Aguinaldo Silva - Perfil para uma revista mensal de São Paulo (1987)

Aos 43 anos, completados em 7 de junho, o pernambucano Aguinaldo Silva vive a glória de falar para 40 milhões de brasileiros, todas as noites, de segunda a sábado, pela boca de gente sofisticada, como Laura della Santa, e de gente muito simples também, como Índia do Brasil ou Glorinha da Abolição. Ele é o autor da polêmica novela O Outro, que a crítica ataca ferozmente desde o início, a 23 de março, mas o público aplaude, garantindo uma média de Ibope entre 75 e 80 pontos no Rio e entre 70 e 74 pontos em São Paulo. Mas saber que 75 por centro dos televisores ligados, no horário das 20h30m às 21h20m, estão sintonizados no enredo que ele inventou é, sem dúvida, motivo de orgulho.

Num condomínio cercado de árvores, silêncio e segurança, em São Conrado, Rio de Janeiro, Aguinaldo mora há três anos numa casa muito confortável, que compartilha com mais dois amigos. Pelo espaçoso quintal cheio de plantas corre solto o enorme Stanislau, um cão de pêlo alourado, mistura de pastor alemão com galgo, que só tem tamanho e adora brincar com estranhos. Pelos sofás passeia o gordo Lúcio Flávio, um gato siamês de sete anos que Aguinaldo batizou com o nome do mais inteligente e belo bandido do Rio: Lúcio Flávio Vilar Lírio, cuja história virou até filme, anos atrás (Lúcio Flávio, Passageiro da Agonia).

Escritor desde os 12 anos, com 13 romances publicados - o primeiro deles, Redenção de Jó, fez de Aguinaldo um caso precoce de autor editado com apenas 15 anos de idade - o amado e odiado criador da novela das oito recebeu a repórter, em seu organizadíssimo gabinete de trabalho, para falar sobre a infância cheia de livros, o início no jornalismo, os 10 anos como repórter de polícia e o prazer de escrever para a televisão.

"Eu nasci em Carpina, uma cidade pequena de Pernambuco, fui muito mimado", confessa. O pai era gerente de uma loja de auto-peças; a mãe se casara com apenas 13 anos, tivera um filho - o único irmão de Aguinaldo, ainda morando em Recife e já avô - e só 11 anos mais tarde nascia nosso entrevistado. "Meu irmão já estava criado, e por isso eu virei o filhinho da mamãe, superprotegido, até porque tinha asma". Como não podia jogar futebol com os outros meninos, nem correr descalço pelas ruas, se refugiou desde muito cedo na leitura. E, para sua sorte, quando completou 10 anos a família se mudou para Recife e Aguinaldo ficou amigo de um vizinho que tinha uma enorme biblioteca, abarrotada de clássicos da literatura universal. "Com 10 anos eu lia Dostoievski, Cervantes, aos 11 mergulhei nos Lusíadas, de Camões", conta, divertido. "E virei especialista em guerra: meu vizinho tinha milhões de livros sobre as duas grandes guerras, centenas sobre o gueto de Varsóvia, tudo literatura pesada, que a maioria das pessoas só vai conhecer bem depois da adolescência".

Mais tarde, a família mudou de casa, e aí nosso rato de biblioteca fez amizade com uma vizinha que, ao invés de livros, tinha é um baita baú cheio de histórias em quadrinhos. E Aguinaldo fez o caminho inverso da maioria: passou da refinada literatura ao barato das revistinhas. "Ao mesmo tempo", recorda "descobri o cinema, fiquei apaixonado pela imagem. E de tudo isso o que ficou mais forte, o que realmente prevaleceu em mim foi a imagem: tanto que desde os 15 anos, quando escrevi meu primeiro romance de cunho social, passado nos cortiços de Recife, já tinha uma linguagem cinematográfica, marcada pelo cinema e pelas histórias em quadrinhos". O livro - Redenção de Jó - influenciado por autores brasileiros de preocupação social, como Jorge Amado e José Lins do Rego, e com alguns toques do existencialismo absorvido pela leitura do francês Jean-Paul Sartre, foi lido por um amigo jornalista, que adorou.

"Este amigo passou a insistir comigo para editar o livro, mas eu não conhecia ninguém na área, isso era uma coisa totalmente inatingível para um garoto pobre de Pernambuco", relembra Aguinaldo. Só que, mais uma vez, a sorte esteve a seu lado, e ao Recife chegaram quatro nomes famosos do sul-maravilha - Fernando Sabino, Vinicius de Moraes, Rubem Braga e Paulo Mendes Campos - fazendo um lançamento conjunto de livros, a fim de promover a empresa dos quatro, a Editora do Autor. Aguinaldo foi à noite de autógrafos, anotou o endereço da editora no Rio, e dias depois enviava seus originais, "com uma carta pretensiosíssima, em que me intitulava um caso raro de precocidade no Brasil, num tom assim pedante, sem nenhuma humildade", relembra ele, às gargalhadas. Para seu espanto, 15 dias depois recebeu um telegrama de Fernando Sabino comunicando que ia editar o romance.

