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E
viva a diferença !!!
Nos
anos 70, quando eu era ainda uma estagiária no Jornal do Brasil,
um editor, bem mais velho e experiente, me perguntou por que eu
queria ser jornalista. Pensei por uns 10 segundos e disse: "Para
ajudar a combater a intolerância". Ele estranhou: "Ué, todos querem
ser jornalistas para investigar falcatruas, denunciar os maus, derrubar
os déspotas. Que história é essa de intolerância?" Titubeei, tive
dificuldades para explicar com palavras o meu desejo de defender
os diferentes, minha vontade de diminuir o sofrimento pelo qual
passam os seres humanos excluídos ou inadaptados, que não são compreendidos
ou aceitos pelos grupos que detêm o poder. Mas acho que depois consegui
fazer isso na prática, ao longo desses 30 anos em que venho me dedicando
à profissão.
E é
essa a mensagem que gostaria de deixar para os leitores da coluna
no momento em que o mundo inteiro sofre as conseqüências de uma
guerra insana e se comove com a dor de tantas famílias. Diante do
infindável conflito no Oriente Médio, das constantes ameaças de
destruição por armas químicas e bacteriológicas, da indefensável
política externa dos Estados Unidos que acaba de desembocar num
ataque devastador ao Iraque - sem aprovação da ONU - só posso desejar,
outra vez, que o mundo se torne mais tolerante, que os povos aceitem
a diversidade. Que não se queira impor à humanidade uma forma de
pensar, uma só religião, um único "way-of-life", porque das diferenças
é que se faz a variedade maravilhosa e coloridíssima da vida, e
sem elas isso aqui seria um tremendo tédio.
Convido
vocês a lerem o belíssimo discurso proferido pelo escritor (católico
e italiano) Umberto Eco na Universidade Hebraica, em Jerusalém,
onde recebeu, em dezembro último, o título de doutor honoris causa.
O autor de O nome da rosa, Baudolino e outros livros de sucesso
faz aqui um dos mais emocionantes libelos contra a intolerância,
que eu (católica e descendente de árabes e portugueses) ousei traduzir
para vocês. Espero que gostem, e que saibam aproveitar a mensagem
que ele nos transmite.
A
força da cultura poderá evitar o choque de civilizações
Por
Umberto Eco
No
Livro dos Reis, 1, 19, quando o profeta Elias, que se encontrava
na gruta do monte Horeb, foi chamado à presença do Senhor, um forte
vento soprou das montanhas e partiu a rocha. Sed non in vento Dominus,
diz a Vulgata Latina - mas o Senhor não estava no vento. Depois
do vento houve um tumulto de terra e ar, mas non in commotione,
non in commotione Dominus - o Senhor não estava nesse tumulto. E
depois do tumulto chegou o fogo, mas non in igne Dominus - porém
o Senhor não estava no fogo. Perdoem-me se não cito a versão hebraica
original, mas creio que o significado do episódio não muda, e mais
do que isso assim eu o aprendi quando menino, e a história deixou
em mim marcas profundas.
Não
se pode encontrar a Deus no ruído, Deus só se revela no silêncio.
Deus não está nunca nos meios de comunicação, Deus não está nunca
na primeira página dos jornais, Deus não está nunca na televisão,
Deus não está nunca na Broadway. Ele estava na alma de Elias, Deus
estava em Qumran. Estava nos monastérios beneditinos da Idade Média,
estava nos guetos espanhóis onde os primeiros cabalistas experimentavam
as infinitas combinações das letras da Torá. Deus está onde não
há barulho. Esta máxima também é válida para quem não crê em Deus
mas acredita que em alguma parte existe uma Verdade a descobrir.
A Verdade não se encontra no tumulto, e sim numa busca silenciosa.
Em
meio ao mundo de hoje os lugares de silêncio continuam sendo as
universidades. Sem dúvida, são poucos os lugares nos quais é possível
a comparação racional entre diversas visões do mundo. Nós, gente
de universidade, somos chamados a enfrentar sem armas letais uma
infinita batalha pelo progresso do saber e da compaixão humana.
