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Clonagem
de sites é a nova onda na Internet
Alvaro
Teofilo (*)
A Clonaid,
empresa fundada por Raelinos, membros de uma seita que acredita
que os humanos são uma criação de extraterrestres,
prometia em torno de março último, em seu site na
Internet, a apresentação de Eve, a criança
que seria o primeiro clone humano. Curiosamente, a criança
seria apresentada justamente em São Paulo, no final do mês
em que a notícia estava veiculada.
A clonagem
já está há algum tempo no centro das atenções
das discussões científicas. Ratos de laboratório
tiveram orelhas enxertadas nas costas. Uma ovelha foi apresentada
como cópia exata de outro animal, mas morreu há algumas
semanas com indícios de velhice precoce. E alguém
pegou a idéia da Dolly e a levou para a Internet. Clones
de sites de provedores e bancos viraram moda na Internet. Em apenas
três semanas apareceram dois novos clones de sistemas bancários
no Brasil. É interessante discutirmos a contextualização
desse fato, entender suas razões e suas conseqüências.
O sistema
bancário brasileiro é um modelo para o mundo. As tecnologias
utilizadas no Brasil são copiadas em vários países.
O Sistema de Pagamentos Brasileiro, que agilizou a liquidez do sistema
bancário no país é um case fenomenal de integração
entre empresas poucas vezes visto. Efetivamente podemos dizer que
os grandes bancos se preocupam e investem pesado em sistemas de
segurança física e digital, o que inclui o assunto
no topo das preocupações no momento do desenvolvimento
de seus sistemas de banco eletrônico. Os próprios cidadãos
estão ganhando cada vez mais recursos: a senha do homebanking
não é a mesma do cartão de saque, e muitos
bancos incluíram uma senha adicional como um passo necessário
para a autenticação no sistema, políticas de
segurança baseadas na melhores práticas do mercado
foram implementadas, e num futuro muito próximo Certificados
Digitais assinados pelo ICP-Brasil serão distribuídos
por vários bancos para seus clientes, reduzindo de vez as
tentativas de fraude baseadas em adivinhação de senhas
de pessoas ou invasão aos sistemas.
Tendo
todas essas dificuldades à frente, a opção
para se efetuar fraudes em sistemas bancários da Internet
se tornou, então, a clonagem de sites. Os sites clonados
foram hospedados em dois lugares diferentes (um deles dentro do
Brasil). É incrivelmente fácil fazer isso, seja por
meio do uso de ferramentas que literalmente gravam todo o conteúdo
de um site em minutos em um computador, seja por intermédio
do trabalho paciente de se fazer a cópia de cada um dos elementos
de uma página principal.
O processo
começa por meio do registro de um endereço com um
nome em algum domínio parecido com o original. Em seguida,
copia-se apenas a página principal e algumas das funcionalidades
do site original (alguns links, inclusive, apontam para o endereço
real), montando no site falso apenas o necessário para receber
um "cliente". Os criminosos enviam em seguida um e-mail
em massa (spam), para milhares de endereços aleatórios,
acreditando que muitos deles terão contas naqueles bancos.
A orientação dada pelo e-mail, na maioria dos casos,
é o recadastro de informações por "razões
de segurança". E é óbvio, é sempre
solicitada a digitação de suas senhas. As senhas são
então, depois de digitadas, enviadas para os e-mails dos
fraudadores.
As
pessoas mais informadas podem se atentar ao fato de que receberam
uma solicitação de banco por e-mail - um canal de
comunicação quase nunca utilizado pelas instituições
financeiras para se comunicarem com seus clientes tratando esse
tipo de assunto. Mas uma boa parcela responde ao e-mail imediatamente,
sempre preocupada em ter suas contas bloqueadas por conta de uma
falta da requisição "exigida pelo Banco Central",
como alguns e-mails descrevem.
Os
fatores facilitam e encorajam indivíduos a criarem clones
de sites de bancos na Internet são intrínsecos. O
primeiro é o risco calculado de ser preso pelo crime. Será
quase sempre difícil chegar à origem de um indivíduo
que hospede uma página em um país que, por exemplo,
o Brasil não tenha relações comerciais, ou
cujo acesso e comunicação sejam difíceis (por
questões de língua, por exemplo). No caso último
banco, que foi a última vítima da tentativa de fraude,
o site clonado está localizado nas Ilhas Natal, na Austrália.
O segundo
aspecto que está levando esses indivíduos a criarem
os sites é o retorno rápido que as fraudes podem trazer.
Com a entrada no ar do SPB - Sistema de Pagamentos Brasileiro -
os bancos ligaram suas redes em uma Extranet e transações
eletrônicas como transferências de montantes acima de
R$ 5 mil podem ser feitas em questão de minutos, quase em
tempo real. Diferentes do tradicional "DOC Bancário",
o TED - Transferência Eletrônica Disponível -
permite que valores altos possam ser transferidos entre bancos diferentes
em qualquer lugar do Brasil.
Como
a possibilidade de aberturas de contas correntes com nomes falsos
ainda é uma realidade no mercado, seja no Brasil ou em qualquer
outro país, a fraude fica mais fácil de ser efetuada.
Se alguém efetivamente tiver acesso ao banco eletrônico
de um cidadão, poderá efetuar uma transferência
de forma rápida, efetuar seu saque em uma agência bancária
e desaparecer para sempre.
Em
contrapartida à ousadia dos fraudadores em criarem sites
clonados virtualmente perfeitos, podem existir em seus métodos
falhas que podem ajudar a polícia e o banco a encontrar seus
autores. O próprio meio de envio da informação
para os clientes - o e-mail - poderá indicar a origem da
fraude, e o nível de sofisticação e conhecimento
de quem a montou é que facilitará ou dificultará
sua investigação.
Tendo
como base os históricos de fraudes bancárias que tiveram
a Internet como meio, podemos afirmar que nem sempre os envolvidos
nos crimes têm grandes conhecimentos em tecnologia. Há
um caso antigo de uma quadrilha que ligava para a casa das pessoas
e um dos seus integrantes, se passando pelo gerente do banco, oferecia
novos serviços e produtos com vantagens extremamente competitivas.
A máxima de que "o cego desconfia quando a esmola é
grande" não foi lembrada por muitas pessoas que, ao
final da conversa com o "gerente", digitou em seu teclado
do telefone a senha de acesso ao sistema de homebanking, "para
confirmar que aceitara os serviços do banco" - exigência
requerida pelo "gerente". Tudo o que os fraudadores precisaram
para efetuar a fraude foi uma folha de cheque da vítima,
seu número de telefone (obtido nas listas telefônicas
públicas) e boas técnicas de Engenharia Social. O
resto da estória já dá para imaginar.
Os
crimes cometidos na Internet continuarão acontecendo, independentes
das proteções que estão sendo desenvolvidos
em sistemas bancários. O ser humano e sua falta de intimidade
em tecnologia ainda continuará sendo o elo mais fraco da
corrente, apesar dos esforços dos profissionais em campanhas
sem fim sobre segurança e proteção. Os bancos
terão cada vez mais recursos no uso de autenticação
forte, como os Certificados Digitais, que permitirão que
novos negócios sejam feitos na Internet, e os criminosos
também continuarão criando meios de explorar o lado
mais fraco no processo - as pessoas. O que esperamos é que
a consciência individual seja cada vez mais proporcional às
melhorias e investimentos que são feitas na área de
segurança pelos bancos.
(*)
Alvaro Teofilo é gerente de Segurança da Informação
da Caixa Seguros
Fonte:
Agência Brasil - Radiobrás
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