Como trabalha um autor de novela (1987)


Aguinaldo tem todo um ritual diário, que segue à risca: "É preciso dar uma ordem a tudo, e esta ordem não pode nunca ser quebrada, sob risco do imponderável", diz. Sem despertador e sem que ninguém o chame, ele acorda sempre às seis da manhã, quando toda a casa - inclusive a empregada - ainda dorme. Desce à cozinha, no primeiro andar, e prepara seu lauto desjejum: banana batida com leite, Nescau, aveia e o que mais encontrar, pão, biscoito, queijo, uma xícara grande de café, e uma batelada de vitaminas: A, B, C, D, E. Sobe com tudo isso numa bandeja, que deposita sobre sua mesa de trabalho, no escritório, e ali come lentamente enquanto lê a Folha de S. Paulo, "que por um mistério indecifrável chega aqui em casa bem cedinho, muito antes dos jornais cariocas".

Às sete, ele entra num banho apurado, em que se esfrega com esponja e tudo "para despertar o corpo inteiro". Depois escolhe o perfume, uma de suas manias: tem mais de 20 diferentes, mas atualmente usa Valentino, ou Van Cleef quando está frio ("no calor não cai legal"), ou ainda uma colônia que descobriu recentemente, a Armani, "muito levinha, suave, uma delícia". E aí Aguinaldo se arruma para trabalhar: escolhe uma bela camisa, confortável mas de bom gosto ao mesmo tempo, uma calça bonita, um tênis charmoso, um par de meias finas, e só então se senta diante do Compart, um processador de texto acoplado a uma máquina Remington, para escrever as tramas do horário nobre da TV Globo.

"A vantagem de trabalhar com computador é que se pode alterar, inserir e retirar frases ou parágrafos inteiros, sem precisar reescrever", explica. "Basta introduzir no Compart o disquete onde está gravado o capítulo (e em cada disquete cabem 30 laudas), localizar o trecho que se quer mexer, fazer a alteração e apertar o botão para imprimir quantas cópias forem necessárias". Às 11h30m ele pára para almoçar e ler os jornais do Rio, depois dá um cochilo de hora e meia e volta a trabalhar, após um novo banho, das 15h30m às 17h30m.

"Ultimamente tenho me estendido até as sete da noite", confessa, "porque depois do capítulo 100 a novela exige muito mais atenção do autor: enquanto a quantidade de tramas e detalhes vai aumentando, a gente vai ficando mais cansado, e o trabalho se torna mais lento". À noite, depois do jantar, vê a novela e, quase sempre, conversa em seguida com o diretor, fazendo suas críticas e elogios à execução das cenas que escreveu. Antes de dormir, não abre mão de um bom filme em videocassete, mas raramente se recolhe depois de meia-noite, pois precisa acordar cedo outra vez no dia seguinte.

"Só abro exceção aos sábados", revela. "Nesse dia, eu acabo de ver o capítulo de O Outro e vou com amigos para o bar do Hotel Intercontinental, aqui perto de casa, onde tomo um uisquinho e relaxo. Depois dou uma esticada num forró do Largo de São Conrado, porque ali posso observar como falam e do que falam os operários de construção civil e as empregadas domésticas, meu principal material de trabalho. Ali ninguém me conhece, ninguém fica perturbando com perguntas sobre o final da novela, nem me fazendo cobranças".

Recentemente, Aguinaldo passou por um grande susto: fazendo compras num shopping, foi abordado por um senhor que, de dedo em riste, gritava: "Você precisa arranjar um emprego para aquele vagabundo". Tímido, Aguinaldo não entendeu e perguntou, sem graça: "De quem o senhor está falando?" Pensava que o homem se referia a alguém de verdade, mas ele esbravejou: "Aquele cafajeste, irmão da Laura" (João Silvério, personagem do ator Miguel Fallabela). "Fiquei acuado, tentava explicar que eu não tinha culpa disso, que muita gente não trabalha, vive de rendas, ou à custa de outros, mas o cara continuava berrando. Foi um horror".

Nem só palpites desagradáveis, porém, povoam a vida de um atribulado novelista. Outro dia, Aguinaldo Silva visitou seu médico para um check-up e, enquanto era examinado, começou a conversar com a secretária do doutor, "uma moça do tipo que acompanha mesmo novela, participa, fica atenta". Ela puxou um papo sobre o futuro da Laura (Natália do Vale). "Eu acho que o Denizard (Francisco Cuoco) deve acabar com a Índia (Yoná Magalhães), porque o amor dela por ele é mais forte, mais antigo", opinava a moça. "Mas acho também que você não devia punir a Laura porque ela já está sofrendo, já ficou apaixonada pelo Denizard, já está arrependida das suas artimanhas. Por sinal, eu sei muito bem o que você preparou para a Laura", afirmou. Aguinaldo se deu conta, então, de que não tinha a menor idéia, ainda, do que fazer com Laura, e perguntou, esperto: 'E o que foi que eu preparei?"

A secretária do médico se animou: "Você vai fazer aparecer aquele namorado suíço a que a Laura se referia no início da novela, um tal que era casado e por isso não pôde ficar com ela. Ele vai enviuvar na Suíça, e voltar para o Brasil, atrás da Laura". O paciente respirou aliviado: sem saber, a tiete havia lhe dado uma ótima solução para um impasse com o qual ele já começava a se preocupar. Agora só falta escolher um ator alourado, que faça um tipo europeu. A repórter sugere o paulista Odilon Wagner. Aguinaldo dá uma gargalhada e concorda: "Perfeito, você acaba de resolver o resto do meu problema".

Apresentação de Nelly Novaes Coelho
Crítica de Luciano Trigo - Prosa & Verso
Apresentação de Evaldo Cabral de Mello



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