| Um
autor sempre polêmico Aos
60 anos, completados em 7 de junho, Aguinaldo Silva vive a glória de falar
para 60 milhões de brasileiros, todas as noites, de segunda a sábado,
pela boca de gente sofisticada, como os barões de Bonsucesso, e de gente
muito simples também, como a nordestina Maria do Carmo e o ex-bicheiro
Giová. Ele é o autor da polêmica novela Senhora do Destino,
que a crítica ataca ferozmente desde o início, mas o público
aplaude, garantindo uma média de Ibope entre 45 e 50 pontos no Rio.
Em 1987, eu comecei exatamente assim o texto de minha entrevista com Aguinaldo
Silva para uma revista semanal de São Paulo. As diferenças são
poucas: na época, ele acabara de completar 43 anos, e embora falasse então
para "apenas" 40 milhões de brasileiros, como autor da igualmente
polêmica O Outro, tinha uma média de audiência ainda
maior, entre 75 e 80 pontos no Rio de Janeiro - até porque não havia
TV a cabo e a concorrência era menor para a TV Globo. Hoje, 17 anos depois,
o escritor pernambucano, com mais de 20 livros publicados, continua um trabalhador
incansável, um artista simples e atencioso com seu público, e um
interlocutor sempre afável com a imprensa, apesar das críticas que
recebe - desta vez, por ter iniciado sua história em 1968, no auge da ditadura
militar, e lhe ter dado continuidade num tempo ficcional, criado por ele (leia
sua resposta aos críticos, publicada
no portal Terra).
Autor de sucessos como Tenda dos Milagres, Tieta,
Pedra sobre Pedra, Fera Ferida e A Indomada, entre muitos
outros, Aguinaldo Ferreira da Silva nasceu em Carpina, Pernambuco, e aos 10 anos
se mudou para Recife. De família pobre, começou a trabalhar aos
14 anos num cartório, e aos 15 escreveu seu primeiro livro, Redenção
de Jó, publicado um ano depois pela carioca Editora do Autor, que pertencia
a uma turma de peso: Vinicius de Moraes, Rubem Braga, Paulo Mendes Campos e Fernando
Sabino. Em 1962, aos 18 anos de idade, entrou, como repórter, para a sucursal
pernambucana de Última Hora, e dois anos mais tarde, aos 20, se
transferiu para a sede do jornal.
No Rio, passou pelas redações
do Jornal do Brasil e de O Globo, e em 1978 sua experiência
de editor de Polícia levou-o a iniciar carreira na televisão, primeiramente
como um dos roteiristas do seriado Plantão de Polícia, depois
como autor da minissérie Lampião e Maria Bonita. Em 83, dividiu
com Doc Comparato a autoria de Bandidos da Falange, estreando no ano seguinte
como novelista com Partido Alto. Mas foi trabalhando com o saudoso Dias
Gomes que ele veio a conquistar projeção nacional, em 1985: a novela
Roque Santeiro é até hoje apontada como uma das 10 melhores
produções televisivas brasileiras de todos os tempos.
Agora,
com Senhora do Destino, ele volta a provocar polêmica por conta de
personagens que mexem profundamente com o público - não só
pelo que têm de grandeza, perfídia ou vulgaridade mas também
pelas semelhanças com casos rumorosos de nossa história mais recente.
O bebê roubado da pobre migrante nordestina, por exemplo, remete inevitavelmente
para o caso Pedrinho, o garoto seqüestrado de uma maternidade em Brasília
pela empresária Vilma Martins Costa, horas após o nascimento. Renata
Sorrah, a vilã da história, contou, em entrevista recente, que acompanhou
o caso Pedrinho, vibrou, como todos nós, quando ele voltou para a mãe,
mas não se pauta em Vilma para compor seu personagem. "A Nazaré
precisa ter espaço para a criação, não posso ficar
fechada em uma história real. Novela é pura ficção,
mesmo que se pareça com a realidade. Além do mais, não quero
nem lembrar desta Vilma, não quero incorporar a energia dela", afirmou
a atriz.
Até a mãe de Pedrinho, Maria Auxiliadora Braule
Pinto, a Lia, confessa que não perde um capítulo da história
de Maria do Carmo (Suzana Vieira); mesmo que quisesse, não conseguiria
desligar a TV na hora da novela: amigos, parentes, vizinhos, todos telefonam diariamente
para comentar, como contou ela a um jornal paulista. "Me perguntam se eu
vi a tal cena da Vilma. Porque nós a chamamos de Vilma", conta Lia.
"É a minha história, mesmo que o autor negue ter se baseado
nela. Não sei explicar o que sinto, é muito estranho. Sou consciente
de que o que está na tela é ficção, mas acho que insisto
em assistir porque mata a minha curiosidade sobre uma parte desta história
que eu nunca soube - o outro lado, como foi com ela", diz Lia, que só
não viu o capítulo em que o bebê é roubado. "Seria
demais. Acho que não agüentaria".
