| AGUINALDO
SILVA RESPONDE A CRÍTICAS
Quando
comecei a desenvolver a idéia da trama que resultou em Senhora do Destino,
resolvi situá-la, em seu início, nos idos de 1968, com a intenção
de mostrar aquele período, que eu presenciei na qualidade de jornalista
e também de ativista político. A minha intenção era
utilizar a grande penetração da novela das oito para mostrar uma
fase recente da vida do país que, mesmo tendo sido muito atribulada, já
estava caindo no esquecimento. Este objetivo foi plenamente alcançado.
Embora os que se consideram "donos" do assunto, autores de livros, etc,
tenham ignorado solenemente a novela, o fato é que ela fez mais, principalmente
entre as novas gerações, para mostrar como foram os anos de chumbo,
do que tudo o que se escreveu sobre eles até aqui. Claro
que o que se viu nos três primeiros capítulos da novela era apenas
uma síntese da época que ela retratava. Era a realidade vista através
da ótica da ficção, como convém numa novela. Ao
mesmo tempo, no chamado "presente" da novela, eu pretendia situá-la
o mais próximo possível da atualidade, já que é dessa,
em última análise, que tanto nos idos de 68 como agora eu pretendo
falar. Para atingir esse objetivo, o que eu deveria fazer se, entre as duas épocas,
existe uma distância cronológica proibitiva? Eu devia fazer - levando
em conta de novo que se trata de ficção, e não de um documentário
jornalístico -, o que fiz e vocês estão vendo no ar, ou seja:
criar o tempo ficcional da novela. Esta
solução, tomada com a liberdade que a ficção me permite,
e à qual os telespectadores aderiram sem discussões, é mais
simples do que se pode imaginar. O tempo ficcional de Senhora de Destino
é "alguns anos depois" de 1968, ou seja: é AGORA, assim
como o distrito de Vila São Miguel, em Caxias, existe apenas nela. As pessoas
que se preocupam em achar na novela minúsculos erros de época não
deveriam sequer levá-la em conta já que ela se passa num lugar que
não existe, e mostra pessoas que também não são verdadeiras,
ou seja, é toda ela um erro, uma mentira. Se
tem uma lição que eu aprendi nesses meus 26 anos de ficcionista
da tv é que, quando se escreve para televisão ou cinema, deve-se
privilegiar sempre e apenas a emoção e, em nome dela, colocar na
tela apenas aquilo que fica melhor... e, se emoção for considerada
verdadeira pelo telespectador, então tudo se acerta. É mais ou menos
o que dizia aquele personagem jornalista do filme (de John Ford) O Homem que
Matou o Facínora: "quando a lenda é mais interessante que
a realidade imprima-se a lenda". Vou
dar um exemplo recente, mas de outro autor que, como eu, também tem a ousadia
de tudo fazer em nome da ficção: na novela O Clone, se nós
fôssemos considerar o tempo cronológico real, a personagem de Vera
Fischer teria engravidado com 62 anos, tendo os mesmos rosto e corpo que ela tinha
aos 38. Fez diferença para o público? Alguém levou isso a
sério? Não, porque, para o telespectador, qualquer filme, seriado
ou novela de época é sempre encarado como O PRESENTE no momento
mesmo em que ele assiste. Sabendo
disso, minha única preocupação é criar espaços
no roteiro que permitem uma narrativa clara das diversas histórias paralelas
nesse PRESENTE, eleito pelo telespectador, em que elas aconteçam. Claro,
alguém dirá: mas tem muita gente reclamando dessa liberdade que
você tomou com o tempo cronológico. E aí respondo: tem, sim.
Mas estes não são as pessoas que gostam de telenovelas, e que vêm
dando a Senhora do Destino um público recorde. Estes, os grandes
telespectadores, aqueles que realmente se envolvem com o nosso trabalho de autores
porque se apaixonam por ele, jamais deixariam de prestar atenção
em cenas como aquela entre Marcelo Antony e Tânia Kalil na
praça de Vila São Miguel só pra dizer: "ih! Isso tá
errado, porque Vila São Miguel não existe!"... Ou para perceber
que, enquanto os atores davam o máximo de si em homenagem a ele, telespectador,
aqui na frente, lá atrás, na calada da noite e sem deixar o menor
rastro na trama, passava um automóvel de fabricação recente. Aos
fanáticos da continuidade e do documental, que eu tanto prezo porque, com
seus comentários e e-mails, ajudam a aumentar a nossa audiência,
eu digo: tudo bem, continuem vendo Carolina Dieckman e Dado Dolabella
como se eles já tivessem mais de 40 anos. Mas, por favor, não levem
esse fanatismo ao ponto de ficar cegos ao fato real de que, na verdade, eles estão
na flor da idade e não têm mais que 26. Essa é a minha explicação,
e eu tenho certeza que os meus telespectadores há muito consideram esse
assunto encerrado. Aguinaldo
Silva | |