Roupa lavada a gritos

A vida imita a arte ou a arte imita a vida? É o que venho me perguntando desde que, há cerca de dois meses, instalou-se a polêmica em torno do programa "Casa dos Artistas". Conheço gente que adorou e gente que detestou o novo money-maker de Silvio Santos, e minha natureza tolerante não me permite afirmações do tipo "quem via esse programa era débil mental", ou "quem não via era preconceituoso". Achei-o muito divertido algumas vezes, e uma grande bobagem ou um enorme tédio outras vezes, mas compreendi perfeitamente as razões que levaram aquelas pessoas a participar dessa estranha experiência coletiva: todas elas tinham alguma coisa a promover, fosse um disco novo, uma iniciante trajetória como cantora, ou uma decadente carreira de modelo-e-manequim.

Até mesmo o "rinoceronte de sunga" - como o colunista José Simão, da Folha de S. Paulo, chamava o ex-ator Alexandre Frota - tinha um produto a vender: o físico extra large, sua garantia de sobrevivência desde que o mundo artístico nacional descobriu não haver, dentro daquele contêiner, nenhum talento dramático. Pra completar, ninguém, nem mesmo o riquíssimo herdeiro dos Matarazzo e filho da prefeita paulista, pode desprezar 300 mil reais. Diante de um prêmio como este, nós, telespectadores, entendemos que os participantes do programa exibissem sua intimidade 24 horas por dia, gritassem e chorassem, brigassem e namorassem na frente das câmeras, se expondo ao ridículo, à piedade e à ira do público. E até torcemos por eles.

E então eu volto à frase inicial desta crônica: a gente aceita esta exibição íntima bem remunerada, feita por pessoas que se pretendem "artistas" e precisam da mídia para ter visibilidade; mas como assimilar, na vida real, a "evasão de privacidade" dos vizinhos, criaturas que não estão ganhando nem um tostão de Silvio Santos para gritar todos os dias com a filha pequena, soltar dezenas de palavrões nas conversas à mesa do jantar, tratar a empregada com frases que só um feitor de novela das seis usaria, bater as portas com raiva, assoar o nariz com estrondo, fazer do apartamento ao lado uma espécie de cabeça-de-porco de uma família só?

Moro há sete anos num prédio de frente para o mar e de fundos para um grande espaço onde confluem as janelas de mais três outros edifícios. Há cerca de quatro anos venho acompanhando uma "Casa dos Artistas" sem atores ou modelos, cantores ou compositores - um programa igual ao do SBT só que sem imagens, apenas som, como uma novela radiofônica. Trata-se de um casal, uma empregada e uma menina, a Ju, que tinha mais ou menos cinco anos quando se mudou para o edifício ao lado do meu e hoje aparenta, pela voz e pelo vocabulário, estar com uns oito ou nove.

Quando a Ju apareceu em minha vida, morava somente com a mãe - que gritava terrivelmente com a criança de manhã, antes de sair para o trabalho, e à noite, quando retornava - e uma empregada, que aos poucos passou a imitar a patroa, enchendo também as tardes de muitos gritos. Há menos de dois anos entrou em cena uma voz masculina, e, como jamais ouvi a garotinha chamar "papai", intuo que se trata do segundo marido da dona da casa.

Hoje a pequena Ju grita tanto quanto a mãe e a empregada. O homem é mais discreto, não "aparece" tanto quanto o rinoceronte de sunga da televisão, mas sempre se pode ouvi-lo "limpando os brônquios" debaixo do chuveiro, dando urros durante o futebol, soltando palavrões ou reclamando de algo que não gostou. As conversas dos três e os ruídos que produzem se estendem invariavelmente até altas horas, mesmo nos dias úteis, o que me leva a especular: será que essa criança não estuda? Se estuda, como pode ficar acordada até uma ou duas da madrugada, nessa excitação de gritos, palavrões e gargalhadas, participando de conversas impróprias para sua idade? Ou ainda: será que a mãe está juntando uma grana pra pagar o terapeuta da menina?

Imagino que muitos de vocês já tenham passado por uma situação assim, onde vizinhos desprovidos de senso crítico escancaram as portas de sua privacidade, perturbando a paz de outros lares - afinal, se a "Casa dos Artistas" do SBT começava a deixá-lo constrangido, bastava mudar de canal ou desligar a TV, o que não se pode fazer aqui, neste caso real. Às vezes é até divertido, como por exemplo quando, numa briga entre mãe e filha, a pequena venceu com facilidade: "Se a casa dele é tão maravilhosa assim, por que você voltou pra cá?", perguntou a mãe numa segunda-feira, após o fim-de-semana longe da garota. "Só voltei por causa da minha televisão e dos meus brinquedos", respondeu a Ju.

Na maioria das vezes, porém, é tudo tão embaraçoso que a gente tenta arrumar uma desculpa para aquele teatro que não se quer acompanhar, e fica imaginando que o apartamento deve ter algum problema de acústica que faz o som vazar daquele jeito. Mas logo constatamos que, sendo aquelas janelas absolutamente iguais às outras 60 voltadas para o mesmo espaço interno, não dá pra tapar o sol com a peneira: se só naquele local se produz um "Casa dos Artistas", é porque ali temos gente que não se envergonha de lavar sua roupa suja em público. Haja tanque!!!

Apresentação de Nelly Novaes Coelho
Crítica de Luciano Trigo - Prosa & Verso
Apresentação de Evaldo Cabral de Mello



Fale Conosco - Para anunciar no Portal - Para obter mais informações
Site melhor visualizado na resolução 800x600 pixels.

Copyright © 2005, QuadraVirtual - Soluções via Web Ltda.
É proibida a reprodução total ou parcial sem autorização.