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Ingênua
mas extraordinária
Sempre
que a conversa envereda pelo tema "amizades", costumo dizer que
minha amiga mais antiga eu conheci quando tinha 7 anos, dois meses
e duas semanas de vida. Grande parte de meus interlocutores faz
cara de incredulidade, como a pensar, no mínimo, que eu exagero,
mas juro que não estou mentindo: minha primeira amiga de verdade
me surgiu nas semanas iniciais da primeira série do curso primário,
no Instituto de Educação. Era ela uma vizinha do Grajaú, bairro
para onde eu mudara, com minha família, exatamente no dia do meu
sétimo aniversário, em 18 de dezembro, e onde estava morando, portanto,
há dois meses e meio quando o ano letivo começou, em março.
Lembro
que duas coisas me incomodaram logo de cara: ela era bem mais alta
que eu, sempre chamada de "baixinha" por todo mundo; e, mais grave
ainda, era loura como minha irmã, coisa que me perturbava há tempos,
desde que descobrira que as louras recebiam de todos - parentes,
professores, colegas ou desconhecidos - melhor tratamento do que
as morenas. Mas o mal-estar durou pouquíssimo: foi imediatamente
suplantado por uma sensação de carinho e confiança mútuos, uma certeza
de que poderíamos contar uma com a outra, e é esta a lembrança mais
forte das que trago pregadas na "parede da memória", como diz a
canção.
Esse
nariz-de-cera todo é para introduzir meus comentários sobre a artista
plástica Ana Camelo, que na lista de chamada das aulas de Dona Zulmira
era Ana Amélia Pinho de Souza e mais tarde, no Colégio de Aplicação
da UEG (hoje UERJ), para onde nos transferimos no curso ginasial,
ganhou o apelido de Meméia, que detestava por ser o nome de uma
bruxa, personagem de história em quadrinhos em Luluzinha e Bolinha.
Quando começou a namorar nosso querido colega Ernesto Camelo, uma
das figuras mais carismáticas do Aplicação, ela virou Ana, tout
court, e o Amélia desapareceu também - até porque era um nome "mal
visto" na época por culpa de Mário Lago, que em música famosa até
hoje atribuíra à sua Amélia qualidades que nós, mocinhas tão modernas,
simplesmente abominávamos.
Antes
que isso fique parecido com "Confissões de adolescente", ou "Minha
vida de menina", quero dizer que escrever este texto está me fazendo
chorar desde a primeira linha - ou seja, se eu ainda fosse uma assalariada
do JB, ou da IstoÉ, já teria sido demitida por falta de isenção
profissional.

Rua
da Praia |
Mas
não posso iludir os leitores me passando por fria e distante
crítica de arte e cultura diante do trabalho da Ana, essa amiga
de longo tempo com quem compartilho recordações maravilhosas
e eternas. E agora que estão todos avisados da minha falta completa
de isenção, informo que quase caí da cadeira, diante do computador,
ao receber por e-mail o convite para o vernissage da pintora
Ana Camelo, ilustrado por um belíssimo exemplo do que chamamos
de art naïf (ou arte ingênua). |
Deus
do Céu, mas o que é isso?!?! Como é que ela conseguiu esconder um
talento imenso por esse tempo todo?!?! Por que esperou tantos anos
para se revelar?!?! Assim foi minha primeira reação ao ver o quadro:
surpresa e espanto, alegria e perplexidade. Segundo nos explica
a própria artista, o gosto pela pintura aflorou ainda na adolescência,
nas aulas de Artes do Colégio de Aplicação, onde os professores
classificaram seus trabalhos como arte ingênua. Depois, já na Faculdade
de Matemática, a pintura se fez muito presente, mas ainda como hobby.
Ela se formou, casou-se, teve três filhos lindos - Leonardo, Marcelo
e Thiago - e as telas se perderam em algumas mudanças. Com os meninos
criados e mais tempo disponível - confessa Ana - foi possível o
retorno às artes plásticas e à produção regular de quadros, vários
deles reproduzindo cenas de sua vida.

Flores
do Campo |
Certo
dia, folheando um jornal, viu uma nota anunciando exposição
de artista internacional dedicado ao gênero naïf, e só então
descobriu como classificar as pinturas ingênuas da adolescência.
Por insistência da família, algumas obras foram levadas para
avaliação do MIAN - Museu Internacional de Arte Naïf do Rio
de Janeiro. Reconhecidos como naïf, três dos quadros de Ana
Camelo hoje fazem parte do acervo deste que é considerado um
dos melhores museus do mundo em sua especialidade. |
Segundo
ela, o que era somente lazer ganhou outra dimensão nessa nova etapa
de sua vida, e é com imenso orgulho que apresenta suas obras na
exposição "Histórias em Naïf", em cartaz até o dia 27 de outubro
na Galeria Mário Pedrosa / Espaço Arte Popular, no Museu Nacional
de Belas Artes (Avenida Rio Branco, 199, Centro), de terça a sexta-feira
das 10h às 18h, e aos sábados, domingos e feriados entre 14h e 18h.
Imenso
orgulho também sinto eu por ser amiga dessa pintora madura, que
sabe fazer dialogar tão bem as cores, e é perfeita na utilização
do material pictórico: os objetos desenhados estão em absoluta harmonia,
os espaços em branco fazem ao tela respirar, nada falta, nada sobra,
tudo revela emoção a serviço da técnica. Sua arte pode ser chamada
de naïf, ingênua ou primitiva, mas tais classificações não significam
que se trata de uma pintura simples, ou fácil. Ao contrário: é preciso
muito talento e cuidado, neste tipo de trabalho, para não resvalar
para o bobo, o infantil ou o óbvio.
Férias
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E os
quadros, como num filme autobiográfico, falam muito de sua vida,
segundo ela mesma confessa. Existe neles um pouco da Meméia tímida
que brincava num Grajaú ainda idílico dos anos 50, e passava férias
na praia de Ibicuí; lá está também a Ana Amélia que soube valorizar
seu papel de eixo de sustentação da família, e foi o apoio constante
e amoroso do marido e dos filhos; da mesma forma que podemos encontrar
agora, através das tintas, uma mulher cheia de auto-estima, que
aprendeu a se conhecer e desvendar - uma artista vencedora chamada
Ana Camelo.
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