Daí em diante, tudo correu mais fácil. Com apenas 16 anos, Aguinaldo viajou ao Rio para a noite de autógrafos, onde foi saudado pela imprensa como "o mais jovem escritor do país". Dois anos depois, ele foi convidado para fazer parte da reportagem geral do jornal Última Hora, que acabava de montar uma sucursal no Recife, e era então o mais jovem repórter da redação. "Durante muito tempo eu carreguei este título de mais jovem em tudo, e adorava" diz ele. "É uma pena que nunca mais vá conseguir recuperá-lo". Ele conta que outro dia [no início de 1987], numa mesa de bar, um dos rapazes do grupo em que conversava puxou a carteira de identidade para o garçom, e Aguinaldo leu a data de nascimento. "Ele era de 1968", comenta, com os olhos arregalados. "Como pode alguém ter nascido em 1968? Eu fiquei pasmo, e só então me dei conta de como era bom aquele tempo em que eu era o mais novo em todo lugar onde fosse".

Em 1964, o golpe militar fechou a Última Hora de Recife; Aguinaldo mudou-se para o Rio e passou a trabalhar na sede do jornal. Em 68, foi convidado para reformular a reportagem de polícia de O Globo, até então uma coisa estigmatizada. "Quando entrei no Globo, os repórteres policiais eram gente segregada, que se sentava num cantinho à parte na redação, e era olhada com maus olhos pelos outros jornalistas. Tenho orgulho de dizer que ajudei a mudar esta imagem, a dar status e prestígio à reportagem policial, hoje um setor disputado pelos profissionais de imprensa".

Repórter com muitas matérias policiais premiadas, uma de suas maiores satisfações profissionais ocorreu na posição de editor. "Era um sábado, eu estava editando a página de cidade do Globo, quando encontraram dois menores assassinados com 30 tiros em Vila de Cava, na Baixada Fluminense", lembra. "O repórter conseguiu reconstituir o crime através dos depoimentos de moradores da área, que ouviram os meninos gritando, pedindo socorro, jurando inocência. Estava claro que a culpa era da polícia, e me arrisquei a dar destaque ao caso na edição dominical. No domingo mesmo, à noite, soubemos na redação que o então presidente Geisel ordenara ao ministro da Justiça, Armando Falcão, que se empenhasse pessoalmente na apuração do crime". O caso foi cuidadosamente investigado e descobriram-se os culpados: dois policiais militares. "Mas a história teve um final terrível", revela Aguinaldo. "Os PMs foram a júri popular, que os absolveu por unanimidade".

Como um repórter policial experimentado explica um caso assim? Diz Aguinaldo que existe na Baixada Fluminense - em todas as áreas miseráveis do Estado do Rio - um consenso entre a "classe média" local de que garoto pobre, desempregado ou carente em termos sociais é marginal, ou pelo menos candidato a marginal, e a polícia faz um bem a todos ao eliminá-lo.

"Foram casos assim, em que você como repórter se desgasta, se empenha, sofre e se descobre totalmente impotente para fazer vencer a Justiça, que me levaram, em 78, a abandonar de vez o jornalismo". Ele ficou desempregado, sem nenhuma perspectiva definida de trabalho, mas um mês depois a TV Globo o chamava para escrever o bem-sucedido seriado Plantão de Polícia. Outras boas coisas pintaram, como as minisséries Bandidos da Falange e Tenda dos Milagres, o especial Órfãos da Terra, a novela Partido Alto (com a novelista Glória Perez). Hoje ele se confessa um apaixonado por esse trabalho. "Eu adoro escrever os capítulos de O Outro, me divirto demais, dou muitas gargalhadas aqui no escritório, a ponto de meu caseiro, que faz a limpeza, pensar que sou meio maluco", brinca.

A farta experiência em reportagem policial o equipou para falar com naturalidade e intimismo sobre bandidos como o Vidigal (Ewerton de Castro), meninos de rua como Lico e Glorinha (Fernando de Almeida e Malu Mader), o vagabundo Gabriel (Herson Capri), que já foi preso e torturado na época negra da repressão, ou a órfã que sai da Funabem preparada apenas para se tornar marginal, como a Cida (Cristina Galvão). Mas o que lhe confere autoridade para lidar com a mediunidade da Índia do Brasil (Yoná) e a vidência do síndico Demerval Parente (Lutero Luís) - um paranormal, discípulo de Nostradamus - é o temperamento místico que herdou de sua mãe. Sensitivo, quando menino Aguinaldo tinha muitas visões, e desde então sente medo desse dom especial.