Não sou tão ingênuo a ponto de esquecer que o saber não traz, automaticamente,
paz e piedade, pois ocorreu na história que homens que amavam Brahms
ou Goethe foram capazes de organizar campos de extermínio. Porém,
numa grande porcentagem, o progresso do saber ainda pode produzir,
deve produzir, resultados, e para alcançar estes objetivos devemos
continuar nossa missão, ainda que ao nosso redor o mundo voe pelos
ares. Não estamos encerrados numa torre de marfim. Trabalhamos para
todos os nossos irmãos além dos muros.
Os
séculos antigos, e mesmo os modernos, foram cenário do colonialismo,
do racismo, da intolerância. Para o mundo ocidental, a chamada responsabilidade
do homem branco era considerar a civilização ocidental e cristã
como a única possível, daí o direito e a missão de converter a todos
aqueles que seguiam um modelo cultural diferente; sem falar de atitudes
semelhantes no mundo não-ocidental, inspiradas pelo ódio aos europeus
e as diferentes formas de fundamentalismo religioso.
Mas
foi no ambiente das universidades e das sociedades cultas ocidentais
que o mundo moderno inventou essa nova abordagem das culturas e
civilizações denominada antropologia cultural. Graças a estudos
dos antropólogos culturais do século XIX (seguindo, porém, idéias
já sugeridas por Montaigne, Locke e a filosofia da Ilustração),
temos sabido que existem outros modelos culturais orgânicos em si
mesmo, que se deviam reconhecer, compreenderem-se em sua lógica
interna e respeitar-se.
A antropologia
cultural, ao substituir o conceito de raça pelo de cultura, trabalhou
em profundidade com o objetivo de nos tornar mais conscientes da
pluralidade das culturas e do direito de toda a cultura a sobreviver,
sempre que sua sobrevivência não prejudique os direitos dos demais.
A antropologia cultural não mudou o mundo. Assim como os antropólogos
nos ensinaram a reconhecer e respeitar diferentes comportamentos
culturais, diferentes religiões e costumes étnicos, o mundo ocidental
produziu os Protocolos dos Sábios de Sião, enquanto os primeiros
meios de comunicação, dos romances populares aos filmes de Hollywood,
alimentavam uma visão do Outro como um malvado - os índios ferozes,
o negro estúpido obrigado a um destino de eterna escravidão por
sua irremediável inferioridade, o diabólico doutor Fu Manchu, e
assim sucessivamente.
Este
é exatamente o motivo por que, hoje mais do que no passado, é dever
de uma sociedade culta utilizar todos os instrumentos que proporcionam
os novos meios de comunicação para difundir as idéias dos primeiros
antropólogos culturais. Há 10 anos, François Mitterand fundou em
Paris, sob a presidência de Elie Wiesel, a Academia Universal das
Culturas, uma instituição que reúne escritores, cientistas, artistas
e sobretudo universitários de todo o mundo. O estatuto da Academia
diz que ela "promoverá a pesquisa científica, encontros e colaborações
criativas, e incentivará qualquer contribuição à luta contra a intolerância,
a xenofobia, a discriminação das mulheres, o racismo e o anti-semitismo",
e que se "compromete a difundir suas próprias idéias através dos
colégios, dos meios de comunicação e dos instrumentos futuros do
saber".
Ao
se aproximar o terceiro milênio, o mundo foi devastado por acontecimentos
trágicos como a invasão do Kuwait, a guerra do Golfo, os terríveis
conflitos raciais nos Bálcãs, e ainda ignorávamos o que iria ocorrer
depois, até a guerra de hoje contra o terrorismo. Ao tentar entender
o que se poderia fazer para educar os povos do mundo numa visão
positiva da diversidade cultural e étnica e na tolerância, nos demos
conta de que não adiantava convencer uma pessoa, digamos de 40 anos,
um homem ou uma mulher que naquele momento matava, violava ou humilhava
a quem não pertencia ao seu modelo cultural. Para eles era tarde
demais. Tínhamos de começar por seus filhos.
