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Impostos
- Está em andamento uma rebelião sem volta
Gilberto
Dimenstein
Folha de S. Paulo
25/07/2004
Começou
a percorrer o país, na semana passada, uma notável
lição de cidadania. É uma exposição,
em praça pública, de uma série de produtos,
na qual uma só idéia está à venda: a
de que o consumidor não sabe quanto deixa para o governo
ao comprar qualquer coisa - de um automóvel a um chiclete.
Ao
analisar as placas com porcentagens grudadas em cada produto, o
visitante da exposição saberá, por exemplo,
que, ao adquirir um carro de mil cilindradas, terá deixado
44% para o poder público. Cada vez que enche o tanque com
gasolina, são mais 53% em impostos.
Os
organizadores dessa experiência, exibida no centro de São
Paulo, apostam no seguinte: quando o consumidor, de fato, souber
quanto o governo lhe tira diariamente, haverá mais pressão
para que melhore o desempenho da administração pública.
Essa
exposição é um detalhe pedagógico de
um crescente movimento no país. "Está em gestação
uma rebelião", afirma Gilberto Luiz do Amaral, advogado
especialista em impostos, presidente do Instituto Brasileiro de
Planejamento Tributário.
A semana
passada deu sinais de que há algo novo nascendo no país:
uma inconformidade crescente, que envolve líderes empresariais,
dirigentes de trabalhadores e classe média, todos contra
a carga de impostos.
Sindicalistas
foram a Brasília para pedir ao governo que baixasse impostos
e, assim, ajudasse os empresários a criar mais empregos -assim
seria possível, segundo eles, viabilizar o pedido de redução
da jornada de trabalho sem diminuição dos rendimentos
dos empregados.
Embute-se
aí a percepção dos trabalhadores de que mais
impostos significam menos empregos, o que vai muito além
de reivindicações corporativas.
Diante
da gritaria geral, o presidente Lula, na terça-feira, cedeu
às pressões e voltou atrás: não vai
mais aumentar a contribuição previdenciária.
Na
sexta-feira, o ministro da Fazenda, Antônio Palocci, anunciou
um pacote que, supostamente, diminuirá em R$ 2,5 bilhões
a carga tributária. Talvez sirva para aliviar o crescente
desconforto da opinião pública em relação
à voracidade fiscal da gestão Lula. Prepare-se: é
apenas o começo.
A experiência
do Feirão dos Impostos é apenas um ínfimo detalhe
pedagógico no panorama de uma rebelião que, silenciosamente,
sem manifesto nem porta-voz, vem sendo feita pelas centenas de milhares
de pessoas que optam pela informalidade, ou seja, pela clandestinidade.
Uma
coisa é os jornais informarem que, em 1988, a carga tributária
representava 22% do PIB e agora representa 40% -o que é algo
incompreensível para o cidadão comum. Outra é
saber que isso custa, por ano, cerca de R$ 212 bilhões. E
mais: saber que cada brasileiro trabalha quatro meses e 18 dias
só para manter os governos. Mais ainda: saber que a carga
de impostos dificulta a geração de empregos e, conseqüentemente,
inibe os aumentos salariais.
Trabalha-se
cada vez mais para manter os governos. E cada vez mais para comprar
os serviços privados que, em tese, deveriam ser públicos.
Está nisso a essência da rebelião.
Não
está faltando muito para o indivíduo, ao comprar uma
barra de chocolate, saber quanto está deixando para o poder
público. E, ao sair do supermercado, irritar-se ainda mais
ao ver o buraco da rua ou a criança abandonada pedindo dinheiro
no semáforo.
Se
cada cidadão soubesse que, por ano, dá quatro meses
e 18 dias em impostos e ainda recebe tão pouco de volta -e
não se esquecesse dessa conta-, seria natural que a pressão
pela eficiência pública fosse ainda maior. E a capacidade
dos governantes de tentar tirar mais dinheiro, menor.
Para
desespero dos poderosos, o que está em jogo é simples.
É justamente o que se vê na experiência da exposição,
em praça pública, de produtos, digamos, pedagógicos.
À medida que a democracia se aprofunda, o cidadão
vai conhecendo mais seus direitos.
Não
dá para o governante confiar por muito tempo mais na ignorância
de quem, além de trabalhar tanto e cada mais vez para sustentá-lo,
ainda recebe pouco.
Está em construção uma nova agenda brasileira,
na qual o desempenho do governante será medido pela eficiência
administrativa combinada com o respeito ao contribuinte. Ou seja,
gastar melhor com menos dinheiro.
PS
- Uma medida simples e barata ampliaria enormemente o efeito pedagógico
daquela exposição. Cada produto vendido deveria levar
o valor dos impostos na embalagem e na nota fiscal. Seria uma implacável
lição diária, a começar das crianças
que comprassem um sorvete. Se dependesse de mim, eu daria a essa
informação a mesma visibilidade das chamadas para
os produtos perigosos para a saúde como as advertências
sobre os perigos do tabagismo nos maços do cigarro.
Desculpe-me
pela obviedade, mas o cidadão tem o direito de saber, em
detalhes, quanto de seu dinheiro (e de que maneira) é usado.
É a forma de os governantes não fazerem à saúde
do contribuinte o mal que o fumo faz aos pulmões dos indivíduos.
Para
ter mais informações sobre a carga tributária
brasileira e sobre os impostos embutidos em cada produto, visite
o site do Instituto Brasileiro de Planejamento Tributário,
clicando
aqui.
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