A baía sai da UTI

No primeiro dia do mês de abril, por volta das 9h, saí para minha caminhada diária pela praia, pés na areia dura, onde bate a água, contente com a luminosidade do outono, muito mais bonita que a do verão - mais difusa, menos chapada, ideal para fotografias de paisagens. Lá fui, disposta, como sempre, a fotografar com as retinas esse cartão postal mais-que-perfeito do Rio, e o que se seguiu foi uma série de surpresas. De cara vi que o mar estava muito mais claro do que de costume, a água transparente, deixando ver pequenos cardumes de peixinhos que grupos de crianças tentavam pegar com seus baldes de plástico. Na areia brilhavam centenas de águas-vivas, lançadas à morte pelas ondas, e num passeio de aproximadamente 50 minutos encontrei ainda dois ouriços e um enorme caramujo em tons de marrom, os três vivinhos da silva, que me apressei a devolver ao mar. Mas minha maior alegria se deu ao ver um menino catando tatuís com uma pazinha, tatuís mesmo, aqueles bichinhos que durante décadas sinalizaram, para os banhistas, a saúde das praias cariocas, e há muitos anos estavam desaparecidos por conta da poluição.


Igreja da Glória em 1840
Eduardo Camões
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Lembrei, então, que nos anos 90, quando colunista do jornal O Dia, cheguei a noticiar que o governo do Japão havia feito um empréstimo a fundo perdido, no valor de 80 milhões de dólares, para o estado do Rio de Janeiro começar a despoluir a baía de Guanabara. Alguém sabe me dizer o que foi feito dessa grana? Nunca mais se ouviu falar no assunto, e está claro que não houve tal investimento na despoluição da baía, mas se pode ver que, por outros caminhos, o quadro está melhorando, e dá para perceber que ela começa a se recuperar de tantas agressões - do despejo de esgoto doméstico ao vazamento de óleo da Petrobrás, passando pelo lixo industrial e hospitalar.

Nesses meus nove anos como moradora do Flamengo já encontrei, à beira d'água, desde cadáveres de baratas e ratos até um gordo porco cinzento, com mais de metro e meio de comprimento, boiando de barriga pra cima - sem falar em seringas hipodérmicas, embalagens de bebidas, comidas e remédios, roupas e sapatos, tábuas cheias de pregos enferrujados, e muitas outras porcarias que prefiro omitir para não afetar estômagos mais sensíveis. Por isso fiquei deslumbrada com o que via a cada passo: a água absolutamente translúcida, os milhares de peixinhos, mais meia dúzia de conchas que há muito haviam se mudado para as ilhas do Caribe, tudo de volta, cintilando ao sol, me causando uma emoção especial que agradeci a Deus como se fora um presente antecipado de Páscoa, mil vezes melhor do que todos os chocolates do mundo.

À noite, no "Jornal Nacional", William Bonner anunciou: "O fenômeno da transparência deixa as praias ainda mais bonitas no outono". E veio a reportagem esclarecedora, que me fez compreender um pouco daquela beleza surpreendente que eu vislumbrara pela manhã na praia sempre vitimada pela poluição da baía. O noticiário da TV Globo mostrou as águas transparentes, e explicou que isso acontece apenas nesta estação do ano, quando uma corrente marinha mais quente provoca alguma coisa lá que... bem, não me lembro mais dos detalhes, mas sim da alegria de assistir às explicações e constatar que eu não tivera um delírio ou alucinação naquele meu passeio matutino.

Curioso é que, minutos mais tarde, em cena de "Celebridade", à beira de uma praia, a personagem de Lavínia Vlasak, de volta ao Rio depois de 20 anos em Londres, dizia ao cineasta interpretado por Marcos Palmeira: "Lembro bem de uns bichinhos que, na minha infância, eu adorava ficar catando na areia". Resposta do sujeito: "Ah, infelizmente isso não existe mais. A poluição destruiu os tatuís". Dei um salto da poltrona e gritei: "Alto lá, Fernando Amorim! Nada disso! Hoje mesmo pisei em duas carcaças de tatuí, e vi um garoto furungando a areia pra catar os bichinhos, e isso que você disse não é verdade, vou mandar um e-mail pro Gilberto Braga e ..."

Mas a novela acabou logo, e ao mudar de canal me deparei com Luciana Gimenez regendo um barraco brabo na Rede TV, onde um travesti belíssimo afirmava que tinha um relacionamento de dois anos com um famoso cantor sertanejo (casado!), os pagodeiros do Karametade anunciavam a separação do grupo com um série de acusações mútuas - que iam de desviar dinheiro de shows a tomar a mulher do companheiro de trabalho - e uma modelo-e-atriz que se enfiava numa banheira em programa dominical afirmava estar grávida de um badalado jogador de futebol. Ao final, a mãe do filho mais novo de Mick Jagger anunciou que nada daquilo era verdade: "Hoje é Primeiro de Abril!", zombou ela, às gargalhadas. E aí caiu a ficha: como os cariocas desaprenderam a brincar com isso - entre os anos 50 e 80, era praxe fazer pequenas sacanagens com as pessoas nesse dia - até então eu não havia notado que era 1º de abril, o Dia da Mentira!

Só aí me dei conta de que tudo que eu vira pela manhã, toda a belezura inusitada com que a Natureza me brindara naquele dia especial de outono, emoldurado por uma luz tão bela e acolitado pela transparência inesperada das águas normalmente barrentas e poluídas, tudo aquilo não passara de uma brincadeira de "April Fools", uma pegadinha dos Céus, uma pequena sacanagem "do bem" que os anjos fizeram só pra tirar a gente da rotina, inverter paisagens cristalizadas, reverter expectativas.

No dia seguinte, não havia mais águas-vivas, nem caramujos, ouriços e conchas, muito menos tatuís. Dessa vez me empenhei em procurar, o mais atentamente possível, rastros e vestígios do que vira no dia anterior. Não achei nada; até mesmo a água do mar escurecera um pouco, e voltara a jogar sobre a areia restos de misérias que um povo submetido à falta de saúde, educação, emprego e dignidade atira sem culpa às entranhas da pobre baía de Guanabara. Ficou porém a esperança de que vai melhorar: uma sensação de que a baía saiu da UTI, começou a respirar sem a ajuda de aparelhos, e um dia exibirá, para nossos netos, a fauna e a flora marinhas do passado - e todos poderão, novamente, se banhar em suas águas sem medo. Que Deus nos ouça.

Apresentação de Nelly Novaes Coelho
Crítica de Luciano Trigo - Prosa & Verso
Apresentação de Evaldo Cabral de Mello



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