Esse medo o ensinou a controlar tais manifestações, e hoje ele se considera um homem que não acredita em nada, especificamente, e ao mesmo tempo crê em tudo: "Só não acredito e não confio, absolutamente, na estrutura, no lado institucional da Igreja Católica. Isso eu abomino", afirma. Umbanda também não curte muito, "virou coisa de consumo", mas pelo candomblé tem profundo respeito. Sempre que vai à Bahia procura sua mãe-de-santo, Dona Ivone, uma senhora que vive dentro do mato. "Ela diz que foi feita no mato e por isso ali deve morar para sempre", conta ele. "Não é uma mãe-de-santo folclórica, como se vê muito em Salvador, mas uma força primitiva, algo que está acabando, quase não se encontra mais. A primeira vez em que lá estive, ela me disse que sou filho de Oxalá (pai de todos os orixás), e de um Oxalá velho, que é coisa raríssima. E diagnosticou, sem erro: "Por isso você nunca precisou fazer nenhum esforço para conseguir nada, é só esticar a mão para ter tudo o que quer". Se a gente for observar bem, quem poderia prever para um menino pobre de Recife a carreira ascendente que ele teve desde os 15 anos?

Apaixonado pelos textos de Nostradamus - "que consegue em suas profecias falar do modo mais vago possível, e ao mesmo tempo ser absolutamente preciso" - Aguinaldo Silva quis tornar mais conhecido do público brasileiro o médico e astrólogo francês cujas profecias, escritas em 1555, até hoje surpreendem o mundo. E o colocou como guru do Demerval, síndico do edifício Sobre as Ondas, um paranormal que não aceita sua condição e quer fugir disso, mas não consegue. Sem dúvida um personagem com certo toque autobiográfico. Através de outros, o novelista manda alguns recados: Pedro Ernesto (Marcos Frota) é um médico sanitarista, preocupado com saúde pública, saneamento básico, erradicação do mosquito da dengue; e quando o velho Augustinho (José Lewgoy) é despejado da casa que ele mesmo construiu pelo próprio filho, a história se torna uma denúncia do autor contra a especulação imobiliária que assola o Rio.

Outra coisa que preocupa muito Aguinaldo Silva é a carestia, a crise econômica e política que o país atravessa. Ano passado, em plena vigência do Plano Cruzado, ele assinou com a TV Globo um contrato de três anos de trabalho que lhe assegura estabilidade e alto salário. Em março de 87, foi informado de que se beneficiaria do gatilho salarial; em abril, a Globo lhe avisou que o gatilho seria usado de novo; em maio, recebeu um telefonema da empresa comunicando que teria o terceiro gatilho. "Eu entrei em pânico", confessa, "porque não é possível que alguém seja aumentado todo o mês, durante três meses seguidos. Alguma coisa está errada. É claro que eu ganho muito bem, minhas perspectivas de futuro são excelentes, mas se, como pessoa, está tudo certo comigo, me sinto absurdamente inseguro como cidadão, como povo. Eu vejo que há quase 30 anos vivemos em meio a uma crise. Então me pergunto: se eu me apavoro diante dos preços, se eu não vou mais viajar para o exterior, como fazia todo ano, porque ficou impraticável, como estão os meus amigos, como está o meu caseiro, como está o pai de família que ganha um ou dois salários mínimos?"
A seu ver, não há saída. "Na época do Cruzado, eu achei que poderia haver uma volta à seriedade, mas o plano não deu certo. Então o que se vive agora no Brasil é uma profunda crise moral. A filosofia do "levar vantagem em tudo" chegou a tal extremo que não tem mais retorno: cada um pensa só em si, e salve-se quem puder". Como não sabe mexer com dinheiro - "tenho incapacidade total para especular, a vida toda vivi só do que escrevo" - Aguinaldo Silva vai cuidando do futuro através da prosaica caderneta de poupança ("a única coisa que o Governo não vai ter coragem de tocar").

Embora tenha publicado 13 livros, sabe que neste país ninguém vive de direito autoral; por isso mesmo, enquanto pensa no próximo romance (que começa na Colômbia, passa pelo Pantanal Matogrossense e desemboca no Rio), ele vai criando fantasias sobre sua impecável mesa de trabalho, entre fitinhas de Nosso Senhor do Bonfim, que trouxe de Salvador, uma pequena pirâmide ver-de, muitas canetas, uma piranha incrustada numa pedra, um belo vaso com folhagem vermelha (uma euphorbia pulcherrima, popularmente conhecida como bico-de-papagaio), tudo bem ordenado (leia Como trabalha um autor de novela). É ali que ele agora se indaga se deve ou não ressuscitar o verdadeiro Paulo della Santa, alternativa em que nunca pensara até começar a ser instigado por fãs, atores e mesmo novelistas amigos.

"Imagine que eles me telefonam e afirmam ter certeza de que o Paulo vai reaparecer, contando que se aproveitou do acidente para sumir uns tempos e tentar uma vida mais feliz. E não adianta eu jurar que nunca pensei nisso, porque ainda ironizam: "ora, pode falar, todo mundo sabe que essa é uma carta que você guarda na manga". Enquanto decide a questão, o bem-humoradíssimo Aguinaldo Silva vai driblando a crise e as críticas, cativando esse ou aquele ator insatisfeito com seu personagem, discutindo detalhes com o diretor, preocupando-se com os índices de audiência. Enfim, essa é a dura e fascinante vida de um criador de ilusões.

Apresentação de Nelly Novaes Coelho
Crítica de Luciano Trigo - Prosa & Verso
Apresentação de Evaldo Cabral de Mello



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