Já a dupla Reginaldo
e Viviane (Du Moscovis e Leticia Spiller), o político corrupto e arrivista
que se junta a uma amante vulgar e igualmente ambiciosa, também nos conecta
com a vida real. O novelista disse recentemente, em entrevista, que "casais
como Viviane e Reginaldo proliferam no Brasil como chuchu na serra. E, quando
eles brigam, sai de baixo: o que vem de podridão à tona nenhum autor
conseguiria imaginar". O repórter então questionou: "Você
acha que Viviane e Reginaldo são mesmo tipos verossímeis? Não
há algo de caricato neles? No jeito de falar, na falta de ética
dele, na vulgaridade dela?" E Aguinaldo respondeu: "Meu Deus, você
não precisa nem sair das páginas do jornal, da cidade ou do estado
para encontrar pessoas exatamente como eles. Basta fazer uma lista de alguns prefeitos
de São Paulo anteriores a Marta Suplicy e você terá material
para pelo menos meia dúzia de Vivianes e Reginaldos".
Tem toda
razão. Não é difícil lembrar de outras duplas do mesmo
tipo que, nem faz muito tempo, protagonizaram inesquecíveis lavagens de
roupa suja em público. Numa delas, um político famoso do Nordeste
ganhou, da mulher, uma surra de toalha molhada; em outro caso, que tomou conta
dos jornais por longo tempo, um prefeito do Sudeste brigou com a mulher e teve
revelados, por ela, todos os podres mais íntimos, inclusive os econômico-financeiros,
vindo a perder o mandato. Outra sub-trama que o novelista já confessou
ter sido inspirada na vida real envolve a personagem Aretuza (Silvia Salgado).
Sua história foi contada a Aguinaldo por uma mulher de classe mé-dia,
dona-de-casa, que na meia idade, abandonada pelo marido, constatou que, para sobreviver,
precisaria se empregar como doméstica, pois não tinha profissão.
Segundo li, ela não terá envolvimento amoroso com o patrão
Dirceu (José Mayer) mas com um colega de trabalho dele, Rodolfo (Reinaldo
Gonzaga).
Some-se a tudo isso uma protagonista forte, generosa e sofrida,
disputada por um jornalista charmosíssimo e um ex-bicheiro cheio de malandragem;
uma gostosona que tem tara no irmão de seu marido, o qual em seguida se
apaixona pela própria irmã, roubada de seus braços aos dois
meses de idade; a mulata pobre, de 15 anos, que engravida de um playboyzinho branco,
mais o taxista português apaixonado pela negra, mãe dela, por sua
vez casada com um presidiário violento; a jovem da Zona Sul, filha de político,
envolvida com um maître de origem humilde, filho de migrante nordestina
e morador da Baixada Fluminense; adicione-se à receita outros ingredientes
picantes - como o passado de prostituta de Nazaré, que torcemos para que
venha à tona, a volta do marido oportunista de Maria do Carmo e o namoro
entre duas lindas moças (interpretadas por Mylla Christie e Barbara Borges),
a ser coroado com a adoção de um bebê -; confeite-se, ao final,
com a sabedoria e joie-de-vivre dos barões de Bonsucesso, magnificamente
interpretados por Glória Menezes e Raul Cortez, e temos o suculento e agridoce
petisco com que Aguinaldo Silva vem alimentando milhões de telespectadores
todas as noites.
Em 1987, entrevistei o jornalista pernambucano em casa,
no Rio, quando ele me contou sua vida (leia Perfil
de Aguinaldo Silva) e sua rotina de trabalho (leia Como
trabalha um autor de novela). Na época, ele tinha um cachorro chamado
Stanislau e um gato que batizara de Lúcio Flávio, nome de um famoso
bandido cuja história virou filme em 1977, dirigido por Hector Babenco,
e trabalhava num processador de texto acoplado a uma máquina Remington,
o que era considerado moderníssimo. Com O Outro, novela do horário
nobre da TV Globo, fazia sucesso - e provocava muita polêmica, como sempre
- misturando paranormalidade e crítica social, dando paulada na especulação
imobiliária, gritando contra a infância abandonada. Na história,
meu saudoso amigo José Lewgoy interpretava
um velho despejado pelo próprio filho; Yoná Magalhães era
médium, Ewerton de Castro um bandido e a hoje ultra-sofisticada Malu Mader
era uma menina de rua, companheira de infortúnios do personagem de Fernando
de Almeida, recentemente assassinado ao final de um baile, por conta de uma briga
insignificante - na vida real.
Nesses 17 anos que nos separam daquela entrevista,
não se pode dizer que muita coisa mudou na vida do criador de Senhora
do Destino - além dos números do Ibope e dos progressos da informática
- mas confesso que um trecho da reportagem me fez dar boas gargalhadas. Quando
lhe perguntei de que forma investia o alto salário, o novelista respondeu
que, devido a sua "total incapacidade para especular", aplicava tudo
na caderneta de poupança. E completou, com segurança: "a única
coisa que o Governo não vai ter coragem de tocar". Ou seja, apesar
de ficcionista, e dos bons, nem mesmo Aguinaldo Silva poderia imaginar que um
dia, poucos anos depois daquele nosso encontro em São Conrado, o Brasil
haveria de ter um presidente com a cara-de-pau de mexer na poupança do
povo. Às vezes a vida supera a arte em delírio e invenção.
|
|