O ofício das cores

João Câmara

Meti-me a fazer um painel comprido e complicado, uma coisa de treze metros por dois, ainda mais com peças em relevo aplicadas sobre a pintura que é, em suma, uma faixa azul de reflexos do Recife sobre seu rio - um quase emplumado Capibaribe. Para fazê-lo desenvolto, livre da minudência feminina que as tintazinhas de tubo processam, resolvi usar tinta industrial, escolhendo cores que resistem ao ataque da luz e que - espero -agüentem até o dia em que o rio volte a ser azul como esta coisa pretensiosa que vai sendo pintada com trinchas largas.

As tintas acabaram no meio do trabalho. Foram feitas naqueles processos de computador que calculam e misturam matizes, pigmentos, resinas e segredos de indústria e que recebem nomes menos evocativos que as tintas dos artistas. Chamam-se PX34A, TEZ-B27, em vez de Azul Cobalto, da Prússia, de Ultramar...

Latas vazias, rótulos manchados, ilegíveis. Perdi as referências para fazer mais algumas latas...

Levo amostras esfregadas num papel para o sujeito do armazém refazer as cores e os arrevesados tons. Não encontro o cara que me atendeu na primeira vez. Esse outro, irritado, ocupado, impaciente, mal pago e entediado, olha as manchas no papel:

- "Isso é automotivo ou imobiliário?"

Pergunta danada, porque o rio se movo, é automotivo. E a cidade, que se reflete no rio, é, certamente, imobiliária. Isto me paralisa. Como vou explicar que é para pintar águas e céus embutidos na questãozinha estética que me ocupa e atormenta e, também, se ele vier a perguntar, como dizer do simbolismo do rio, o curso e refluxo, a cidade no espelho desta correnteza, as analogias impiedosas com perene e o finito, a decadência do rio, nosso navegar temporal por este cenário?

- "Como é? Automotivo ou..." Acordo: "É um esmalte. Não é nitrocelulose, nem acrílico. Acho que é um tipo de alquídico..."

- "Ah, bom. Esmalte rápido".

Atira sobre o balcão um mostruário que se abre no leque de arrogantíssimo pavão. Percorro os azuis.

- "Uma cor pode ser esta, a 39B, com um pouquinho da 27F. A outra deve ser este azul aqui, o 55, puxando um quase nada para o verde...", tento dizer.

Ele puxa as amostras da minha mão. Vai às prateleiras. Traz latas cheias e vazias, resina, corantes. Despreza o computador e a balança de precisão. Tenho ganas de dizer: "o outro moço dosou no computador e pesou ..." Ele não estaria nem aí. Esfrega tintas no papel, coteja minhas amostras. Mistura aqui e dali. Tampa duas latas com perícia e rudeza. Rotula.

- "Vê se copia as referências para o caso de precisar mais".

Manda um olhar pragmático por cima do meu rosto e do meu "obrigado". Vem vindo um homem com um capô de Ford antigo na cabeça. Enorme amostra e dificílima cor, fora de linha: cinza azulado puxando para castanho, perolizado. Caso complicado. Espremido, com minhas duas latas, dou espaço para ele passar e o saúdo, caprichando no acento operário e viril:

- "Boa sorte, companheiro".

Dito o que, volto à correnteza do meu rio...

(Extraído do catálogo da exposição "Duas cidades")

Apresentação de Nelly Novaes Coelho
Crítica de Luciano Trigo - Prosa & Verso
Apresentação de Evaldo Cabral de Mello




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