Assim,
a Academia decidiu abriu um site na Internet, ainda em fase de organização
[academie-universelle.org], para proporcionar aos professores e
educadores do mundo inteiro instrumentos intelectuais (idéias, exemplos,
exercícios práticos) com o fim de ensinar aos jovens que vivem em
contato com pessoas de origem diferente que sua recíproca diversidade
não é um obstáculo para a vida em comum, mas, ao contrário, uma
fonte de enriquecimento mútuo. Nós afirmamos que não nos tornamos
iguais negando a existência das diversidades. As diversidades existem
e há que reconhecê-las. Comecemos pelos rostos, as roupas, inclusive
pela comida ou pelo cheiro (digamos aos jovens que não existe ninguém
que não tenha cheiro, e que geralmente não percebemos o nosso porque
vem do nosso corpo ou das pessoas que nos rodeiam, que tendem a
comer mais ou menos as mesmas coisas que nós), e depois falemos
a eles sobre a diferença de religião ou da forma de interpretar
a territorialidade. Peçamos às crianças que descubram se em seu
bairro habitam pessoas com bagagens culturais diferentes, que nos
descrevam em que se diferenciam deles, mas também, dentro do grupo
a que pertencem, em que se diferenciam uns dos outros. Expliquemos
que é normal que, num primeiro momento, a diversidade dos outros
não nos agrade, mas que ser diferente não significa ser mau. Nós
nos tornamos maus quando queremos impedir os outros de serem diferentes.
Digamos às crianças que as diferenças fazem do mundo um lugar interessante
onde viver. Se não houvesse diferenças, não poderíamos sequer entender
quem somos: não poderíamos dizer "eu" porque não teríamos o "tu"
com o qual comparar-nos.
Digamos
que igualdade significa que cada um tem direito a ser diferente
de todos os demais. Tentemos falar às crianças sobre os estereótipos
racistas, sobre a intolerância, os guetos, as favelas, o apartheid,
a deportação, o genocídio. Um dos exercícios que propomos já foi
experimentado por uma educadora americana que em sua turma dividiu
os alunos em dois grupos, os vermelhos e os azuis. Na primeira semana,
a professora não deu nenhuma atenção aos vermelhos, lhes negava
a palavra, não os elogiava quando faziam alguma coisa certa e os
castigava em excesso pelo mínimo equívoco. Ao mesmo tempo, foi indulgente
demais com os azuis, elogiando-os continuamente e sempre lhes perdoando
qualquer comportamento fora das normas. Na semana seguinte ela inverteu
a coisa, favorecendo os vermelhos. Dessa forma, os alunos experimentaram
tanto a sensação de poder como o sofrimento e as frustrações de
pertencer ao grupo dos oprimidos e excluídos. A lição que devemos
tirar é que, se sofreste como membro de um grupo oprimido, deves
fazer com que, no futuro, outros não passem pelos teus mesmos sofrimentos.
Nosso
site que não faz ruído é somente um exemplo, mas reforça - espero
e creio - minha idéia de que só os centros de ensino, e entre eles
sobretudo a universidade, são ainda lugares de confrontação e discussão
recíprocas, nos quais podemos encontrar idéias melhores para um
mundo melhor, como o reforço e a defesa dos valores universais fundamentais,
que não se deve manter nas estantes de uma biblioteca mas sim difundir
por todos os meios possíveis.
A universidade
(e inclusive a escola elementar) como força de paz! Em meus sonhos
mais ousados vejo a imagem de um ambiente acadêmico no qual se pode
falar pacificamente até mesmo sobre os problemas mais insolúveis
de nosso tempo. Que imagem linda a de uma universidade onde, num
futuro próximo, povos diferentes possam se sentar para resolver
juntos os problemas desta terra santa e martirizada numa interação
frutífera e leal entre homens de boa vontade.
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