitos jornalistas estrangeiros credenciados para a cobertura não conseguiram voar de Brasília para Belo Horizonte no dia 1º de julho porque não havia o prometido avião para a imprensa, que deveria decolar meia hora antes, na manhã de 1º de julho, e denunciaram publicamente a "flagrante incompetência da Secom na organização do vôo papal", um vexame que correu mundo em manchetes de jornais. No dia seguinte, até o sempre discreto Dom Ivo Lorscheiter, presidente da CNBB (Conferência Nacional dos Bispos do Brasil), se irritou com o excesso de zelo da Polícia Federal na subida do papa ao Corcovado. "Para quê tanta coisa com 20 quilômetros de floresta?", perguntou Dom Ivo referindo-se ao isolamento da Floresta da Tijuca, por onde passou o ônibus com parte da comitiva papal, segundo ele "fazendo horrores de acrobacias".

De minha parte, lembro com agudeza dos maus momentos, como o terrível sufoco de acompanhar a passagem do papa-móvel pela Avenida Brasil, imprensada entre milhares de outros repórteres, fotógrafos, cinegrafistas, policiais e pessoas do povo que tentavam ver melhor o santo padre em seu rápido desfile. No dia seguinte, 2 de julho, a subida à favela do Vidigal foi outra tortura, pois ali o esquema de segurança extrapolou nossas piores expectativas. Mas devo confessar que foi também maravilhoso ver a emoção estampada nos rostos de gente humilde, para quem a visita do papa significou esperança de vida melhor. Um exemplo no dia da chegada do papa à base aérea do Galeão, proveniente de Belo Horizonte: dona Maria Jacinta de Jesus, uma senhora de 80 anos, moradora da favela da Maré, que, levando nas mãos uma bandeirinha de papel com a imagem de Nossa Senhora de Fátima, suportou sem reclamar quatro horas de espera, de pé, junto a uma mureta na Avenida Brasil, para ver passar João Paulo II. "Foi uma alegria muito grande", disse ela depois, emocionada. "Bem que ele podia ter vindo mais devagarzinho, pra gente ver melhor, mas mesmo assim estou sentindo como se eu fosse mais alegre agora do que antes de ter visto ele".

Outro exemplo, no dia seguinte: dona Elvira Almeida de Lima, 64 anos, quatro filhos e oito netos, moradora de um barraco de 20 metros quadrados na favela do Vidigal, que recebeu a visita-surpresa do papa. Ela estava no portão de casa, esperando a chance de vê-lo passar, quando este, acompanhado de dom Eugênio Sales (leia artigo de d. Eugênio sobre o 25º aniversário da visita do papa), atravessou a cerca, entrou e abraçou-a. Ela contou que na hora não teve reação: "Parecia que estava anestesiada". Depois, revelou: "A Polícia Federal já tinha passado de barraco em barraco, avisando a gente pra ficar quieta que ele não ia entrar na casa de ninguém". Ou seja: havia uma ordem para que os moradores se mantivessem em seus barracos, e apenas 200 favelados, escolhidos a dedo - certamente os mais "palatáveis" - foram autorizados a ficar nas vias por onde passaria a comitiva papal, fazendo figuração "pra inglês ver".

Pois o papa, contrariando todas as normas da segurança, entrou na sala pequena e perguntou a dona Elvira se ela era brasileira. "Sim", respondeu a senhora. "Como vive? Quanto ganha?", quis saber ele. "Vivo aqui sozinha, ganho uma pequena pensão de 1.661 cruzeiros e conto com a ajuda de meus quatro filhos". O papa continuou, curioso: "Essa casa é sua?". E ela, comovida: "Agora, graças a Deus, vai ser" - numa referência ao fato de o governo ter decidido que os moradores daquela favela-modelo receberiam a escritura definitiva de seus barracos. Em seguida o papa abraçou dona Elvira, beijou-a na testa, deu-lhe a bênção e lhe entregou dois terços, um para ela, outro para seu filho Armando, que aparecera para ajudar a mãe a enfrentar aquela situação tão inesperada quanto emocionante. "Se eu morresse naquele instante, morreria feliz", confessou dona Elvira mais tarde, ainda com o terço nas mãos. (Leia o discurso do papa no Vidigal).

Essas cenas, que se repetiram incansavelmente aos olhos dos repórteres na missa rezada no Parque do Flamengo, na subida ao Corcovado, onde o papa fez outro belo discurso, no encontro com um grupo de intelectuais no Sumaré e em todos os momentos da cobertura jornalística no Rio de Janeiro, me levam a acreditar hoje, nesse momento de comoção mundial pela morte de João Paulo II, que esta visita ao Brasil em 1980 foi fundamental para fazer dele o primeiro papa "midiático".

Apesar de todos os erros de organização cometidos pela Secom, apesar dos excessos da segurança, e talvez até por isso mesmo, nessa primeira vinda a nosso país, especialmente nos dias passados no Rio - com sua paisagem de cartões postais, passando da beleza paisagística do Aterro, onde foi rezada a missa, ao impacto visual da estátua do Cristo Redentor e dos barracos pendurados nas encostas do morro do Vidigal, tudo isso transmitido ao vivo pelos cinegrafistas ao mundo inteiro - estabeleceu-se a imagem de "papa dos pobres", cristalizou-se a aura de peregrino que marcaria João Paulo II por todo o seu pontificado. E que agora leva os fiéis a clamarem por sua canonização.


















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